Dostoievski escreveu que se Deus não existisse tudo seria permitido. Esse pensamento reflete em todas as suas obras magnificamente intensas. Sartre, que se declarara “ateu”, talvez seja o filósofo que mais falou de deus, aquele que mais trouxe deus para a filosofia, mais até que filósofos religiosos como Pascal e Kierkegaard.

Sartre toma como ponto de partida a sentença de Dostoievski sobre a existência de Deus: é aí que se situa o existencialismo sartreano. Tudo é permitido se Deus não existe: assim é a sentença de Sartre. Sendo o homem abandonado, “sozinho” no mundo sem um Criador para se escorar, é ele próprio o seu criador. Não há nem dentro nem fora de si que o homem pode encontrar um Absoluto para buscar abrigo, portanto não há desculpas para o homem. Se Deus não existe não há imposição de valores, não há firmamento nem moral por fundamento, não há em lugar algum um anteparo para a moral que defina o comportamento do homem, portanto, cabe ao homem (re)inventar a ética a cada instante, (re)inventar cada valor sem refugiar-se em justificações ou desculpas pois está sozinho no mundo junto com outros seres tão mortais quanto ele. Estamos sós e sem desculpas.

Sem Pai e abandonado no mundo, Sartre nos apresenta um dos pensamentos que mais nos atinge, um pensamento de ímpar necessidade e ao mesmo tempo a pedra angular dos críticos de Sartre (aqueles que procuram um lugar para se refugiar?): é necessário que assumamos toda responsabilidade diante de nós mesmos, cabe ao homem e mais ninguém se responsabilizar pelos seus próprios atos: eis a sua condenação à liberdade. Um paradoxo, pois, não sendo o homem que criou a si próprio (aqui recebe sua condenação), é também o homem livre porque uma vez lançado ao mundo é o responsável por si mesmo, é o criador de si mesmo a partir da sua condição humana.

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