Tu que só surgiste para o suplício do gênero humano, quantos crimes seriam poupados na terra se houvessem degolado o primeiro imbecil que ousou falar em ti! Vamos, aparece se existes e não admitas que uma frágil criatura ouse te insultar, afrontar, ultrajar como faço, renegando tuas maravilhas e rindo de tua existência, feitor de pretensos milagres! Faz um só para provar que existes! Mostra-te, não numa tocha de fogo como dizem ter aparecido ao bom Moisés, não sobre uma montanha como te mostraste ao vil leproso que se dizia teu filho, mas junto ao astro que te serve para iluminar os homens. Que tua mão apareça guiando-o aos olhos deles! Esse ato universal decisivo não te pode custar mais do que todos os prestígios ocultos com que dizem operar todos os dias. Tua glória depende disso. Ousa fazê-lo ou deixa de espantar-te que todos os bons espíritos rejeitem teu poder e se furtem a teus pretensos impulsos, às fábulas que, em suma, publicam a teu respeito todos os que engordam como porcos pregando-nos tua fastidiosa existência e que, semelhantes a esses padres do paganismo alimentados com as vítimas imoladas nos altares, só exaltam o ídolo para multiplicar seus holocaustos.

Marquês de Sade, Diálogo entre um padre e um moribundo.

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