sísifo

Nunca lhe passou pela sua cabeça, na rua por exemplo, à espera de um ônibus ou de uma pessoa, observar os transeuntes passando, absorto apenas na observação, suspenso de suas teorias e preocupações imediatas, sentir-se invadido por um sentimento de, literalmente, que absurdo!? Centenas de transeuntes, bilhões espalhados pelo mundo, cada um jamais igual o outro, pensando o que? apressados para que? fazendo o que? O que cada singular daqueles nos revelaria e o que jamais poderiam nos revelar? O que são todos nossos diálogos e discursos senão formas de ilusão de que nos entendemos? Que é toda essa aparência de seres semelhantes a mim mas que jamais penso que são “Eu”? Um quadro dinâmico onde todos levantam tijolo por tijolo do seu edifício existencial e ao mesmo tempo são abraçados pelo manto soberano da morte: construtores para a morte! – Essa é só uma possibilidade de encontrar o absurdo de que fala Camus. O Absurdo não pode ser apreendido nem conceituado, mas está presente no contato do homem no mundo, podendo se revelar nas mais inusitadas situações.

O Mito de Sísifo, certamente cunhado pela “revolta” de Camus diante da ininteligibilidade do mundo, do Absurdo de ser e existir, é um livro com poucas páginas daqueles raros que são capazes de tirar o nosso mundo dos trilhos. Mas engana quem pensa que encontrará um Sísifo que lamenta eternamente sua existência, o Absurdo de Camus é investido da mesma força criativa encontrada em Nietzsche que se vê, também, diante do absurdo da vida, de um oceano de dor e sofrimento que encontra a redenção no amor fati. Cada um, ao seu modo, desenvolve o tema da irracionalidade da existência, mas ambos encontram o caráter explosivo da alegria diante do encontro autêntico com a aparência das coisas, e a Arte, por excelência, representa esse encontro do homem com o inaudito. Camus, crítico do existencialismo enquanto corrente filosófica, mas sendo “existencialista”, pode ser aquele fio de autenticidade que faltou – a meu ver – nos pensamentos de Heidegger e Sartre: a necessidade de deixar o absurdo e a irracionalidade do mundo também existirem, pois nem sempre é possível manter a crença no homem. Assim, a filosofia do absurdo não busca redenção à miséria do homem, como parece buscar – aliás, é nesse contexto que o rio existencial endossa suas torrentes – as correntes filosóficas existenciais de Kierkegaard, Jaspers, Heidegger e Sartre. Mas cá entre nós, Camus também encontra a sua “redenção”: a aceitação absurdo.

Deixo Sísifo no sopé da montanha! Encontramos sempre o nosso fardo. Mas Sísifo ensina a fidelidade superior que nega os deuses e levanta os rochedos. Ele também julga que tudo está bem. Esse universo enfim sem dono não lhe parece estéril nem fútil. Cada grão dessa pedra, cada estilhaço mineral dessa montanha cheia de noite, forma por si só um mundo. A própria luta para atingir os píncaros basta para encher um coração de homem. É preciso imaginar Sísifo feliz. (grifos meus)

A. Camus, O Mito de Sísifo.

* Imagem: Sísifo. Tizian, 1548-1549. Fonte: Wikipédia

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