- Tio me dá um trocado?
- Não tenho trocado.
- Pode ser sem trocar também.
- Garoto esperto, não tenho.
- Aceito cheque.
- Garoto, só tenho cartão de débito.
- Aceito também tio, vem cá um tiquinho de tempo.

Ao escrever esse diálogo diante de um fato inusitado que presenciei esses dias lembro-me de Camus (O Mito de Sísifo) ao dizer que não sabemos o que achamos que sabemos sem grandes questionamentos, pois se soubéssemos nós nunca mais seríamos os mesmos. Em outras palavras, nós não sabemos o que é um sujeito pedindo esmola, o que é tão comum não só em nossa sociedade como em todo lugar onde há civilização, pois se soubéssemos nós nunca mais seríamos os mesmos: nós não daríamos esmolas nem deixaríamos de dar: explodiríamos a democracia e qualquer outro sistema político, sentiríamos horror de tudo que anda sobre dois pés e tagarela principalmente sobre si mesmo, sentiríamos repulsa estar no contexto global a que estamos (?).

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