Tenho perambulado por outras abordagens psicoterápicas consideradas periféricas no Brasil. Sobremaneira, o Brasil é infestado por psicanalistas e analistas do comportamento, é compreensível se considerarmos a própria história da psicologia no Brasil.

Essas outras abordagens a que me refiro não têm a pretensão de ser sistemas teóricos fechados, reconhecem suas limitações e se alimentam de bases existenciais e reconhecem a importância da psicanálise. Não significa que concordo com todos esses caminhos, me aproprio de algumas técnicas, aprendo com os pensamentos compartilhados e divergentes em relação ao existencialismo. Enfim, enriqueço-me. Nem são tantos caminhos assim, estou a falar das minhas perambulações nas moradas da Gestalt, do Psicodrama e sobretudo da Logoterapia. Esta última que vem me proporcionando conhecimentos que eu os considero de grande valor, mesmo que eu tenha que discordar da perspectiva do fundador dessa terceira escola vienense em alguns pontos, Viktor Frankl.

Frankl, judeu, foi prisioneiro dos nazistas, passando por vários campos de concentração, inclusive por Auschwitz; perdeu pai, mãe, irmão e esposa nas câmaras de gás ou nos crematórios nazistas. E é nesse contexto, como um sobrevivente, mas não querendo fazendo de si um mártir, é que o autor desenvolve uma teoria própria que dentre as várias semelhanças com o existencialismo, é capaz de ressoar um “Sim!” à vida tal como na obra de Nietzsche.

Um dos livros em que ele escreveu inicialmente em forma anônima, “Em busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração”, já foi traduzido em vários idiomas, inúmeras reimpressões e passando dos 2 milhões de cópias vendidas só nos EUA. Considero essa obra de valor inestimável, e certamente de muita valia para qualquer profissional da saúde; muito do que ali presenciou ele utiliza para mostrar, por exemplo, que a sexualidade não é tão preponderante como é para Freud, ou mostrar que os erros nos “compêndios” de medicina não devem ser levados tão a sérios, já que muitos ali transcendiam os limites de sobrevivência e não morriam por inanição nos moldes que a medicina dizia. Para além de ser uma obra biográfica somente, ali Frankl mostra um pouco dos horrores que ele e seus companheiros sofreram bem como já esboça a necessidade de uma psicologia do sentido da vida, a logoterapia, tratando de alguns dos seus princípios fundamentais.

Se a psicanálise toma para si o campo das neuroses como aquilo que ela trata tão bem, embora os resultados possam ser considerados duvidosos, a logoterapia se mostra com excelentes recursos no tratamento daquilo que Frankl chamou de neuroses noogênicas, relacionados com o sentimento de vazio e perda de sentido diante da vida.

Quem sabe um dia eu consiga juntar pouco da Logoterapia e fazer um post específico, mas por enquanto, além de atiçar, porventura, o interesse do leitor pela obra citada acima, faço abaixo a transcrição de parte de uma entrevista de Frankl dada à Revista Manchete, nº33, extraída do livro “A psicologia do sentido da vida” de Izar Aparecida de Moraes Xausa. Creio que esse pequeno trecho deixa explícito e evidente a liberdade, um dos pilares básicos das variadas perspectivas existenciais. Ainda, o conceito de culpa é tratado por Frankl não como algo somente negativo.

No trecho, Frankl fala sobre uma palestra que deu para um grupo de prisioneiros condenados à morte, na prisão de San Quentin (EUA):

“(…) Eles [psicólogos e psiquiatras] diziam aos presos sempre a mesma coisa, que eles estavam ali porque eram vítimas. Vítimas de seu passado, vítimas de sua situação social, vítimas da sua educação, vítimas dos guetos negros. ‘E nós odiamos ouvir isto’, disseram os prisioneiros. ‘Para nós, é como se fosse uma pedra de moinho em volta do pescoço, que paralisa, imobiliza. Por isso resolvemos não assistir mais às conferências de psiquiatras, psicólogos e psicanalistas que vêm aqui. Mas este sujeito, Viktor Frankl, nós fomos ouvir porque soubemos que ele também foi um prisioneiro. Por isso nós ficamos curiosos, e ele nos disse algo absolutamente diferente. Ele nos tratou e nos considerou, pela primeira vez, como seres humanos’. Eu havia dito que eles eram gente como eu. E disse a eles que, como seres humanos, eles eram livres para decidir. Foi nos seguintes termos: ‘Vocês tiveram e têm tido a liberdade para cometer crimes e atos insensatos. Mas agora, por favor, vocês têm a responsabilidade de agir de uma forma melhor. Vocês são livres para mudar e vocês são responsáveis para mudar para melhor’. Isso os impressionou. Se você fala com alguém que não se sente responsável pelo crime que praticou, mas atribui ele à família ou à sociedade, você está retirando a responsabilidade e a culpa desta pessoa, mas você, ao mesmo tempo, está retirando desta pessoa a dignidade de ser humano. Retirando a culpa – e consequentemente a dignidade – você está transformando a pessoa em uma máquina a ser reparada. E os prisioneiros odeiam isto. Eles querem ser considerados seres humanos livres que tiveram a opção de cometer seus crimes e agora têm que assumir a responsabilidade e crescer além desses crimes. E não serem tratados como máquinas que precisam de conserto.”

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