Em um trecho do aforismo 377 de A Gaia Ciência, um dos livros mais belos de Nietzsche, assim encontramos:

Nós, os sem pátria, por raça e ascendência, somos demasiado múltiplos e misturados, enquanto “homens modernos” e, portanto, muito pouco inclinados a partilhar essa mentirosa auto-admiração e indecência racial que agora desfila na Alemanha como sinal de mentalidade alemã e que, no povo do “sentido histórico”, é algo duplamente falso e obsceno.

É a partir desse trecho que Klossowski desencadeia uma série de críticas àqueles que carimbaram Nietzsche com a suástica nazista. Para Pierre, acusar Nietzsche de nazista decorre da má compreensão de dois conceitos fundamentais da filosofia à golpes de martelo: o além-do-homem e a vontade de potência.

Nietzsche sempre buscou os lugares mais potenciais para se viver, longe do aconchego das massas, experimentou diversos lugares com a percepção do quanto isso afetava seu corpo e espírito, solidário e solitário por não encontrar lugar em um tempo que já massificava os homens nos sagrados moldes da universalização, Nietzsche, como o filósofo das várias perspectivas, da dessacralização dos valores e conceitos, aquele que retirou as máscaras do conhecimento, nunca se deixou filiar a nenhum valor senão a própria Vida em toda sua multiplicidade.

Pierre Klossowski foi um francês artista, escritor e tradutor. Autor do livro Nietzsche e o círculo vicioso, um dos mais deslumbrantes escritos sobre Nietzsche já escrito.

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