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O inferno a partir de Marquês de Sade
23jun2009 Categoria(s): AteÃsmo Autor: advEm Diálogo entre um padre e um moribundo e outras diatribes e blasfêmias, na parte Do inferno, Marquês de Sade, formula a necessidade do tribunal de tortura cristão para depois começar refutá-lo:
Os primeiros argumentos de que se servem para estabelecer essa farsa perniciosa [a farsa do inferno] são:
1 – Que o pecado, por ser infinito e em consideração ao Ser ofendido, merece, por conseguinte, castigos infinitos; que tendo Deus ditado leis, é parte de sua grandeza punir quem as transgredir.
2 – A universalidade dessa doutrina e a maneira segundo a qual é anunciada na Escritura.
3 – A necessidade desse dogma para conter pecadores e incrédulos.
Eis as bases que precisamos aniquilar.
Ireis convir, lisonjeio-me, que a primeira se destrói naturalmente pela desigualdade dos delitos. Segundo essa doutrina, o mais leve erro seria punido assim como o mais grave: ora, pergunto se é possÃvel, admitindo um Deus justo, supor uma iniqüidade dessa espécie? Quem, por sinal, criou o homem? Quem lhe deu as paixões que os tormentos do inferno devem punir? Não foi vosso Deus? Assim, portanto, cristãos imbecis, admitis que por um lado esse Deus ridÃculo confere aos homens inclinações que é obrigado a punir por outro? Será que ignorava que essas inclinações haviam de ultrajá-lo? Se sabia disso, por que então conceder-lhes esse tipo de pendores? E se não sabia, por que puni-los por um erro que compete apenas a ele?
De acordo com as condições reputadas necessárias à salvação, parece evidente que seremos bem mais certamente danados do que salvos. Pois eu ainda pergunto se ter colocado sua obra frágil e infeliz numa posição tão cruel faz parte da tão alardeada justiça do vosso Deus e, segundo esse sistema, como vossos doutores ousam afirmar que a felicidade e a infelicidade eternas apresentam-se igualmente ao homem e não dependem senão de sua escolha? Se a maior porção do gênero humano está destinada a ser eternamente infeliz, um Deus que tudo sabe devia sabê-lo. Dito isso, por que, então, o monstro nos criou? Foi por obrigação? Logo, não é mais livre. Foi de propósito? Logo, é um bárbaro. Não, Deus não tinha obrigação nenhuma de criar o homem, e se o fez apenas para submetê-lo a um tal destino, a propagação de nossa espécie torna-se, então, o maior dos crimes e nada será mais desejável do que a extinção total do gênero humano.
Entretanto, se esse dogma vos parece, um instante que seja, necessário à grandeza de Deus, pergunto por que esse Deus tão grande e tão bom não deu ao homem a força necessária para safar-se do suplÃcio. Não é cruel da parte de Deus deixar ao homem a faculdade de se perder eternamente? Encontrareis algum dia um meio de livrar vosso Deus da acusação fundamentada de ignorância e de maldade? (…)
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