Algumas músicas são capazes de nos fazer sentirmos vivos, vivos porque nem sempre somos vivos. Podem nos fazer sentir o que é o fim da existência antes da morte, morrer porque nem sempre “sabemos” o que é morrer. Músicas podem fazer que todo o absurdo de existir, com toda dor e sofrimento inerentes a tudo que é vivo, se justifiquem em infinitos desejos de querer viver tudo isso quantas vezes forem necessárias. Fazem-nos sentir o que somos: poeirinha da poeirinha do Universo. Com músicas podemos nos sentir como matéria vagando na imensidão inenarrável das galáxias do Universo, se empanturrando com visões que queríamos descrever mas ficamos mudos diante da impossibilidade, queríamos gritar sem poder gritar. Músicas são armas para se rebelar contra a morte porque queremos viver para ouvi-las inúmeras e repetidas vezes, um rebelar brutalmente estrangulado. Músicas nos fazem sentir que somos muito mais que deuses e deusas. Fazem-nos “ter caos e frenesi dentro de si para dar à luz uma estrela dançante”. Músicas podem fazer com que nos lançamos dançando em um abismo sem fundo. Música é a linguagem do Universo, linguagem inaudita, inefável e indizível que faz toda razão se envergonhar diante de si mesma. Algumas músicas fazem com que cada célula, cada fibra muscular, cada poro da matéria que somos se manifeste, orquestrando sensações que as palavras não podem atingir com suas mentiras. Música para morrer, música para viver. Morrer de música, suicidar por música, criar por música. Músicas que se fazem de Nada, que são Nada, e que ao Nada retorna nós.

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