E abertamente entreguei meu coração à terra séria e doente, e muitas vezes, na noite sagrada, prometi amá-la fielmente até a morte, sem medo, com a sua pesada carga de fatalidade, e não desprezar nenhum de seus enigmas. Dessa forma, liguei-me à fatalidade por um elo mortal. – Hölderlin, A morte de Empédocles.

Um animal medroso com sentimento de ser especial: eis o homem. Esse bicho sem garras, pêlos, asas, agilidade, couro, escamas, penas, veneno, presas, de visão e audição limitadas, é um ser que se solto nu na selva não suportaria mais que uma noite de inverno. Dirão a estirpe de Poliana que o homem não foi sempre assim, e que se é tão anêmico hoje é porque a evolução assim o moldou, dando em troca uma capacidade de inteligência suprema. Não senhores, o homem sempre foi um ser desprezível que só sobreviveu porque se proliferou em grupos, e certamente que de mil em mil anos chegou a um ser consciente tal como o é hoje. Nada mais nada menos que uma consciência, um produto evolutivo capaz de criar ilusões, como o tal sentimento de ser um ser especial no seio da natureza.

O homem tem consciência já que o seu corpo ele pouco se dá conta. O seu corpo limita-o, mas a sua consciência o ilude na transcendência do que lhe é contigente. Ele está presente tal como uma ameba, mas se vê no futuro enquanto um ser de felicidade plena. Seu corpo é tão desprezado por essa consciência localizada no alto de seu ser, que enquanto sua carne apodrece ele pouco se dá conta, pois enquanto consciência ele se sente um quase imortal colocando sua morte num longinquo que tanto mais se distancia sem se aproximar. Eis a especialidade do homem: sentir-se poderoso porque tem consciência, um acidente evolutivo capaz de criar reinos de ilusões como habitação própria. É assim que esse débil animal suporta a existência, enganando-se, precisa da mentira para a sobrevivência, sobrevivem à consciência.

Porém, embora construa seus reinos com um grande custo para afastar qualquer idéia de morte e apodrecimento de si mesmo e no cultivo de uma idéia de ser uma criatura especial e suprema dentre as outras, arquitetando sua vida em busca do encontro com o deus Felicidade localizado num futuro incessantemente imaginado diante do ser que nunca se é, em sua corrida pela plenitude, o homem quando não está entretido com suas ilusões, sente o cheiro da sua própria podridão, um sopro terrorífico de que não há nada, absolutamente nada que ele possa fazer para não desaparecer com todo o seu poder imaginado. Resta, a partir desse lamento profundo negado pela sociedade que nega a morte e pinta a felicidade, se enredar como de hábito nas suas ilusões, criando deuses e lugares imagináveis que, enfim, irão acomodá-lo em outro mundo que, esse sim, é plenitude absoluta. Mas essa não é a sua atividade única, embora seja a preferida, ele também afasta o medo terrível da aniquilação criando suas tramas e invencionices a partir da ciência e da arte, mas esta última é a sua atividade mais honesta, visto que se sabe ser mera ilusão. É na arte que o homem se vê cadáver a ser consumido lentamente, sabe da finitude e de que mais cedo ou mais tarde ele deixará de ser para nunca mais ser esse “Eu”, desaparecerá tal como os grandes reis ou os mais miseráveis dos povos primitivos que desapareceram sem presenciar milênios ou séculos, pois o mundo continua não se sabe até quando, se em centenas ou milênios ainda mais. E tudo isso não passará de um nada total, sem nenhuma explicação, nenhum esclarecimento sobre como tudo isso existiu e pereceu – transformou-se, pois deve ser esse o destino da matéria, transformar-se indefinidamente como obras do acaso já que o céu é vazio e o abismo é sem-fundo. E somente quando o homem consegue se ver como morto, como não existente em um mundo que continua indefinidamente, é que ele se dá conta do gozo de estar vivo junto com outros elementos que nascem e morrem, das galáxias, estrelas e planetas, aos seus próximos que aqui com ele habitam esse pequeno ponto azul no Universo chamado Terra. Com esse sentimento que revela o inefável não há uma só teoria que não poderá ser quebrada e assumida enquanto tagarelice de homens e mulheres.

Mas tanto mais se afasta esse grito silencioso do absurdo da existência, tanto mais iludidos os homens se fazem. Morrem sem antes ter vivido, pois vida imaginada sem morte é vida sem viver, é vida imaginada. Tão medrosos são os homens que não é por menos que partem, em maioria, desesperados em fuga diante do menor sentimento de morte, se agarrando no pensamento de “não pensar nisso”, e para tal, como crianças, vão para os seus chocalhos e brinquedos coloridos para se entreter: assim se vive, entretendo-se para não viver.

durer_o_cavaleiro_a_morte *Imagem: A morte, o cavaleiro e o diabo, Dürer.

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