Pensamentos, Existencialismo, Trágico, Absurdo, Música, etc.
Nietzsche – uma filosofia à marteladas
27jul2009 Categoria(s): Filosofia Autor: adv“Agora me dão a entender que não apenas são melhores que os poderosos, os senhores da terra cujo escarro têm de lamber (não por temor, de modo algum por temor! e sim porque Deus ordena que seja honrada a autoridade) – que não apenas são melhores, mas também ‘estão melhores’, ou de qualquer modo estarão um dia. Mas basta, basta! Não agüento mais. O ar ruim! O ar ruim! Esta oficina onde se fabricam ideais – minha impressão é de que está fedendo de tanta mentira!” – Genealogia da moral*. Nietzsche, F., p. 38-39.
No chamado “método genealógico” que Nietzsche nos convida a questionar o próprio valor dos valores, o filósofo apresenta que devemos buscar as perpectivas que motivaram a origem do valor. Se Platão eleva o Bem, o Belo e o Verdadeiro como inquestionáveis, firmados no mundo das idéias, Nietzsche vai dizer que não há nada de sagrado nos valores, pois são todos criados pelo homem, os valores são “humanos, demasiadamente humanos”, estão neste mundo e não em outros mundos criados pela metafísica e pela religião.
Falar em valor implica em falar em moral, mas falar em moral em Nietzsche jamais quer dizer falar em maneiras prescritas para agir e pensar, pelo contrário, é falar em perspectivas ou perspectivas avaliadoras. E Nietzsche toma como ponto de partida a civilização grega antes de Sócrates, ou pré-socrática, e essa não foi uma escolha por acaso (Nietzsche e Sócrates já foram abordados nesse blog).
Diz Nietzsche que os nobres (fortes) – referindo-se aos guerreiros dos tempos homéricos – criavam valores como “bom” de acordo com as suas perspectivas auto-afirmativas, portanto, o “ruim” também seguia a mesma lógica, o que na perspectiva desses guerreiros não serviam à auto-afirmação era classificado como “ruim”.
Porém, os escravos, aqueles que não estavam nas condições dos guerreiros, ou se preferir, os fracos, também “criavam” seus valores, ou mais precisamente, não criavam, invertiam a ordem dos valores criados pelos nobres. Ora, os guerreiros se sobrepujavam aos escravos, portanto, os fracos em reação ao “bom” dos guerreiros delimitam-o como valor “mal”, o que é “bom” na perspectiva dos fortes passa a ser o “mal” aos fracos; já o “bom” para os fracos é aquilo que é “ruim” aos guerreiros. Resumindo: os fortes criaram seus valores do “bom” e do “ruim” enquanto auto-afirmações; e os fracos inventaram o valor “mal” em reação ao “bom” do nobre, e o “bom” em reação ao “ruim” do nobre.
Se para os fortes o bom servia para delimitar afetos como orgulho, beleza, força etc., para os fracos isso tudo para a ser classificado como mal; e em reação, o bom para esta perspectiva ressentida são afetos como humildade, feiúra, fraqueza etc.
Basicamente este é o primeiro momento do método genealógico, que nada mais é do que uma “arqueologia” que busca levantar as perspectivas e relacioná-las com os valores que foram criados. Há ainda um segundo momento desse método que consiste em relacionar essas perspectivas e valores e daí engendrar avaliações, trocando as palavras, é preciso avaliar as avaliações dessas polaridades morais: moral dos nobres e moral dos ressentidos.
Ora, quem está certo e quem está errado, os nobres ou os escravos, os fortes ou os fracos? Qual é o verdadeiro bom? – Esse problema não pode ser resolvido. O que fundamenta afirmar que o “bem” é um valor maior que o “mal”? Ninguém pode responder tais questões senão se colocando dentro de sua própria perspectiva avaliadora.
Daí que não há nenhum valor absoluto, nenhum valor pode ser tomado como verdadeiro ou falso, pois ele sempre é um valor em perspectiva que não comporta a pluralidade da vida. “Bem” e “Mal” são valores por si só, um não é melhor que o outro que possa determinar sempre uma perspectiva de antemão: a valoração se dá em perspectiva, portanto, um valor por si só não é “bem” nem “mal”. Aos valores os homens imprimem suas loucuras e suas insanidades, como apontado pelo filósofo romeno Cioran.
Contudo, vivemos no aqui e agora, e Nietzsche inverte a forma de avaliar os valores. A pergunta a ser feita não é mais agir pelo “Bem” ou pelo “Mal”, mas “Para além do bem e do mal”. O único critério que não depende de classificação, e que se impõe por si só é a Vida. A Vida não pode ser julgada pois não há outra para que possamos julgá-la, a vida é, tal como ela é: pluralidade. Viver é estar presente tanto para o prazer como o desprazer. Uma vida que é nesse mundo, não no mundo platônico, no mundo científico e tampouco no mundo religioso. A Vida é a única que pode responder pelo valor, um valor-perspectiva. Eis então a pergunta invertida que a filosofia até então não fizera: tal valor é expansivo ou degradativo para a Vida?
Sucintamente, para Nietzsche a vida é pluralidade de forças agindo querendo se expandir. Não convém a razão dizer que força é essa, ela não é essência, é aparência: onde há vida há forças em movimento agindo em busca da expansão. [Deixo aqui um convite ao leitor: relacionar a física quântica e a teoria das cordas, no âmbito da perspectiva/aparência, com essa concepção de vida em Nietzsche.]
Se o amor pela vida se auto-impõe como incondicional já que não há como julgá-la, colocamos a Vida como centro de avaliação e perguntemos: o que eu estou chamando de “bom” e o que eu estou chamando de “mal” são expansivos, são potentes à minha vida em dada situação? E naquela outra situação, o mesmo critério do “bom” permanece?
Onde há vida há vontade de potência, diz Nietzsche, onde há vida há luta por expansão, por sobrevivência, por superação, e isso não enquanto algo somente do homem, mas de tudo em que vive; e onde há expansão há também degradação. Meu organismo é composto por múltiplas células, “múltiplos seres vivos microscópicos”, e lutam por expansão. Nesse sentido, um valor só pode ser tomado como “bom” quando é expansivo ao viver, e “ruim” quando é degradativo ao viver. Contudo, somente o homem-singular poderá responder tal questão. Somente eu posso dizer, tal como se um determinado alimento é saboroso ou não, se determinado conteúdo expande o meu viver.
Decorre daí que tudo, dos mitos à ciência moderna, onde há conhecimento, há valores que foram engendrados e, portanto, não são firmamentos senão perspectivas. Nem a ciência nem a religião possuem a verdade. Só a vida singular detém a “verdade” e está não é feita de rocha, é uma perspectiva que pode ser quebrada a qualquer momento. É um saber que está sempre dançando à beira do abismo.
Nietzsche não nega a ciência nem a religião, quem vai determinar isso é a vontade de potência. A ciência pode criar valores que diminuem a potência do viver tanto quanto a religião.
Mas por que Nietzsche dinamita o judaísmo e o cristianismo? Ora, poderia ser também uma religião oriental. A questão é que Nietzsche analisou o que predominou no mundo ocidental. E o que predominou e ainda predomina é uma moral do ressentimento, do escravo. E hoje, com a globalização, arrisco dizer que a moral escrava é a que predomina no mundo. Mas como isso veio a acontecer se antes eram os fortes que sobrepujavam os fracos?
Ora, a Grécia pré-socrática foi assolada pelo “demônio de Sócrates” (expressão do próprio Nietzsche) que instituiu um modo de pensar que dominou o mundo: a razão como instância a determinar a verdade e a mentira. E com a derrocada da multiplicidade das religiões pagãs, a morte dos deuses gregos, surge então o imperador da desgraça: o deus monoteísta. Os sacerdotes passam a dominar e classificar a vida, isto é, a moral do ressentimento, portanto, dos fracos, passa a sobrepujar a moral expansiva à vida.
Com os sacerdotes as portas do inferno foram abertas e o veneno judaíco-cristão se espalhou pelo mundo, portanto, um outro mundo no supra-sensível passa a ganhar primazia sobre o mundo do aqui e agora; a alma passa a ser detentora do bem e o corpo do mal. Platão já instalara o “mundo das idéias” como mais primordial, daí que Nietzsche irá dizer que o cristianismo é um platonismo vulgar: platonismo para o povo.
Na religião judaíco-cristã o que é considerado expansivo à vida passa a ser classificado como “mal/ruim/errado”, e do outro lado, o que degrada a vida assume o posto de “bem/bom/verdade”. Esse mundo é negado em detrimento de outro: a vida eterna. O corpo, potência primordial da vida, é negado em detrimento do espírito. O orgulho de si, da vida em si, é negado em detrimento da humildade, uma posição de rebaixamento que se assume boa… e por aí vai, os exemplos são inúmeros.
Cabe aqui deixar claro que Nietzsche não está falando em forte e fraco em termos econômicos, sociais ou de força física, mas sim enquanto uma questão de atitude e ação perante a vida. Tomemos um exemplo: uma pessoa de baixo nível econômico pode ter uma atitude de realizar todos os esforços possíveis a sair de sua condição sem negar a vida [uma vontade de potência expansiva] ou pode negar essa vida como um castigo a ser vivido para então ser recompensada no paraíso (uma forma de ser passivo e não lutar diante da situação), onde ela tendo uma percepção de humildade de si mesma, portanto, “boa”, se orgulha de si e vê os “fortes” como errantes e passíveis de se queimarem no “inferno [vontade de potência degradativa].
Pensando numa relação com o eterno retorno, um sentimento-atitude diante da vida e não uma coisa cósmica existente, a Vida em Nietzsche não é passível de julgamento, portanto, a forma máxima de afirmação da vida é o amor incondicional de modo que, diante da indagação da oferta do “demônio”: Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e seqüência”, não encontraria outra resposta senão um Sim!
Para finalizar, gostaria de convidar o leitor a pensar no quanto o método genealógico é um recurso extremamente potente para a vida, na medida em que nos possibilita quebrar nosso edifício de valores que construímos muitas vezes com pedra.
* Nietzsche, F. Genealogia da moral: uma polêmica. Cia. das Letras, 2001. Trad.: Paulo César de Souza
adfsgsdf
agosto 10th, 2010 at 20:53
Po cara, com esse post matei dois coelhos numa cajadada só aqui no trabalho da escola!
post exímio!