Freud e Anna Freud

freud-e-anna-freud Lembro de ter lido em um dos artigos técnicos de Freud na qual não me lembro do nome, a sua recomendação de que não se deve analisar pessoas próximas, um amigo ou familiar.

Bem, creio que independente da indicação de Freud, parece óbvio para qualquer terapeuta de bom senso que uma análise psicanalítica ou qualquer outra psicoterapia não avança com pessoas próximas. Ora, nada impede de, em uma situação de emergência, realizar um “acolhimento”, mas psicoterapia ou análise é inviável, não consigo imaginar como isso seria possível e não conheço nenhum psicoterapeuta que diria que isso é possível.

Não há nenhuma limitação quanto a isso no código de ética, talvez justamente por ser uma questão óbvia: quem tentar irá se deparar com conflitos que irão impossibilitar o processo, “contaminando” o vínculo, a abordagem dos temas e a liberdade de perguntar.

Contudo, Freud parece não deu importância ao que escreveu. E em 1918 analisou a sua queridinha filha Anna Freud. Qualquer similaridade com o pseudônimo de Bertha, Anna O., é mera coincidência? Hummm….

Como se sabe, Freud era um homem ambicioso e queria universalizar a psicanálise, realizava círculos de discussão onde o mesmo era mestre e os outros discípulos. Talvez “discípulo” seja a palavra mais correta para se referir ao que Freud esperava dos que se interessavam pela psicanálise. (Que perturbação foi, ainda nos dias de hoje, ter aula com uma “discípula” de Freud!)

De “personalidade” difícil, não foi por acaso que Freud rompia relações com quem discordava de suas idéias. Jung que o diga; o mesmo chegou até a oferecer ajuda para Freud (em época que eles já haviam rompido) quando este fugia do regime nazista, mas o inquebrantável orgulho de Freud não cedeu nem mesmo em uma circunstância extrema como essa: recusou a oferta do seu ex-amigo.

Ora, Freud não foi um homem que só tratava da burguesia, embora iniciou tratando pacientes da alta sociedade, o mesmo tinha uma preocupação em difundir a psicanálise entre a população que não podia pagar, há uma famosa frase de Freud da qual não me lembro mas que sintetiza essa sua atitude. A sua ambição e preocupação com a psicanálise não foi somente um orgulho pessoal, parece ser impossível discordar que Freud se interessou profundamente em ajudar as pessoas a serem mais libertas diante da repressão, e não compactuava nem um pouco com os encarceramentos nas prisões da loucura, como Salpêtrière, por exemplo.

Assim, Freud pode ter sido movido por esse seu sentimento profundo de compreensão do outro enquanto paciente e da sua ambição com a psicanálise, ora, Anna Freud representava o patrimônio mais próximo do legado psicanalítico. Nesse sentido, a ambição supera a questão do laço sanguíneo e Freud analisa sua própria filha. Independente do teor dessa análise, é bom lembrar que Freud também foi humano, portanto, impossível de sair de sua própria história de vida a ponto de fazer uma análise sem ser perturbado. Ora, a análise da filha também, em certa medida, é um reflexo da análise do pai, e Freud sem dúvidas deve ter sentido como nunca uma transferência pungente como a ponta de uma lança. Por assim dizer, nessa situação o Édipo foi interpelado pelo próprio “Pai” (óbviamente que a figura do pai de Anna não necessariamente deveria ser Freud).

E como muito da psicanálise Freud elaborou colocando no divã suas próprias experiências, analisar Anna deve ter sido para Freud sentir o sopro do “incesto” (não necessariamente em ato) moldando ainda mais a sua obsessão pela sexualidade do homem.

Foto: Freud e sua filha Anna, 1913.

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