Costumam dizer que as propagandas têm a nobre função de informar as pessoas sobre o que elas estão comprando. Elas informam o que o indivíduo deve possuir para conquistar um romance hollywoodiano, ser bem visto pelo chefe, conseguir destaque no meio das massas pálidas e apressadas, mas o que se está comprando deve ficar o mais distante possível aos olhos do comprador.

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Um dos elementos mais explorados na propaganda é o figura-fundo. O produto é meramente uma figura pouco notável que está por acaso em um cenário alegre, confortável e prazeroso onde os estranhos se tornam grandes amigos, as famílias se tornam perfeitas, os amantes são afáveis e as crianças são geniais e empreendedoras, e não passa menos evidente o quanto os personagens são joviais. Desses fantoches em forma de seres humanos, quem está usufruindo dos poderes mágicos do produto é quem ganha destaque, o melhor beijo, o melhor sorriso, a melhor bunda… Contracena também o idiota que não está usufruindo do produto, para este fica o desprezo e o atraso.

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Se se quer ver uma propaganda enquanto um sem-sentido com alguns fantoches falantes de maneira conspícua e espalhafatosa, é necessário tornar mudo o som do televisor: é aí que as devidas proporções dessa anomalia mundial se destaca.

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A atividade de tentar persuadir tudo o que anda sobre duas patas e pensa para se entupirem de entulhos industriais embalados com brilhantes e coloridos que anunciam promessas messiânicas, feita por publicitários, costuma se chamar criatividade: é quando a carniça mostra-se como matéria intelectual. As crianças são tenros alvos para esses abutres do marketing.

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As escolas deviam ensinar às crianças a capacidade de ridicularizar o ridículo das propagandas. Poderia se fazer teatros utilizando os produtos para ver se eles possuem realmente os poderes mágicos com que são mostrados; fazer uma análise das mil e uma utilidades que os produtos se apresentam e depois ponderar se elas precisam daquilo para daí correrem o risco de não ver utilidade alguma; oferecer super-heróis e brinquedos que são exibidos em um tela onde tudo acontece e questioná-las se os bonecos realizaram sequer um boneco para então mostrar que não passam de um plástico inanimado. Elas aprenderiam a rir dos anúncios; iriam se deparar com os enganos que as mercadorias transmitem; iriam se decepcionar e desenvolveriam espírito crítico para ridicularizar os abutres do marketing.

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É possível que não só as crianças, mas também adultos, homens e mulheres, fiquem doentes, submissos, sintam-se incapazes e desenvolvam patologias onde a baixa autoestima os sufocam porque não possuem determinados produtos. Acreditam que estão atrasados, velhos, empoeirados e defeituosos se não conseguem acompanhar o ritmo alucinado do câncer da indústria tecnocultural.

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Os que acenam com graciosidade às novidades mais do mesmo que lhes oferecem costumam se sentirem renovados. As peças humanas que compõem a civilização podem sentir que tiveram seus prazos de expiração renovados ao consumir, fazem com que sintam distantes do momento em que poderão ser refugos para a sociedade.

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Quem fazer uma análise sociológica, psicológica ou antropológica da mercadoria poderá chegar também, em medida para mais ou para menos acertos, a uma análise do homem pós-moderno.

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As revistas voltadas para o público jovem são fartas em teorias – acompanhadas de testes – que o ensinam como ser comprados ou ser vendidos no leilão dos laços afetivos.

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Como fazer… e como ser… são como cantos de sereia que chamam os marujos pós-modernos de pouca capacidade crítica. Há blogueiros que são verdadeiros surrupiadores da ingenuidade alheia, mas esses néscios também estão na mídia impressa, televisiva e nas áreas de palestras dadas por “especialistas”.

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Homens e mulheres fazem compras como turismo e passeios, passam momentos agradáveis na segurança dos shoppings, desfrutam dos sorrisos e das amabilidades dos vendedores atenciosos e admiradores que sabem o que eu preciso ou parabenizam minhas escolhas. Alguns saem com sacolas cheias, muitos saem de mãos vazias. Mas não importa, o shopping serviu como um momento turístico para o fim de semana das famílias ou dos amantes. Mas a felicidade nesse caso é aquela inventada pelo progresso, tão logo se deitam em suas camas para dormir e sentem o tédio e o vazio soprar nas entranhas.

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As pessoas sabem que as mercadorias exibidas nos simulacros barulhentos e brilhantes estão encenando. Mas então por que agem como se não soubessem que a cerveja não contém uma bela mulher nua? Ou que os cremes para rugas não irão oferecer a juventude eterna? – Elas talvez saibam que dentro das embalagens as fadas não irão sair de mãos dadas e varinhas em mãos para criar o paraíso, mas veem nas mercadorias passaportes para algo mais… uma ferramenta que irá possibilitar alcançar mais rápido e com muito mais deleite a FELICIDADE!

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José nasceu em lar pobre. Sonhador, desde pequeno, disse pra si mesmo que iria trabalhar muito, dias e noites se necessário, para conseguir uma Ferrari. É certo que José trabalhou, muito e em muitos cargos, vendeu frutas na feira, foi empacotador de caixas, vendedor de picolé… Consumiu, às vezes ficara meses e até anos pagando mensalidades de algum produto que comprara, nesses momentos José experienciara uma sensação feliz de cumplicidade e amizade com o tagarela do vendedor, mas depois sentira se só e inconsequente, pois prejudicara seu orçamento. Mas não importa, batalhador, brasileiro que não desiste nunca, José produziu, consumiu e morreu… Mas isso é o que pouco importa, a vida de José passou como um relâmpago, sua vida foi gastada como num repente, é certo que quando jovem ele não via a hora de fazer 18 anos para conseguir consumir produtos e serviços que até então não podia, o tempo da infância é uma eternidade, mas depois de trabalhador não havia semana que José não percebia como algo não vivido – Essa semana passou e nem vi – reclamava frequentemente para si mesmo. Mas o que importa? José vai ser substituído, já não tem mais utilidade, não porque está morto, mas antes porque não pode consumir pois está morto. O prazo de validade de José se expirou, e ele foi sepultado junto com seu sonho de ter uma Ferrari, algo que nem chegou a ver de perto.

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O morto que deixar uma herança a um serviço funerário honesto para que mensalmente renove seu túmulo com fartas coroas de flores, viverá mais.

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