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Casamento e fracasso sexual em Reich
18ago2009 Categoria(s): Sexualidade Autor: adv
Wilhelm Reich foi um psiquiatra e psicanalista mais conhecido por sua denúncia agressiva à sexualidade da miséria remontada dos primórdios do patriarcalismo e, creio, que nos dias de hoje Reich também estaria criticando a miserabilidade sexual, uma vez que os ideais valorativos continuam vigente, separando homens e mulheres com polaridades socioculturais opositoras para mais ou para menos esclarecimentos. Ainda, o casamento, instituição que Reich fez total oposição, continua sendo algo desejado por uma ampla maioria, com mudanças no visual mas com juras e promessas ante o padre, o juiz e os códigos morais de fidelidade e posse. Se se quer ver o que sobrou da face despótica da era medieval, onde a Igreja bradava com fogo e espada, basta olhar para o casamento enquanto ofício.
Decorrente da história primitiva de uma sociedade matriarcal onde Reich não via repressão da sexualidade, a modernidade é construída, ao contrário, sobre um sistema patriarcal com ênfase em um casamento monogâmico, que serve para desenvolver traços de caráter autoritários e sustentar um sistema social baseado na exploração e dominação.
Com sua crítica radical à sexualidade, Reich inevitavelmente também desafiou as autoridades: o amor romântico não se faz sem ordem e tirania o suficiente. Como o mais famoso psicanalista radical da sexualidade, Reich foi perseguido por vários grupos, psicanalistas ortodoxos, organizações religiosas, instâncias governamentais (norte-americana principalmente) e chegou a ser chamado de “fascista vermelho”. Investigado pelo FDA (Federal Food and Drug Administration), acabou processado e condenado à prisão em 1957, aonde veio a falecer alguns meses depois sofrendo de um ataque cardíaco. Dizem também que sua prisão tem forte contribuição da sociedade freudiana, círculo da qual sofria perseguições.
O casamento religioso-burguês foi o indicador de decadência e miséria que Reich utilizava para avaliar a modernidade. Talvez a mais aguda crítica feita por Reich à condição sexual que vivem os homens e mulheres, esteja sintetizada em um pequeno livro chamado Listen, little man! [Ouça Homenzinho!]. Com o termo irônico “homenzinho” Reich se refere principalmente a um certo membro do sexo masculino que emanou ao longo da história um exército demoníaco de separação entre o “macho” e a “fêmea”. Mas não se restringe apenas ao pênis, se dirige também ao homem que segue sua vida como um escravo das convenções, os que exercem o autoritarismo, em suma: aos neuróticos que se creem os mais “corretos”: o homenzinho anseia por felicidade, mas é embriagado por uma moral que clama por segurança.
Reich diz que o “homenzinho” é um desprezível, impotente, rebaixado, miserável, rígido, inerte e vazio; é o próprio escravo de si mesmo. O “homenzinho” não nasce, ele é formado historicamente nas sociedades de represamento da energia sexual, pois para Reich a nossa principal fonte da felicidade é a sexualidade expressa de modo adequado, natural e não antinatural como tem sido construída.
Uma sexualidade adequada que proporciona uma sensação de “vida viva” nutre as potencialidades do “eu”, de forma que proporciona um caminho além do desejo pela dominação. Nesse sentido, Reich nos diz que em vez de uma “sexualidade dirigida” que anseia por “beliscar o traseiro de todas as empregadinhas”, a sexualidade satisfatória tornaria as pessoas “abertamente felizes em seu amor”.
Como principais elementos que Reich aponta no sentido de des-construir o estado de miséria sexual, estão a reforma política e a reforma do caráter (1) das massas. Sendo que sem liberação sexual não seria possível a reforma política. Defensor da igualdade sexual entre homens e mulheres, Reich deu especial atenção à sexualidade infantil e adolescente, pois são estes que poderiam vencer a moral patriarcal de dominação sexual. Às crianças deve ser dado o direito da sua naturalidade sexual que se manifesta no envolvimento com jogos sexuais, e também a masturbação, que deve ser resguardada da dominação dos pais. Já os adolescentes devem ser assegurados da satisfação de suas necessidades sexuais sem o controle social e familiar. Curioso notar é que a homossexualidade era vista por Reich como decorrência de uma libido frustrada, que desapareceria com uma progressiva liberalidade da sexualidade, o que contraria a ideia que costuma estar presente de que os homossexuais são pessoas com maior liberalidade sexual.
A obra de Reich é considerada por muitos – certamente burgueses que atuam na segurança de suas neuroses – como uma apologia da perversão, suas ideias tidas como bizarras e sadistas. Desconheço que existam terapeutas baseados estritamente na psicanálise de Reich, contudo é imprescindível conhecer o pensamento desse autor quando se quer refletir sobre a sexualidade. Em uma perspectiva pessoal considero Reich, para além de sua teoria, um grande escritor. O que a obra de Freud tem de enfadonha, “neuroticamente” escrita dentro dos moldes científicos, os escritos de Reich podem dar a impressão de se estar lendo um Voltaire, ora mais flamejante, ora mais comedido.
A terapia reichiana tem por finalidade “desconsertar” o caráter que funciona como uma armadura do ego, quebrar o “equilíbrio neurótico” pois então a capacidade para o espontâneo, que tem suas origens no prazer sexual, seria liberada. Para Reich a potência orgástica é perdida pelo indivíduo no processo civilizatório baseado na repressão, a terapia consistirá no restabelecimento dessa potência perdida em um desenvolvimento psicossexual insatisfatório. A livre-associação na psicanálise de Freud é posta sob suspeita por Reich, para ele era mais um método de afastar o indivíduo dos problemas do que uma facilitação para um desvelar. Isso porque em Reich o corpo assume maior expressividade que a palavra. Nesse sentido, Reich acreditava que quando o paciente para de falar, a expressão corporal da emoção se manifesta com maior liberdade. Daí que se torna comum na psicanálise de Reich, técnicas como relaxamento, massagem e dissipação da tensão corporal.
Abaixo, um trecho da obra ora citada:
Você é um Homenzinho Miserável! Você dirige seus automóveis e trens sobre as pontes inventadas pelo grande Galileu. Sabe, Homenzinho, que o grande Galileu tinha três filhos, sem certidão de casamento? Isso você não conta para seus alunos. E será que você não torturou Galileu também por isso?…
Você não suspeita do fato de que é a sua mente pornográfica e a sua irresponsabilidade sexual que o algema em suas leis matrimoniais…
Você não tem mulher, ou se tem uma, só quer “deitá-la” para provar o “homem” que existe em você. Você não sabe o que é o amor…
Você sabe, e eu sei, e todos sabem, que você anda em círculos em um estado perpétuo de fome sexual; olha avidamente para cada membro do outro sexo; fala com seus amigos sobre o amor em termos de piadas sujas… Certa noite, ouvi você e seus amigos andando pela rua e gritando em uníssono: “Queremos mulheres! Queremos mulheres!”
(1) Para Reich o caráter é uma formação defensiva e rígida, uma espécie de armadura protetora que impõe resistência às vicissitudes da vida, em termos psicanalíticos é um “enrijecimento do ego”.
* Para o que se refere à obra Listen, little man! foi utilizada a obra a “ transformação da intimidade, Anthony Giddens. As obras de Reich que ofereceram suporte a esse texto foram A revolução sexual e Casamento indissolúvel ou relação duradoura?.
Rogério da Costa Diniz
agosto 19th, 2009 at 11:00
Achei muito interessante esse pensamento de Reich..Não imaginava que existiu um psicanalista que criticou as convenções do mundo, e esse enrijecimento do ego humano. Pra mim suas idéias merecem crédito sim. É bem original diante de psicanalistas que só querem afastar o homem de seus problemas, impedindo-o conhecimento de sí mesmo..
adv
agosto 19th, 2009 at 15:41
@Rogério da Costa Diniz: olá Rogério, há muitos psicanalistas com idéias bem diferentes das de Freud, a psicanálise freudiana desencadeu uma série de discordâncias e com isso a proliferação de psicanalistas que Freud chamava pejorativamente de “silvestres”; não foi à toa o anseio de Freud por encontrar alguém que levasse suas idéias adiante de forma original, a criação de círculos fechados, sociedades internacionais… etc ;)
Rogério da Costa Diniz
agosto 20th, 2009 at 7:40
Sinceramente, penso que as terapias e tratamentos, que esses psicanalistas “silvestres” são pouco usadas, ou na verdade nem são difundidas nesses centros…Por isso que pensava que a psicologia de hoje, é muito pretensiosa em encaixar o individuo nas convenções sociais..só imaginava que era útil só pra isso..
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agosto 20th, 2009 at 18:23
@Rogério da Costa Diniz: olá Rogério, concordo, a psicologia praticada por certos profissionais [e em certas abordagens] é muito mais uma instituição voltada para encaixar o indivíduo nas convenções sociais [diria até que a saúde moderna de modo geral constituiu assim]. O lado bom é que se olhar um pouco atrás é possível ver que ela já foi muito mais uma instituição de correção para a vida, juntamente com inúmeras outras áreas da saúde. Obrigado por acrescentar, foi bom ler isto… algumas coisas eu não poderia dizer se não iriam querer me mandar à fogueira ;)