mulheres_intimas Nem todos os desejos sexuais são iguais mas a nascente só pode ser uma: o corpo próprio. Mas tampouco se pode saber onde nasce onde termina um desejo de consumir-se: um orgasmo pode ser antes um grito de imortalidade, um desafio à morte, Estou pronto para morrer pois sou imortal, diz o gozo: la petite mort. Esse breve e fulgurante consumo corpóreo que cega e cala a consciência também em mesma medida de tempo, sarcasticamente pode trazer a sensação de morte assim que as chamas vão às cinzas. Quanto mais alto se escala e tão mais intenso se precipita no abismo do prazer, tanto maior é a sensação do horror que se sucede. Se se não consegue viver dançando sobre o abismo, pelo menos no orgasmo o ser dança no sem fundo. A plenitude que o ser tanto almeja alcançar, diante de um ainda não sou mas irei ser, atinge sua presença no orgasmo, mas tão logo se quebra e lá está o ser novamente como um não-ser: enojado, todo o desejo de possuir-te se transborda em repulsa: parece que a única forma de não ser visto nesses momentos como um insano aproveitador é disfarçando-se com as boas convenções que o amor romântico criou: é para isso que ele serve, um acessório inventado para as pessoas darem sentido às desconhecidas nascentes que podem surgir entre os corpos que se desejam demoníacamente no próprio interior mas que na partilha os desejos só possuem uma linguagem angelical para chegarem a um acordo. “Como gostaria de te derreter na boca meu bem” que na comunicação social da sexualidade institucionalizada pode não passar de um beijo na boca: irrisório diante do que se passou no interior daquele que desejou “derreter o outro na boca”. Em última instância nem os perversos se satisfazem tal como se encena em consciência, é um jogo desigual onde o outro não atende à violação feita em consciência: somos civilizados, enfim, somos recatados, mas se violamos o outro em formas ardentes na consciência é porque somos civilizados. No íntimo da consciência pode se desejar “arrancar” e ser “arrancado”, mas no limite do outro não passa mais de um carinho ou no máximo um carinho abusado.

* Arte: Mulheres íntimas [autor desconhecido]. Fonte: Museu de Arte Erótica Romeo Zanchett.

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