Pensamentos, Existencialismo, Trágico, Absurdo, Música, etc.
Êxtase e horror: sexo com filosofia
3set2009 Categoria(s): Pensamentos Autor: adv
Nem todos os desejos sexuais são iguais mas a nascente só pode ser uma: o corpo próprio. Mas tampouco se pode saber onde nasce onde termina um desejo de consumir-se: um orgasmo pode ser antes um grito de imortalidade, um desafio à morte, Estou pronto para morrer pois sou imortal, diz o gozo: la petite mort. Esse breve e fulgurante consumo corpóreo que cega e cala a consciência também em mesma medida de tempo, sarcasticamente pode trazer a sensação de morte assim que as chamas vão às cinzas. Quanto mais alto se escala e tão mais intenso se precipita no abismo do prazer, tanto maior é a sensação do horror que se sucede. Se se não consegue viver dançando sobre o abismo, pelo menos no orgasmo o ser dança no sem fundo. A plenitude que o ser tanto almeja alcançar, diante de um ainda não sou mas irei ser, atinge sua presença no orgasmo, mas tão logo se quebra e lá está o ser novamente como um não-ser: enojado, todo o desejo de possuir-te se transborda em repulsa: parece que a única forma de não ser visto nesses momentos como um insano aproveitador é disfarçando-se com as boas convenções que o amor romântico criou: é para isso que ele serve, um acessório inventado para as pessoas darem sentido às desconhecidas nascentes que podem surgir entre os corpos que se desejam demoníacamente no próprio interior mas que na partilha os desejos só possuem uma linguagem angelical para chegarem a um acordo. “Como gostaria de te derreter na boca meu bem” que na comunicação social da sexualidade institucionalizada pode não passar de um beijo na boca: irrisório diante do que se passou no interior daquele que desejou “derreter o outro na boca”. Em última instância nem os perversos se satisfazem tal como se encena em consciência, é um jogo desigual onde o outro não atende à violação feita em consciência: somos civilizados, enfim, somos recatados, mas se violamos o outro em formas ardentes na consciência é porque somos civilizados. No íntimo da consciência pode se desejar “arrancar” e ser “arrancado”, mas no limite do outro não passa mais de um carinho ou no máximo um carinho abusado.
* Arte: Mulheres íntimas [autor desconhecido]. Fonte: Museu de Arte Erótica Romeo Zanchett.
Seth
setembro 3rd, 2009 at 23:19
Cara… Não sei se esse tipo de literatura lhe apraz, mas há alguns meses atrás estava lendo Anne Rice… tá bom, eu sei, literatura barata… às vezes eu tento desligar o cérebro… e nesse livro encontrei algumas passagens que me chamaram a atenção, e lendo este seu “post” achei interessante comentar com uma dessas passagens:
Livro: O Ladrão de Corpos [Passagem: sobre o sexo, o gozo com/de Gretchen];
“… E lá estava outra vez, o mistério – como uma coisa podia ser tão totalmente perfeita e durar tão pouco. Apenas um momento precioso.
Teria sido uma união? Seríamos um só naquele silêncio clamoroso?
Não, não acredito. Ao contrário, parecia a mais violenta das separações. Dois seres opostos lançados um contra o outro, ardendo de desejo, num misto de confiança e ameaça, os sentimentos de cada um desconhecidos e misteriosos para o outro – a doçura do momento, tão terrível quanto sua brevidade. A solidão tão dolorosa quanto as chamas que o alimentavam…”
adv
setembro 4th, 2009 at 11:34
@Seth: olá, eu não conheço Anne Rice, não tenho nada contra literatura barata, penso ser mais fundamental o que o leitor faz com aquilo que lê. Usei o exemplo do gozo pois me é o mais evidente, mas penso que qualquer êxtase inevitalmente é seguido de um tédio/terror/angústia/vazio, não necessariamente de maneira linear e sequencial: mas caminhamos entre êxtase e tédio durante a vida. Um outro exemplo bem comum é uma compra por “impulso”, inicialmente o produto o seduz por múltiplos motivos, mas depois que a “embalagem” é aberta o comprador pode entrar em lamentação e então tentará se defender buscando argumentos prós… Gostei do trecho selecionado, não captei a partir dele se o que o autor está chamando de mistério é o momento do clímax ou pós-clímax, no primeiro caso acho que há um sentimento de uno, perfeita plenitude que se quebra abruptamente e daí advém o sentimento absurdo.
Um romance que li a um bom tempo mas acredito que em vários momentos irá tratar sobre essa situação é a “Insustentável leveza do ser” (Kundera); trata em perspectivas diferentes, para dois dos personagens (uma mulher e um homem) esse plano do êxtase ao tédio era vivido como puro absurdo, o pós-coito sucedia ao vazio; já outros dois (um homem e uma mulher) viviam isso mas buscavam dar sentido a tais sentimentos como tentativa de fuga a partir de ideais; um outro que deve também trazer esse assunto é a “Idade da razão”, primeiro volume da trilogia “Os caminhos da liberdade” do Sartre.