A madeleine de Marcel Proust

O mundo de Proust legado em seus livros me mostrou como uma atmosfera densa e sufocante de lembranças e memórias. Refúgio de Proust?

Não consegui respirar sob a atmosfera de Proust por muito tempo. Fiquei enojado, tive que correr daquele cheiro de passado enaltecido à quintessência. Arfando estourei aquela bolha de lembranças e corri pensando que aquilo deveria ser o céu para algum psicanalista.

Não tive sangue para avançar além da parte primeira de No caminho de Swann. Quando fui assaltado pelo pensamento de que havia 7 volumes “em busca do tempo perdido” blasfemei – Malditos homens, há livros demais, livros demais, demais! Espermatozóides verborrágicos, lembrei-me de Cioran.

Descobriram o que eu havia feito. Chamaram de crime! – Com Proust isso não se faz, não se faz! – disse-me um leitor bíblico.

Bem, eu não fiz isso com Proust, fiz com o mundo de Proust legado em seus livros. Proust é Proust, um homem não se resume aos seus pensamentos, embora possa ser também os seus pensamentos. Tomaria um café com Proust, desde que não houvessem madeleines – tentei acalmar. Ainda assim o olhar do outro me atingia com fogo. Proust, você sabe quem foi Proust? – dizia-me.

Proust foi um homem que viveu em determinado tempo, pensou, realizou ações e morreu. Homens nascem e morrem, mas espero que a terra um dia irá ser curada dessa peste – pensei, mas não disse. Não convém gastar oxigênio, sangue e saliva, enfim, o corpo com determinados diálogos. Todavia podemos agir com um desses enfeites de que nos servimos para nos suportarmos. Com sorrisos e ingenuidades – Que pena! esse gênio não me agradou!

Algumas pessoas se relacionam com gênios não com homens e mulheres que tanto nos agradam. Os gênios são santos perfeitos, não podem ser contrariados, somente idolatrados. Sustentado no reino das idéias um gênio é inquebrantável. Grandes escritores não são gênios, são homens. Diferenciados é certo, e cada um que dê a sua diferenciação, se se toma como veneno ou como mel os efeitos são singulares.

A minha madeleine eu já devorei, ruminação não me convém. Cada um que se veja com a sua madeleine. Proust, um grande homem. O livro de Proust, fechei-o. Deixei Proust em seu paraíso.

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