A desgraça é uma excelente oportunidade para angariar recursos financeiros, direta ou indiretamente. O Haiti é uma prova disso. Certamente que há pessoas interessadas em ajudar sem esperar nada mais além de amenizar o sofrimento daquele povo, mas há também os oportunistas.

É momento não só para as personalidades chamarem os jornalistas para mostrarem suas compaixões diretamente do caixa do banco onde estão a realizar suas doações, como também das civilizações que não muito interessadas no Haiti enquanto ainda “sobrevivia”, agora correm em busca de oportunidades em meio a um país fantasma onde os que estão respirando não mais suportam o cheiro dos mortos que exala das ruas.

Na explosão da recente crise financeira os bancos receberam quase um trilhão, custeado, certamente, pela população mundial. Mas para ajudar os miseráveis de carne e osso que não se equiparam a uma corporação, é necessária uma parafernália de recursos alocados usando qualquer dos meios onde o cidadão pode doar e ajudar na reconstrução (?) do Haiti: pelo celular, pelo telefone fixo, pela internet, pelas facilidades oferecidas pelo gerente do banco, etc. Tudo isso com muita cristandade estampada nas faces desses bons samaritanos dissolvidos em uma humildade que lhes permitem dormir tranquilo enquanto fazem a conta dos trocados que doaram e não lhes causarão, espera-se, prejuízos.

Nesse show humanista-cristão quase todos saem ganhando: os banqueiros que vão gerenciar o dinheiro, os doadores que se sentem estranhamente prazerosos por realizar uma simples ação associada a um sentimento de “fiz minha parte”, a mídia que terá personalidades em excesso para entrevistar e mostrar o quanto a elite é preocupada com a realidade social, as potências mundiais que aproveitam para mostrar ao mundo o quanto estão imbuídas de valores para a verdadeira civilização (branca, cristã, ocidental e consumista) e aproveitar as oportunidades para realizar pequenas benfeitorias no país a um custo que virá depois quando o sentimento de compaixão se acalmar, os países que buscam um lugar junto às superpotências querem estar bem vistos no cenário mundial e também aproveitar as oportunidades de negócios, já os haitianos ganham a comida minimamente necessária para continuarem respirando. Vê-se então que quase todos saem ganhando: os haitianos continuarão na miserabilidade.

Enquanto isso não cresce um só movimento – nem em discussão – de revolta frente ao conluio entre os líderes governamentais e as grandes corporações que fazem a linha de frente no gerenciamento de um sistema que por demais já provou funcionar com base na miséria de muitos para o sustento farto e luxuoso de poucos.

As pessoas são por demais convencidas de que não há nada de errado entre esses bondosos líderes que estão tentando ajudar algo que foi uma fatalidade natural, uma obra do destino ou do capeta como já se disse e até mesmo uma questão de incapacidade de uns e capacidade de outros no que diz respeito a conseguir um lugar confortável na promissora globalização.

Enquanto os corpos dos haitianos apodrecem sob esse sol que a ideologia diz ter nascido para todos, os civilizados fortalecem seus prazerezinhos e poderão dormir tranquilo sob o acalento do “fiz a minha parte” tão logo se dão conta de que enviaram com sucesso um SMS valendo uma doação.

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