Pensamentos, Existencialismo, Trágico, Absurdo, Música, etc.
Estou enfermo. E nesses estados posso dizer que cada vez mais me torna mais evidente o quanto o pensamento é um escravo da carne e do sangue: resta-me apenas pensar um pensamento como um pensamento que veio em dado momento e sob certas condições de existência, que incluem o clima, o estômago, a boca, os rins, o fÃgado, o coração, a respiração, a umidade e tantas outras coisas que jamais desconfiamos mas que impactam a nossa potência de existir.
Eis aà o que eu recomendaria como essencial a todo aquele que busca suas comodidades e seguranças na verdade: doença! Sentir a vida lutando bravamente para ser e não-ser sob os sopros do deixar de ser, pinga o pensamento que se perde nos paroxismos de desespero e alegria, mais um do que outro, ou mais outro do que um não convém ao pensamento decidir: apenas experiencia, se quebra, se salva, se… No domÃnio da carne não há verdade que fale mais alto que a vida, todo o pensamento é uma frágil ilusão diante de uma sensação de que sou radicalmente incógnito diante disso tudo que se passa e sinto, por mais que se possa dar à existência os domÃnios da palavra que nomeia e conforta.
Lidar com um pensamento que não é outro senão o que vem à cabeça sob dadas condições de carne, sangue e mundo pode tornar a vida leve demais, porém, no mundo em que vivemos, onde se exige que tenhamos a vida engessada, onde o pensamento pesado e metrificado, e a personalidade e o corpo com suas respectivas identidades são exigidos como essenciais no convÃvio civilizatório, requer-se algo para não ser quebrado com o próprio pensamento. Se me é tão certo que a carne e o sangue determinam, também, os pensamentos, o pensamento, esse nada de ilusão, pode atingir a carne como uma ponta de faca ou como uma suave e alegre brisa a anunciar um novo frescor para existir. Mas devo reservar-me ao direito de ir aos encontros dos desesperos e da alegria conforme os encontros com o mundo sem me sentir no comando de tudo isso.
Tão logo pode vir o amanhã e com ele a convalescença, e a água de que agora estou privado será experimentada como a água nunca antes experimentada. E nesse moinho está a existência, que pensamentos me virão amanhã? Que pensamentos não me servirão mais? Quais pensamentos de que descartei agora preciso resgatar? Não sei, saborear com afirmação ou negação os encontros com a vida já é tudo do possÃvel.
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