Eu e Tu – Martin Buber

Martin Buber tem um “estranho e misterioso” (não pelo conteúdo, mas pela forma como Buber escreveu) livro que dificilmente se consegue captar pelo “sujeito do conhecimento”, exigindo do leitor uma relação com o conteúdo que se expressa pela expressão linguística que parece não fazer sentido com a dimensão vivencial do homem com o mundo (e as coisas) e do homem com o mundo. Essa pequena maravilha chamada “Eu e Tu”, representa uma das poucas obras que considero capitais no sentido de me fornecer nutritivo alimento para conseguir enfrentar a imprevisibilidade de uma relação terapêutica onde até então costumava temer adotar uma postura mais técnica-profissional do que humana. Em tempo, costuma ser esses personagens “desconhecidos” que a Psicologia em sua delinquência inicial de encontrar a “métrica do psicológico” tratou de escondê-los – em alguns casos acusando-os até mesmo de insanos -, que costumo encontrar mais “realidades”: Reich, Buber, Viktor Frankl, Rogers, Moreno… todos eles me ensinaram muito, não nos concordamos é certo, mas partilhamos de pontos em comuns e pontos divergentes que se atualizam para uma compreensão mais complexa que não se deixa reduzir à fórmulações.

Não me arriscaria a dizer do que se trata essa obra de Buber através de um texto. Penso que ela nos permite uma compreensão muito mais profunda que se dá muito mais pelo silêncio e pela experiência de estar presenciando e sentindo aquilo que Buber parece querer “mostrar” do que algumas páginas explicativas sobre a obra – o que não deixa de ser necessário e ter suas possibilidades.

Se algumas palavras servirem como convite para a leitura desse livro que pode nos trazer novas auroras, diria mentirosamente que nele Buber nos fala da existência do homem que se dá num mundo que se revela como múltiplo, o que nos provoca atitudes múltiplas. Tomando atitude como um ato ontológico no esteio das palavras, com a linguagem, cada atitude é atualizada por uma das “palavras-princípio” que Buber desenvolve: Eu-Tu ou Eu-Isso. Decorre daí uma primordial relação dual do homem com o mundo que é, basicamente, ser-em-relação para aquela e ser-em-experiência para esta. Cada uma dessas atitudes fundamentam um modo de existir e não são atitudes que se escolhe isoladamente, mas se processam no modo dual da relação do Ser.

Ao leitor mais centrado em buscar os significados seguindo o curso das palavras a leitura pode não fazer nenhum sentido. Buber não nos oferece significados nem palavras prontas, primordial em seu pensamento é a relação e o diálogo de uma atitude existencial face-a-face, onde se admite uma zona de silêncio como necessidade de abertura para a compreensão. E talvez seja menos importante se preocupar com o que cada página do livro está querendo dizer do que suavemente conseguir chegar ao “término” dessa obra, onde aí então uma compreensão mais vigorosa poderá surgir. O “Eu” com o “Tu” ou o “Isso” não assustam muito se olhamos com certo distanciamento para o “nome” e nos aproximarmos mais do relacionamento, do diálogo, do encontro, da responsabilidade e da presença enquanto atitudes intersubjetivas que fundamentam modos de ser.

As vivências de relação do homem primitivo não eram certamente doces complacências; mas é melhor a violência sobre um ente realmente vivenciado, do que a solicitude fantástica para com números sem face.

O mundo do ISSO é coerente no espaço e no tempo.
O mundo do TU não tem coerência nem no espaço nem no tempo.
Cada TU, após o término do evento da relação deve necessariamente se transformar em ISSO.
Cada ISSO pode, se entrar no evento da relação, tornar-se um TU.
(…)

E com toda a seriedade da verdade, ouça: o homem não pode viver sem o ISSO, mas aquele que vive somente com o ISSO não é homem.

[Buber, M. Eu e Tu. Editora Moraes: 1974. Tradução de Newton Aquiles Von Zuber.]

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