O conhecimento necessariamente afeta, negativa ou positivamente: afeta. Não há indiferença pura que não seja, a cabo, indiferença interessada ou desinteresse interessado. Todo asceta que prega o desapego total do mundo pratica um desinteresse interessado, em última instância, deseja algo: alguma forma de salvação. Inclui-se aí um filósofo que me é tão caro: Schopenhauer, um maluco que levou à vontade nas últimas consequências de um além-mundo. Ora, basta ter pensamento para ser afetado pelo conhecimento: o que irei fazer desse conhecimento é uma outra questão. Saber-se da impossibilidade de fugir ao conhecimento enquanto algo que afeta é uma questão, contudo, que não sujeita à afirmar ou negar conhecimentos enquanto afirmação e negação presentes nas coisas mesmas: se digo que a flor é amarela, tampouco quero dizer sustentado numa atitude de que essa “coisa em-si” possui uma propriedade que lhe é “amarela” ou que tenha uma “natureza” que a deixa de coloração amarela: a flor que chamo de amarela me é amarela porque assim me aparece, de um modo mais spinozano, nessa relação de corpos que se encontram ocorrem afecções, e tenho a ideia de amarelo que colore a flor, portanto, um afeto: posso ainda desprezar essa flor, ou ainda sentir o suave de suas pétalas, entre tantos outros possíveis que aumentam ou diminuem minha potência de viver, alegria ou tristeza. Posso blasfemar ou idolatrar essa flor, e ainda assim estar cônscio de que a flor em si não é uma coisa que contém ou carrega toda essa minha carga que a ela “dou”, pelo contrário, isso-aí é um necessário que é indiferente a todos os meus afetos. Ora, quando uma mente* conhece as coisas como necessárias, não são as afecções que detém maior poder sobre o “espírito”, pelo contrário, é a mente que tem maior poder sobre as afecções: se se compreendo que a flor não é um obstáculo-ente-coisa que aflige meu existir porque possui uma sustância de “Bem” e “Mal” que o faz dela ser má ou boa em relação a mim, mas um outro corpo que aí está numa relação com o meu, e que dessas afecções sou afetado negativamente, posso buscar conhecer a causa desse afeto que entristece o meu ser e perceber novas relações. Se compreendo que meu cão a que tanto amo é finito, “não sofro” quando ele morre, ou, perfeitamente compreensível que eu sofra diante da sua perda, contudo é um sofrimento num mundo inocente em seu devir: é necessidade a morte do meu cão, mesmo que eu o ame. Afirmação de mundo esta que não implica que a morte do meu cão seja apenas um evento fisiológico e natural possível, pelo contrário, é algo que me atinge em todo o meu ser que é afetado, contudo, tampouco implica que seja um malgrado do mundo para com meu cão ou minha conduta enquanto dono do cão.

Spinoza é sem dúvidas um filósofo que nos fornece outra experiência com o mundo e as coisas. É impossível permanecer indiferente aos seus escritos, mesmo que estes sejam de tal forma metafísicos que torna patente o interesse do filósofo em dar conta de uma explicação do mundo, ainda, não obstante, o lugar de destaque que a razão ocupa na obra de Spinoza, obra esta que foi escrita “matematicamente”. Sua Ética, contudo, é uma ética da alegria, uma razão que não se quer ser uma faculdade do “sujeito do conhecimento” senão enquanto uma própria potência para ele agir sobre os seus afetos, é um conhecimento que pode nos afetar e re-ordenar a experiência da vida: o cotidiano deixa de tal forma de ser inimigo, que as coisas acabam até se tornando companheiras ou em uma cadeia de acontecimentos implicados em uma conexão de totalidade necessária. Tão necessária que, mesmo as coisas que nos afetam negativamente – a desgraça não é desgraça em si -, se a alegria não me vem por elas, tampouco posso dizer que não deixa de vir também através e por meio delas. – E que não compreendam por essa atitude, a ideia de passividade e conformismo, devolver ao mundo a sua inocência é antes uma postura ativa e criativa frente ao devir, na medida em que nos capacita a ampliar nossas relações com os encontros possíveis e, consequentemente, somos afetados em maior amplitude.

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Será que já paramos para pensar o quanto os filósofos que destituíram o mundo de “Mal” e “Bem”, “Bom” e “Ruim”, dos pré-socráticos aos pós-socráticos, não costumam fazer parte das nossas “sagradas” instituições acadêmicas nas variadas áreas do saber? – Parece que precisamos do finalismo, da vontade e do livre-arbítrio tanto quanto precisamos do ar para respirarmos! Se dizemos que o mundo não é geocêntrico – portanto, egocêntrico -, não é menos porque destituímos o mundo do geocentrismo quanto por questão de separação didática e classificação dos saberes em seus dispositivos racionais instituídos pelo sujeito do conhecimento, se realmente soubéssemos o que é abandonar o geocentrismo… seria tal como Camus interpelando o homem pela sua própria morte: será que realmente sabemos que eu irei morrer?… Ah! se soubéssemos…

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A Filosofia acadêmica é algo que deveríamos também saber que jamais corresponde aos tantos possíveis da Filosofia, sobretudo, e principalmente, a saber que a filosofia produzida e reproduzida nas cátedras também é prenhe de preconceitos morais e escolásticos que censuram muitas outras galáxias filosóficas que ficam no estrangeirismo: temor para não abalar o que é considerado ídolo e dogma na episteme do saber é algo da qual as universidades ainda não abdicaram. Um feixe de luz recentemente foi lançado, e que possa invadir as trevas acadêmicas e ajudar a combater milênios de preconceitos e ignorância: sejamos gratos por gigantes como Michel Onfray e sua Contra-história da Filosofia.

* Mente: entendida aqui do ponto de vista de Spinoza, enquanto um do infinitos atributos da natureza ou de deus a que conhecemos juntamente com a extensão (matéria); ainda, espírito e matéria ou pensamento e matéria de forma alguma são concebidos de maneira dual e separadas em sua filosofia.

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