Às vezes somos interpelados de tal modo com um escrito que parece que o que acabamos de ler foi soprado pela boca do autor a um polegar da nossa face, sentimos a quentura úmida penetrar nos poros e algo diferente no corpo e no pensamento, um sentimento de não sei o que mas de qualquer coisa de compreensão em carne e osso, um sentimento que diz algo como compreendemo-nos mutuamente em carne e osso. Sim, alguns escritos que lemos podem nos atingir e é como tocar o próprio autor.
E por fim, por sobre a escuridão dos telhados lustrosos, a luz fria da manhã tépida raia como um suplício do Apocalipse. É outra vez a noite imensa da claridade que aumenta. É outra vez o horror de sempre – o dia, a vida, a utilidade fictícia, a atividade sem remédio. É outra vez a minha personalidade física, visível, social, transmissível por palavras que não dizem nada, usável pelos gestos dos outros e pela consciência alheia. Sou eu outra vez, tal qual não sou. – O livro do desassossego. Fernando Pessoa. (grifos meus)
Quase não acredito que algo assim fosse possível através de palavras. De qualquer maneira meu riso sarcástico à linguagem permanece, e ela faz o mesmo comigo. Amor e ódio, e não podemos ser indiferentes.
Abundou tamanho espanto e encanto em meu sangue após ter lido tais grifos que o livro teve que ser fechado imediatamente, as palavras perderam as palavras e o pensamento ficou sem saber o que pensar: contemplação, espanto, horror, prazer… devir e nada mais, é necessário respeitar esses momentos, ficar suspenso no Nada sem ousar se intrometer com a explicação. E é agora que tento, a partir daquelas circunstâncias circunstanciadas nas circunstâncias de agora, falar sobre tal inaudito.
Esses livros capazes de nos afogar e levarmos a recuperar o fôlego são raros. E o mundo não volta o mesmo, como nunca voltou, sendo cada instante um milagre; mas também pode ser que ele seja sempre igual e nós enquanto humanos o percebemos como sempre diferente: não sei.