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O passado nos pensamentos de Freud e Marx
4jun2010 Categoria(s): Filosofia Autor: advOs pensamentos de Freud e Marx exigem, necessariamente, uma volta ao passado e, mais do que isso, um lugar de destaque para os cadáveres-históricos como determinantes ou terrenos por onde se processam o presente. Freud, no inconsciente, nos remete sempre a um teatro privado de retorno ao pai e a mãe; e Marx dá à História a outorga de um “tribunal superior” que define o presente.
Acaso, caos, sem sentido, absurdo e esquecimento são palavras de um vocabulário abjeto a esses dois pensadores. O esquecimento, um elemento fundamental na filosofia de Nietzsche para a força criativa, do que faz surgir o novo, ainda que se tenha que destruir o passado, está nas linhas do trecho abaixo do “Anti-Édipo” de Deleuze e Guatari.
Reflita. Ainda que a temporalidade do já acontecido seja uma dimensão da qual não podemos negar, pois o passado está presentificado em nós, usá-lo para explicar o presente pode ser uma covardia: nessa lógica ele não é senão um depositário nosso, dos vivos sobre os mortos. Temos o direito de dizer o que foi o passado se não o vivemos? Isso não é risÃvel?
O marxismo e a psicanálise, de dois modos diferentes, falam em nome de uma espécie de memória, de uma cultura da memória, e falam também de duas maneiras diferentes em nome das exigências de um desenvolvimento. Acreditamos, ao contrário, que é preciso falar em nome de uma força positiva do esquecimento, em nome do que é para cada um seu próprio subdesenvolvimento, o que David Cooper chama tão bem de o terceiro mundo Ãntimo de cada um.
matheus girotto
junho 9th, 2010 at 7:47
Eu não compreendi esse trecho especificamente, você poderia me explicar?
“[...]usá-lo para explicar o presente pode ser uma covardia: nessa lógica ele não é senão um depositário nosso, dos vivos sobre os mortos. Temos o direito de dizer o que foi o passado se não o vivemos? Isso não é risÃvel?”
Não penso que seja de fácil ou de tanta utilidade o esquecer; penso que o lembrar e, quiça, compreender para possivelmente, quem sabe?, “superar” os acontecimentos prévios seja uma sábia posição.Não compreendi, talvez, o real significado do verbo “esquecer” nesse texto.É uma possibilidade tentar me explicar.
adv
junho 9th, 2010 at 19:29
@matheus girotto: Olá, o trecho carrega uma crÃtica aos pensamentos que usam-se do passado para explicar o presente, no caso, Freud, com o inconsciente, e Marx com a História, estão nesses paradigmas. No primeiro, o presente é explicado a partir de um retorno à s experiências mais significativas que ficaram no inconsciente; no segundo, a História é o espaço por onde se opera a dialética, quer dizer que para se compreender o presente em Marx é absoluto remontar à história.
Em contraponto a esses pensadores o esquecimento de Nietzsche opera como um elemento fundamental para a criação, pois impede um “atolamento” no mundo. Nisso está uma visão de mundo fora de um fundamento, de uma origem, de um algo anterior que se seguido vai desvendar o agora, pelo contrário, no caso, a História não é o fio que vai desvendar o presente porque ela não dá conta de apreender uma época passada que é complexa, caos, relação de forças múltiplas agindo. Esquecimento é estar aberto à s possibilidades e as relações que estão me afetando neste momento e disso fazer meu “agora”.
Nesse sentido, a crÃtica se faz à essa história tradicional que opera sob uma lógica explicativa, criação do pensamento, (e não pelo devir que é pura vivência) que é a visão do historiador sobre um fato passado a partir de metodologia cientÃfica, portanto, é covardia na medida em que ela não tem possibilidade de apreender as vivências, a complexidade, as relações múltiplas que se estabeleceram em uma época passada.
Meu caro, não sou bom em didática e o assunto exige-se palavras e mais palavras para falar do que envolve essa “memória” e esse “esquecimento” aÃ, mas em suma é covardia querer dizer o que presente é “assim” porque no passado “foi de tal modo” e isso teve consequência o “agora”. Há muitas relações envolvendo uma dada época, e o pensamento só capta aquilo que ele “enxerga” como sendo mais essencial e categorial, portanto, fazer disso um imperativo explicativo é covardia: nós não podemos falar pelos mortos o que eles foram.
Em meio a tudo isso não está a negação da dimensão temporal do passado que está em nós presentificada – o que hoje vejo como eu fui quando criança não é exatamente o meu passado que fui criança, mas o que consigo perceber desse passado no agora, quantas coisas vivenciamos quando criança, sentimentos, emoções, … e não lembramos mais e se lembramos são fragmentos não? -, mas está a negação da história como imperativo de explicação do presente.
Caso se interesse pelo assunto, seria leviano ficar por essas palavras, explore que há muito mais ;)