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Psicose do prazer: o devir do corpo intensificado e a loucura criativa
13jun2010 Categoria(s): Pensamentos Autor: advEm meio à balbúrdia do “humanizado”, os nomes impõem limites de mundo ao sujeito que os apreende enquanto é capturado nessa grande teia de discursos que falam por ele através dele e de inúmeros outros anônimos e identificados. Caiu em um caldeirão de logos, eis o nascimento do homem e é dessa seiva que não corresponde a nenhuma outra realidade senão à realidade dos jogos que se fazem com o verbo que retira o alimento do seu ser: e daà tem quase tudo o que pode ser.
Quem não se alimenta da mistura dos verbos incessantemente aquecida não tem identidade de sujeito. Porém, esse alimento que se serve é um anestésico à vida em franca intensidade de movimento. Recusar-se a essa seiva, se não em totalidade, mas enquanto resistência ao que se consegue sobreviver sem ela, é experimentar o intenso da vida que atravessa o corpo como pura sensação, é estar acontecendo como corpo em meio inseparável a outros corpos que se afetam incessantemente. Disso aà o que acontece? Não se pergunte, aconteça.
Em meio às correntezas dos rios semânticos que nos carregam estamos sujeitos a uma maior ou menor abertura das possibilidades de ser, contudo, possibilidades que ao mesmo tempo são impossibilidades; lá onde a palavra cria ela também destrói.
Nomear a experiência epifânica, nomear o que até então estava estranhado pode representar novas possibilidades de ser afetado por tal afeto ao mesmo tempo em que pode impossibilitá-lo de ser intenso tal como fora antes de ser capturado pelas teias do verbo. A inquietação e a perturbação antes do nomeável que até então convocava o homem a um devir intenso podem dar lugar à quietude do nomeável que organiza o mundo em compartimentos familiares.
A palavra acalma, apazigua, exerce poder terapêutico e isso não é uma descoberta da recente psicanálise, o feiticeiro já sabia da “mágica da palavra” e com ela “remediava” o corpo doente dentro dos limites. E não é aà onde ela alivia, também, onde ela aprisiona? A palavra é aquilo com que criamos nossas prisões, bem como abrimos portas e janelas para outras prisões.
Resistir às correntezas e conseguir experimentar locais onde as águas do semântico ficam só correndo no baixo dos nossos pés, se é que não podemos romper às margens desse rio, é conquistar a capacidade de perceber outros horizontes desse mundo do aqui e agora que comumente não percebemos quando estamos capturados nos sentidos que os discursos nos limitam. Consequentemente somos atravessados por sensações e sentimentos em tonalidades novas, em suma, é estar acontecendo em um devir intenso de pura criação.
Infelizmente, quando não se aguenta experimentar esse fluxo de sensações e sentimentos que nos atravessam e nos impressionam, quando não se resiste ao horror do mundo estranhado e a potência desses afetos o homem pode não suportar e aà será capturado pela norma que o avilta à condição da loucura psiquiátrica.
Em meio a isso está a influência dos imperativos civilizatórios que em maior ou menor intensidade nos tornam estranhos a nós mesmos na medida em que dizem e fazem confluir várias disciplinas sobre o corpo: o homem moderno é aquele que costuma tomar qualquer remédio quando qualquer sensação estranha o acomete; é o homem que tende a tornar doente o que não lhe “autorizaram” a sentir.
Ora, o psicótico psiquiátrico é justamente o homem que não aguenta a potência com que é afetado, e por não conseguir lidar com esses afetos acaba se quebrando.
Experimentar a loucura criativa, o epifânico, o estranhamento do mundo nele mesmo dependem de uma conquista – e saber usá-la para não ser tragado na norma do discurso da loucura psiquiátrica – da capacidade de fazer a linguagem se quebrar nela mesma, que é também fazer o Eu se quebrar lá onde a palavra fica sem palavra. Quando o Eu se perde da palavra e fica suspenso só no sussurrar é onde o corpo irrompe com toda intensidade e criação em sentidos absolutamente singulares.
Dar ao corpo a sua soberania enquanto manifestação sendo afetada por outros corpos e desses embates navegar no fluxo da criação é resistir à soberania do significante que avilta em grande parte as nossas mais profundas experiências.
Olivia
junho 15th, 2010 at 7:44
Brilhante texto! Me identifico com tais pensamentos, a loucura não deve ser delegada somente como doença. Parabéns pelo blog!