O tempo não é uma coisa no mundo. O Universo é indiferente a qualquer medida de tempo, mas nós somos devorados pelo tempo. Nós somos embebidos de temporalidade. São tantas as maneiras de se vivenciar o tempo: uma noite que parece não ter fim quando aguardo ansiosamente o amanhã para reencontrar o meu amor, um dia que correu como um riacho quando me alegro entre os amigos que há muito tempo não os via e re-contamos nossos momentos de mocidade… Todavia, o mais comum é grande parte de nós acabar sendo sufocado por uma temporalidade mecânica, o tempo dos dias e das horas contadas com suas devidas instruções para a nossa vida: as 15h00 da segunda a aula de balé, amanhã antes do almoço o término do projeto a ser apresentado na quarta antes do feriado, na outra semana a viagem de negócios, o fim de semana já tem a programação combinada com os amigos…

Nessa vivência o tempo é aquele que nos limita; torna-se um guardião da nossa vida sempre pronto a nos culpar – caso algo saia fora do planejado – e fechar as possibilidades. Viver sufocado pelo tempo-comum da técnica é viver morto cumprindo com uma agenda até que se tenha expirado o seu prazo de validade, quando então o já-morto passará ao processo de decomposição.

Todavia, uma relação mais intensa com a vida exige uma vivência do tempo não como coisa ou ente que nos vigie, mas como fluxo de experimentação singular dos instantes, vivência que se passa numa temporalidade que nos é própria e não imposta. Ao contrário do tempo mecânico do homem econômico e da técnica, que vive seus dias como um jogo cronometrado onde o mesmo deve acumular o máximo possível de “pontos” antes do prazo anunciado – e assim repetidamente -, o tempo singular é aquele da criatividade.

Estamos vivendo numa temporalidade cadenciada pelo nosso tom quando nos sentimos integrados com o mundo saboreando os instantes ou aquilo que nos envolve como uma criança que nas quatro paredes do seu quarto brinca sozinha extrapolando o mundo afora. São nesses momentos que estamos sendo atravessados por sensações prazerosas ou estranhadas e nos vêm ideias que nos convocam pelo caráter do “novo”, irrigando pensamentos e intensificando percepções, é aí que experimentamos o “extraordinário no ordinário” e somos capazes de se “endoidecer com um copo de água”, com um raio de sol chicoteando pelas frestas do nosso quarto, com um bom-dia,…

Nesse tempo o “novo” pode ser parido a qualquer momento e não sabemos o que vai ser. Todavia, não necessariamente criamos algo novo, pode ser só o início de um devir que vai tirar nosso mundo de órbita, de algo ainda a ser criado. Pode ser também o novo do que já foi criado, um acontecer de algo que nunca é o mesmo-do-mesmo pois nos re-visita com tonalidades diferentes.

Ainda, o tempo criativo não é somente o tempo do artista, do poeta, do nascimento de um grande romance ou de uma música, ainda que estas sejam criações que acontecem nesses estados, essa tonalidade de tempo pode ser experienciada por qualquer pessoa: é própria do singular e pode ser que o seu ato mais singelo lhe insurja como o “extraordinário no ordinário”.

O tempo criativo depende de estar aberto ao caos e às incertezas. Não se experiencia essa tonalidade temporal se estamos presos com aquilo que está para acontecer segundo os nossos planejamentos. Lá onde as vibrações das partículas vibram incessantemente, das estrelas ao piscar de olhos, está acontecendo o mistério da vida, e para acontecer nesse-aí precisamos estar vivendo o nosso tempo e não o julgamento pelo tempo.

Ora, não se pode falar muito daquilo que a consciência tem dificuldades em alcançar. Mas todos (?) em algum momento já passamos pelo tempo criativo, percebendo-nos como acontecemos com uma disposição de grande potência e o mundo nos parece ser extraordinário. Não é possível planejar tais acontecimentos, o planejamento é justamente a ausência do tempo criativo, no entanto é possível uma afinação e disposição de existência que nos possibilitem resistir ao tempo mecânico que nos devora: entrar em contato com o nosso corpo enquanto o que sou – e não um objeto nosso – sendo atravessado constantemente por afetações, dar legitimidade à estranheza, saber lidar e conviver com a incerteza, não querer arrancar o mundo de todo seu “mistério” e “enigmático” (não porque tenha um fundamento a ser descoberto), recusar olhar o mundo somente pelo limitado paradigma de causa e efeito, experimentar mais e explicar menos… são algumas das conquistas que nos possibilitam vivenciar o tempo criativo.

Vivenciar o tempo criativo é estar acontecendo num fluxo de vida caótico e incerto com a certeza do agradável sabor da existência acontecendo num Universo incognoscível enquanto nos criamos e nos destruímos: criar-se.

Tempo criativo é tempo sem tempo, é consciência sem saber ser consciência, é pensamento sem saber estar pensando, é estar num mundo destituído de sua ordem moral, é perder as ficções do nosso Eu para acontecer acontecendo.

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