Sísifo, proletário dos deuses, impotente e revoltado, conhece toda a extensão de sua condição miserável: é nela que ele pensa enquanto desce. A lucidez que devia produzir o seu tormento consome, com a mesma força, sua vitória. Não existe destino que não se supere pelo desprezo. – Camus, A. O mito de Sísifo.

Sabemos muito pouco da criatividade macabra utilizada pelos homens no que diz respeito às crueldades e torturas praticadas ao longo das gerações.

Talvez seja o nazismo o que mais sabemos sobre crueldade e tortura utilizadas pelo homem contra judeus, ciganos e outros que não se enquadravam na ideologia nazista. O nazismo não foi, de longe, o berço do homem demoníaco; foi apenas o momento quando este homem uniu o planejamento científico ao macabro, isto é, a destruição dos corpos passou a ser calculada e justificada para se atingir determinados fins, mas não se esgota aí o potencial de destruição do homem contra o homem – e os animais.

Diga-se também que Hitler foi humano, pois o que fazemos é colocá-lo na dimensão de “monstro”, tornando-o qualquer coisa que não seja humano. Assim, o Hitler não-humano não nos ensinou nada do que o homem também pode ser e continuamos praticando o nosso “pequeno nazismo” cotidiano.

Que se façam vir à evidência os ventres dilacerados e as chagas em carne viva, pois não é conhecendo o potencial da maldade, o que o homem é capaz de promover ao seu próximo para destruí-lo, que pode nos comover e nos moldar a ser mais tolerantes com os nossos companheiros de dores? Não é o conhecimento do terrorismo com que a dor dilacera a matéria que pode fazer nascer a mais efusiva ética de bondade e ternura? Pode-se dizer humano que nunca conheceu o sofrimento?

Saber que, embora tenhamos inesgotáveis possibilidades de ser, temos um destino – e desgraçado destino trágico – em comum, é poder sentir a comoção que nos une: estranhos uns aos outros unidos por uma familiaridade universal de amor. Sob um céu vazio e um chão sem fundo, de repente estamos lançados num mundo incognoscível, vivendo junto com outros em dias seguidos que nascem e morrem muitos outros, gozando de uma vida que não presta explicações às nossas inquietações da consciência e tampouco há manual a ser seguido. Tal condição não pode ser o suficiente para olhar para o outro e darmos as mãos, pois sermos desgraçados em comum, não nos é o único consolo para nos amarmos? Saber que um dia isso tudo acaba e que não há Pai nem Mãe que possa impedir a nossa sepultura é também condição para se unir com o outro e se derreter em amor. Entre os amantes há um pedido inconsciente de socorro escrito pelo sangue, uma escrita sem linguagem: sei que vai acabar, mas não quero que isso de bom acabe!

Sim, há miséria e fragilidade, terror e horror na nossa condição. Mas daí também nascem a solidariedade e a fraternidade que motivam gestos e atos que colorem os fúlgidos espectros de beleza.

Ao se falar do homem, de nós, eu, você, Hitler, os outros…, saibamos que as possibilidades de quem somos não se esgotam tanto para a bondade como a ruindade; e muito menos somos o que a glória humanista nos disse: racionais, bondosos, soberanos, superiores… -, e que nossa espécie pode ser tanto aquela que se comove pelo outro, como pode ser uma Elizabeth Bathory que rasgava os ventres de pequenas jovens para ter o prazer de ouvi-las gritar a dor e se banhar no sangue derramado.

Esses links são para compartilhar o conteúdo em redes sociais ou por email.
  • Rec6
  • Ueba
  • Dihitt
  • DoMelhor
  • LinkTo
  • LinkLoko
  • TwitThis
  • E-mail this story to a friend!