O presidente do Conselho Federal de Medicina, em entrevista ao jornal Estado de São Paulo (ver), declarou o seguinte se referindo aos psicólogos:

“Como tratarão neuroses, esquizofrenia? Só com papo e conversa? De jeito nenhum. Essas doenças são causadas por deficiências bioquímicas, e os pacientes precisam de medicamentos.”

O Conselho Federal de Psicologia publicou uma nota de repúdio (ver).

Com um pouco de Foucault não é segredo de ninguém a posição de um campo de saber na sociedade ocidental, posição que vai muito mais além de um conjunto de conhecimento que recai sobre determinado objeto de estudo e atuação. Os campos de saber atuam como emaranhados de poderes em relação a uma sociedade, recaindo questões normativas e prescritivas sobre corpos e subjetividades. Sob o discurso bem intencionado e luminoso oferecido pelas luzes ofuscantes do progresso, forma-se a obscuridade das subjetividades que são regidas muito mais por valores morais e éticos respaldados pela lógica fascista do poder do que por uma posição genuína entre pessoas. De um lado, o legista, aquele que detém o saber [poder], de outro o ouvinte-paciente em sua posição submissa de ouvir aquele que detém a palavra e o saber sobre si, papeis estes que tão bem são ensinados nas várias relações comportamentais.

Nem bioquímica nem tagarelice, os raios são muitos e difusos. A estupidez do presidente do CFM, Roberto d´Avila, é evidente e reflete o ponto de vista de um conhecimento-produto, isento de qualquer solo filosófico, literário, artístico, por fim, de qualquer conteúdo propriamente humano que não aquele tido como cientificista que, apesar de ser “demasiadamente humano”, há espíritos ignorantes demais para pensar nessa relação como algo “contaminado por humanos”. E falar da loucura travestido de cientificismo, de c* aberto para o positivismo, é como tentar criar equações matemáticas para responder questões como quando iremos morrer, para onde vamos, de onde viemos… O mundo continuará indiferente e silencioso por mais que façamos birra!

Reflete, sobretudo, a posição que ocupa certas entidades reguladoras na nossa sociedade, não a posição de pessoas que podem ajudar outras pessoas como médicos e psicólogos: é necessário que a rede de esgoto funcione decentemente sem mal cheiro, roubando e adaptando aqui um pensamento de Henry Miller, é necessário a legislação do saber.

Dispositivos à parte, à mentalidade tão estreita e rasa como a do sr. presidente do CFM: chá de cogumelo, ou quem sabe usar outras transformações bioquímicas e, sem correr de medo em busca de um medicamento, que reflita: reflita sobre a vida!

Vida, aliás, que é algo que há muito tem deixado de estar presente no consultório médico. Vida que foi substituída por um corpo disposto em aparelhos e órgãos com funções catalogadas. E qual tem sido o papel do médico hoje em dia? O de pedir vários exames, cercar-se de várias estatísticas e dados obtidos por diversos aparelhos tecnológicos para depois receitar medicamentos, quando não muito raro já se sai do consultório direto para a farmácia? Há muito que muitos médicos não sabem escutar – e não esquadrinhar – um corpo, uma alma, os sussurros e os gritos das forças que agem debaixo da pele…

Em tempo: a psiquiatria é uma indústria de morte, muito mais ligada à necessidade de produção da economia e das normas dominantes do que da promoção à libertação. É notável que, apesar da diversidade de produtos-remédios para as invenções do DSM e demais catálogos, os efeitos colaterais dominantes aos desajustados tendem sempre a um fundo de apatia, dessensibilização da vida e dos fluxos, tornando o “doente” um zumbi satisfeito com as demandas mas aparentemente o bom-cidadão-pai-de-família-trabalhador.

Ato médico é discurso bem elaborado para dar a um outro, documentado dentro de um campo de saber, a prescrição “benéfica” sobre o próprio vivente, a legalidade de dizer e de deferir pelo seu corpo e sua alma. A função do médico não é a de um legista do corpo e da alma.

O que está presente no discurso do presidente do CFM, para além de uma manobra política dentro da proposta retrógrada e fascista do ato médico, é a desconsideração pela nossa mais peculiar maneira de existir diante do outro: a linguagem. É também a postura de alguém que já se esqueceu do juramento de Hipócrates que em seu tempo, “só com papo e conversa”, sem ser dependente de relatórios computadorizados, já sabia como estar à escuta e à presença de um outro.