Adriana Martinez

O texto abaixo foi deixado por uma leitora aqui no blog, reli-o recentemente, dando uma vasculhada em postagens antigas. É estupendo! Na falta de um título dei o nome da autora. Daqueles que a gente lê e dá vontade de pegar carona em uma estrela cadente e seguir sem rumo pelos confins do universo. Como explicar a importância das borboletas e as bolhas de sabão quando só se consegue pensar na gravidade como certeza do movimento?

O que dizer ante os olhos secos, ansiosos à espera de uma fala coerente e articulada? Como explicar a importância das “borboletas e as bolhas de sabão” quando só se consegue pensar na gravidade como certeza de movimento? Deveria ser abolido todo estudo e tentativa de compreensão dos espíritos nobres.

A loucura escolhe seus descaminhos, não a loucura interpretada como inversão da razão, mas a embriaguez de vida. Somente com essa loucura podemos balbuciar, suar, tremer, abalar…

A decadente curiosidade precisa entender, quer repetir, almeja aprender a viver. Mama-se então, o sangue já estéril na busca de ajuda como ritual último para barganhar a vida. Por esperar que alguém lhes ofereça o mel ficam desatentos e não vêem os noctívagos olhos da vida passar rente de seus calcanhares.

Cá estou eu, presente! Fiel rebanho que quer em troca tua luz! Cá estou eu, te adorando e por isso exijo tua compreensão!

As borboletas e as bolhas de sabão se dissipam e o gigante de pés leves sabe voar por cima das cabeças. Há fogo no sol e isso o corpo sente, o que mais há para saber?

As lágrimas não precisam ser enxugadas, o gentil vento faz esse nobre gesto. Por que então se preocupar em aliviar a dor antes que ela chegue? Dor que acelera o desejo do anestésico, ao limite inebriante da perda dos sentidos. Dor que torna valente, porque apresenta a oportunidade de buscar novas forças e arrancar com a unha a crosta da ferida.

É preciso dormir com os olhos entreabertos, a vigília é para aqueles que sabem ler nas almas, eles estão em estado de alerta, não apodrecem antes do tempo. Ouve! A fera acuada espera para dar o bote!
É preciso cortar as mãos dos músicos e perfurar seus ouvidos, para que aprendam a compor com o nariz. É preciso vazar os olhos dos poetas e amputar seus dedos para que voltem a dançar.

É preciso ainda ser ave de rapina e levantar vôo, alçar-se velozmente transversal, fixar a mira e voltar rasante, para roubar excessos.

O ar paralisou para ouvir o som grave que anunciava o bando da canalha a gritar: tenha compaixão! Tenha compaixão!

Vermelho e circunspecto espalha-se em pequenas partículas, fricciona o torso até explodir no centro um flash de luz prateado. Tem potência e quer se alargar, dilatar-se para fora dos seus contornos. Coloca todo seu fôlego e força, mas o ar ficou denso demais! Nauseabundo demais! Arrisca uma brincadeira, flutua entre o mar e o céu, parece vislumbrar múltiplas saídas coloridas e saltita alegre, esquece o que está contíguo.

De súbito, algo puxa suas pernas, algo intrínseco a essa realidade ignóbil… e cai…como guerreiro rendido… como existência frágil.

Os vermes enfurecidos avançam vorazes sobre o corpo para deglutir seu coração, para roubar-lhe o sol de meio-dia, porém sua pele é um couro duro de mais de mil anos. Com os olhos invertidos fica à beira dos abismos. Intrépido pode atirar raios para brindar-se à vida, como perspectiva da morte em experiências anteriores. Queima-se a si mesmo, para incendiar à sua volta. Com passo errante experimenta transpor pontes. Com coragem aspira sua arte. Com o corpo aberto de par em par sente penetrar nas entranhas a infinitude do tempo, com o regresso de todas as coisas. Nada permanece exatamente igual, ao mesmo tempo em que tudo pode outra vez ocorrer.

A vida corre pelas suas costas provocando-lhe calafrios, o convida sedutora para acompanhá-la pelos caminhos de profundas eternidades. “Acorda….levanta, com uma mão segura a minha, com a outra teu coração dilacerado e vamos. Chegou a tua hora.”

Ergue-se titânico para além dele, para além do homem que um dia foi, espreita cautelosamente ao redor e ri. Desdobra-se devagar e se expande. Mulheres alucinadas tocam tambores. Num movimento esquisito ensaia uma dança tribal na ponta dos pés. Ele gira e gira. Pula e pula, até sangrar seus delicados dedos. O silêncio invade, e o universo fica tímido. Os tambores aumentam seu vigor, e acompanhando o som em movimentos descompassados ele pisca, aperta os olhos até enxergar o sol dentro de si e começa a cantar:

Chega!

uma após outras, noites deslizam
boca escancarada deixa saliva escorrer
o obstáculo estimula o grito asfixiado…
SIM SIM SIM
o guerreiro atingiu o peito com as mais fortes das armas
SIM
afogam-se ondas que desconhecem praias, que pulam ilhas e mexem árvores
abissal, pulsante, vasto
SIM
múltiplo e raro
SIM
que tem força porque nobre
que é potência inocente do eterno retorno
SIM

hei de lamber seu sangue na agonia
e até o último segundo com os dentes cravados em sua coxa hei de cantar
SIM
“incrível e invencível”
SIM!

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