Aforismos de Arthur Schopenhauer – Das dores do mundo – Parte 1

schopenhauer-fotoAbaixo alguns aforismos da primeira parte da temática Dores do Mundo, de autoria do irreverente filósofo Arthur Schopenhauer: um dos grandes mestres da ironia e do sarcasmo. Para os críticos que gostam de chamá-lo de filósofo do pessimismo, reporto-me a dois artigos: Arthur Schopenhauer – o pai do pessimismo? e A filosofia de Schopenhauer – o mundo como vontade de representação.

A transcrição dos aforismos foram mantidas de acordo com a ortografia vigente na época (salvo a acentuação de algumas palavras), referente à edição: DORES DO MUNDO – A metafísica do amor – A morte – A arte – A moral – O homem e a sociedade. Editora Edições e Publicações, 4ª edição, 1960, São Paulo. Trad.: José Souza de Oliveira. Ainda, para não prejudicar a formatação do blog, onde é parágrafo optei por sinalizar com “/”.

Se a nossa existência não tem por fim imediato a dor, pode dizer-se que não tem razão alguma de ser no mundo. Porque é absurdo admitir que a dor sem fim que nasce da miséria inerente à vida e enche o mundo, seja apenas um puro acidente, e não o próprio fim. Cada desgraça particular parece, é certo, uma exceção, mas a desgraça geral é a regra.

 

A mais eficaz consolação em toda a desgraça, em todo o sofrimento, é voltar os olhos para aqueles que são ainda mais desgraçados do que nós: este remédio encontra-se ao alcance de todos. Mas que resulta daí para o conjunto? / Semelhantes aos carneiros que saltam no prado, enquanto, com o olhar, o carneiro faz a sua escolha no meio do rebanho, não sabemos, nos nossos dias felizes, que desastre o destino nos prepara precisamente a essa hora, – doença, perseguição, ruína, mutilação, cegueira, loucura, etc. / Tudo o que procuramos colher resiste-nos; tudo tem uma vontade hostil que é preciso vencer. Na vida dos povos, a história só nos aponta guerras e sedições: os anos de paz não passam de curtos intervalos de entreatos, uma vez por acaso. E da mesma maneira a vida do homem é um combate perpétuo, não só contra males abstratos, a miséria ou o aborrecimento, mas também contra os outros homens. Em toda a parte se encontra um adversário: a vida é uma guerra sem tréguas, e morre-se com as armas na mão.

Portanto, assim como o nosso corpo rebentaria se estivesse à pressão da atmosfera, do mesmo modo se o peso da miséria, do desgosto, dos revezes e dos vãos esforços fosse banido da vida do homem, o excesso da sua arrogância seria tão desmedido, que o faria em bocados ou pelo menos o conduziria à insânia mais desordenada e até à loucura furiosa. – Em todo o tempo, cada um precisa ter um certo número de cuidados, de dores ou de miséria do mesmo modo que o navio carece de lastro para se manter em equilíbrio e andar direito. / Trabalho, tormento, desgosto e miséria tal é sem dúvida durante a vida inteira o quinhão de quase todos os homens. Mas se todos os desejos, apenas formados, fossem imediatamente realizados, com que se preencheria a vida humana, em que se empregaria o tempo? Coloque-se esta raça num país de fadas, onde tudo cresceria espontaneamente, onde as calhandras voariam já assadas ao alcance de todas as bocas, onde todos encontrariam sem dificuldade a sua amada e a obteriam o mais facilmente possível, – ver-se-ia então os homens morrerem de tédio, ou enforcarem-se, outros disputarem, matarem-se, e causarem-se mutuamente mais sofrimentos do que a natureza agora lhes impõe. – Assim para semelhante raça nenhum outro teatro, nenhuma outra existência conviriam.

 

Na primeira mocidade, somos colocados em face do destino que se vai abrir diante de nós, como as crianças em frente do pano de um teatro, na espectativa alegre e impaciente das coisas que vão passar-se em cena; é uma felicidade não podermos saber nada de antemão. Aos olhos daquele que sabe o que realmente se vai passar, as crianças são inocentes culpados condenados não à morte mas à vida, e que todavia não conhecem ainda o conteúdo da sua senteça. – Nem por isso todos deixam de ter o desejo de chegar a uma idade avançada, isto é, a um estado que se poderia exprimir deste modo: “Hoje é mau, e cada dia o será mais – até que chegue o pior de todos”.

 

(…) Imagine-se por um instante que o ato da geração não era nem uma necessidade nem uma volutuosidade, mas um caso de pura reflexão e de razão: a espécie humana subsistiria ainda? Não sentiriam todos bastante piedade para a geração futura, para lhe poupar o peso da existência, ou pelo menos, não hesitariam em impor-lha a sangue frio? / (…) / Certamente ainda terei de ouvir dizer que a minha filosofia carece de consolação – e isso simplesmente porque digo a verdade, enquanto todos gostam de ouvir dizer: o Senhor Deus fez bem tudo quanto fez. Ide à igreja e deixe os filósofos em paz. Pelo menos não exijam que eles ajustem as suas doutrinas ao vosso catecismo: é o que fazem os indigentes e os filosofastros: a esses podem-se encontrar doutrinas ao gosto de cada um. Perturbar o otimismo obrigado dos professores de filosofia é tão fácil como agradável. (…)

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