Amor: aos amantes e românticos não correspondidos

O amor é fogo que se arde sem se ver, diz a voz do poeta* que ecoa em inúmeros lugares do planeta. Consome em chamas aquele que ama e não é correspondido. Cada instante da vida é sufocado em nome de outra, cunhada no ocidente, arquitetada no amor romântico; que com seu exército de ideais ganha vozes pela moral e se espalha aos mais longínquos rincões. Tenho que discordar daqueles que dizem que este é um amor restrito ao ocidente: a tirania romântica globalizou e, confortavelmente, colocou no trono a felicidade que anda de mãos dadas.

Eis a felicidade: estampada no sonho de muitos que andam a procura daquilo que os entendem por “cara-metade”. Esperam pela Salvação, um messias não crucificado que irá entender e aceitar incondicionalmente as virtudes e deficiências que lhes são próprias para que possam beber eternamente do néctar da felicidade.

Vós caras-metades solitárias, quanto de tuas vidas já não deixastes de viver em função da que um dia pensais em gozar? – Costumam correr rumo ao mundo onde os românticos repousam e, ao despertar dos sonhos, mudam o trajeto e vão à busca da conciliação com o tempo: o tempo finito do devir.

Mas que força é essa que se chama de paixão, amor ou fogo que se arde sem se ver? Não nos importa o nome, não está no nome a compreensão do furor dos ideais que nela perpassam através das muitas vozes da moral.

Deveríamos extirpar o amor? Ou bastaria buscar compreendê-lo para que não sejamos vítimas de nossas próprias invenções? Quem não se lembra de poetas e escritores que criaram sentidos em palavras escritas com sofrimento e dor? E o que falar das obras de arte que nos arrebatam através de suas formas e cores que ocultam lágrimas de amor? Haveríamos de expulsar força tão destrutiva que se faz tão criativa?

Talvez fosse melhor assim: o amor romântico alado, livre para fazer vítimas que na dinâmica da vida se encontram com recompensas ou perdas; românticos que embarcam na aventura do amor sem nunca voltar de mãos vazias, no sofrimento ou no gozo uma surpresa sempre a se revelar: momento para se reconciliar com a vida e descobrir novos prazeres, ou continuar entre os espinhos da dor romântica que tanto mais crescem quanto se dá ouvidos à moral do amor.

Para que não possamos ficar à mercê dessa força inaudita, como os Sátiros, vamos desatar a rir e, protegidos pelo riso, convém-nos apontar suas peraltices que andam a aprontar com os homens, lhes retirando ou dando potência ao coração.

Faz-se necessáro um esforço para apontar que aquela felicidade que o amor diz nos reservar é simplesmente uma das muitas párias da Felicidade, e esta, por sua vez, não comporta definição. Mas a “felicidade do amor” costuma chamar a solidão, isto é, o enamoramento sublime do Ser consigo mesmo, de doença. Chama de doença aquilo que não anda em galopes ardentes com as mãos entrelaçadas. Sorrateira, ela aprisiona o Ser naquilo que uma coletividade, no material de sua época e na dinâmica dos tempos, chama de sentido da vida. – Aquele que quiser usar esse sentido deve estar pronto para renunciar a todas as vozes criativas que habitam o próprio Ser: deve abandonar a imensidão do mar em suas surpresas de criação e destruição para se acomodar num fino frescor de água em medidas padronizadas.

Expulsar ou conviver com o amor também não nos revela nada, mas o amor, enquanto fenômeno cultural, já fez por merecer para não ser visto apenas como um elemento banal a ser ocultado nas particularidades da vida pessoal. Convém jogar luz sobre o exército camuflado da moral que criou o amor romântico como se fosse um valor fixo a ser alcançado pelos homens.

Românticos, os homens que criaram a felicidade que você procura nunca te conheceram, como poderão eles saber o que traz felicidade a você? Como poderá o seu próprio Ser saber o que é felicidade se não nas experimentações dos acontecimentos? – Ouçam as melodias da eterna sinfonia da vida, aprendam a dançar e brincar com suas múltiplas formas de prazer e desprazer: amem incondicionalmente a vida e não os ideais.

* Luiz Vaz de Camões

Comentário(s): 01

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *