Dostoiévski sobre o catolicismo e o ateísmo

Abaixo, a transcrição de um trecho da obra “O idiota” de Dostoiévski. Trata-se de um diálogo do príncipe Míchkin com os convidados de honra do general Epantchín, na quarta parte do livro, capítulo 7. O protagonista Míchkin é visto como um “ingênuo” pelos outros personagens do livro; no entanto, ele representa uma ironia aos modos da alta sociedade “intelectualizada” – russa.

Enfim, lembrando que Dostoiévski foi cristão, porém, “apartidário” da instituição igreja, o trecho representa uma crítica mordaz ao catolicismo, a partir do próprio ateísmo, também criticado pelo personagem.

Após o príncipe ter dito a um dos participantes que o catolicismo é anticristão, um dos personagens se dirige ao príncipe questionando-o dessa colocação, e então, este responde:

– Primeiramente é uma religião anticristã (…) – Em segundo lugar, o catolicismo é até pior do que o ateísmo, na minha opinião. Sim, esta é a minha opinião. O ateísmo apenas nega, ao passo que o catolicismo falseia o Cristo, calunia, difama e se opõe ao Cristo. Prega o anticristo! Declaro e assevero que prega o anticristo. Esta é a convicção a que cheguei e que me atribulou. O catolicismo romano não consegue sustentar a sua posição sem uma política universal de supremacia e exclama “Non possumus!”* Assim, a meu ver, nem religião é, mas tão somente uma espécie de tentativa de continuação de continuação do Império Romano Ocidental; e tudo nela está subordinado a esta idéia, começando mesmo pela fé. O Papa se apoderou da terra, seu trono terrestre, e empunhou o gládio. Desde então tudo continuou da forma antiga, sendo que à espada, ao gládio, eles juntaram a mentira, a fraude, o embuste, o fanatismo, a superstição e a vilania. Divertiram-se com os mais santos, mais sinceros e mais ferventes sentimentos do povo. Trocaram tudo, tudo, pelo dinheiro, pela vil força terrena. E não é justamente iso que ensina o Anticristo? Como poderia o ateísmo deixar de provir dele? O ateísmo emergiu do próprio catolicismo romano! Este gerou aquele. Começou pelos seus adeptos: poderiam eles crer em si próprios! Um se fortaleceu com a reação contra o outro. Um se fortaleceu contra o outro. Um foi procriado pela mentira e pela incapacidade espiritual do outro. Ateísmo! Entre nós são só as chamadas classes excepcionais que não crêem, aquela camada que conforme tão bem se expressou Evguénii Pávlovitch [um dos personagens do romance], perdeu as suas raízes. Mas aí pela Europa uma formidável massa de gente está começando a perder a fé, um pouco por causa da treva e da mentira e muito, principalmente agora, por causa do fanatismo e do ódio da igreja e da cristandade. (O Idiota, Dostoiévski, Fiódor. Editora Martin Claret, trad.: José Geraldo Vieira, 2006)

* Expressão em latim traduzida como “não podemos”; foi utilizada por São João e São Pedro a um líder sacerdotal que tentava proibir a difusão do Evangelho (Atos, IV, 19-20).

Comentário(s): 2

  1. Alfredo

    Só um detalhe: Ele era cristão ortodoxo, fiel da Igreja Ortodoxa Russa. Ele não era “apartidário da instituição igreja”. Abraços.

    Responder
  2. Pingback: Trechos da obra “O idiota” de Dostoiévski | Eterno Retorno

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *