Educação como violência amorosa

Toda criança tem um potencial criativo e espontâneo diante da vida, mas tem também a família como o primeiro carrasco. É na família burguesa, situada num estado burguês, onde a criança começa a perder seu potencial criativo.

Nada mais perfeito para manter a ordem no estado burguês do que a célula familiar que vai paulatinamente retirando o potencial revolucionário dos corpos.

Ora, qual a diferença brutal entre um adulto e uma criança do ponto de vista da potência de existir? O adulto está impregnado de forças reativas que agem contra seu potencial espontâneo diante da vida. Não se trata de negar a educação, mas educar para que e para quem? Toda educação, quer queiram quer não, nos moldes como até hoje foi discutida, implica em uma posição de autoridade: pedagogia autoritária, fórmula do sucesso para o estado burguês.

Corpos domesticados e dóceis à sociedade, produção em série feita por papai e mamãe. Não que papai e mamãe sejam maldosos, não! Fazem tudo por amor! Tudo se faz por amor ao filho, educação por amor à formação do sujeito, e é aí o que mais dói na criança que, sem saída, tem a sentença de perder o amor dos pais caso realize seu potencial criativo e espontâneo. Amor, doce veneno! É impossível superar o estado burguês com a família burguesa. Santo familismo, reza o padre psicanalista! Sem ela Freud vira pó e a troca da lamúria interminável pela mais-valia vê sua queda.

A espontaneidade da criança é graciosa para o adulto até certo ponto, se persistir para além das polícias médica-psicológicas e educacionais vira processo de imaturidade podendo incorrer em patologia a ser tratada, o avesso do adulto maduro que sabe colocar a escolta da razão e do pensamento à serviço do controle do corpo atravessado pelos devires espontâneos.

Corpos esvaziados de potencial criativo e espontâneo, corpos despotencializados, dóceis e domesticados a um estado iluminado por saberes que tagarelam em nome da virtude moral do Bem!

Alegria em estado puro incomoda, alegria em demasia é chamada de euforia que passa a ser posição patológica dependente de tratamento. Ora, um corpo alegre é um corpo revolucionário sustentado pelo seu potencial criativo, convém acalmá-lo para que transformações não sejam realizadas. Então dê uma família burguesa para que o homem possa zelar e trabalho para que possa tirar seu sustento, esquadrinhe-o nos ponteiros das horas, dos dias, das semanas e dos meses para que não fique sem suas responsabilidades sozinho diante do ócio criativo. Dê ao homem a felicidade! Felicidade em detrimento da alegria, felicidade é valor moral do dia e inconciliável com a alegria, felicidade é conservadora e se conforma com a realidade, já a alegria quer transformar a realidade.

Educar para que e para quem? Como educar sem incorrer em posições autoritárias? Como educar sem matar os gestos espontâneos da vida? Como educar sem disciplinar e domesticar os corpos? Questões que não se cogitam nos nossos mais conceituados hospícios do saber!

Por uma “educação” para aprender a desaprender e a se libertar das polícias que em nome do amor e de outras tantas virtudes autoritárias que impregnam nosso corpo vigiando as forças criativas e espontâneas. Não se trata de criar uma outra pedagogia no lugar de tantas outras e tampouco de mais um saber. Mas de uma posição que busque criar condições para que a potência criativa e espontânea da vida seja libertada.

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