Falando de morte com Irvin Yalom

irvin-yalom No meio acadêmico muita gente franze o cenho quando se fala de Irvin Yalom. A maioria simplesmente pelo fato do autor figurar na lista dos mais vendidos, o que costuma carregar entre os intelectuais-catedráticos, uma característica panfletária e vulgar das obras publicadas.

Ora, Yalom sempre deixou bem claro, retomando em suas várias obras, que sua idéia é mostrar em linguagem clara e acessível para o público leigo como funciona uma psicoterapia, e para isso utiliza-se da técnica de ser um bom contador de histórias, habilidade esta que ele mesmo diz.

Contudo, mesmo direcionando suas obras para o público leigo, os psicoterapeutas, principalmente os iniciantes, têm muito a se enriquecer com os seus livros. Pelo simples motivo de Irvin muitas vezes trazer em tona questões que os catedráticos não iram dizer para não pecar diante de suas juras cientificistas, entre elas: como lidar com o sentimento de raiva que estamos sujeitos a sentir pelo cliente; questões relacionadas à atração afetiva e física por parte do terapeuta; abordagem de conteúdos religiosos fortemente enraizados no cliente sem desrespeitá-lo; como usar a autenticidade e os sentimentos próprios diante do cliente a favor da terapia, questão essa que muitos terapeutas insistem em negar se colocando em um patamar hipócrita do “além-do-humano”, etc. E uma última questão, que penso ser de fundamental importância, é estar atento às múltiplas formas que a angústia de morte se revela como foco central a ser trabalhado.

E é sobre essa última questão que Yalom trata no seu mais novo livro publicado no Brasil pela editora Agir: “De frente para o sol – como superar o terror da morte”. Repare que esse “como superar o terror da morte” é o suficiente para certos catedráticos, antes mesmo de conhecer a obra, atirá-la à fogueira. De fato não é um título feliz, sem conhecer o autor nos leva a impressão de que é mais um daqueles manuais com técnicas e/ou idéias prescritas. No entanto, não é isso que Yalom faz em suas obras, muito pelo contrário, de abordagem existencialista, a psicoterapia para o autor é sempre única e singular ao cliente e, jamais deve ser imposta por uma teoria no sentido de aprisionamento em um dado sistema – o que não significa fazer terapia sem teoria alguma, mas que esta não deve ser tomada enquanto palavra de última ordem.

A morte sempre me foi uma questão fundamental da vida, afastá-la é negar a própria vida. Lembro-me de ter lido a obra central de Skinner, Ciência e comportamento humano, e após o término tive a sensação de que aquilo não me servia: Skinner parece que se entreteu tanto com sua “caixinha” que esqueceu uma questão fundamental para a psicologia. Ora, não que todos psicólogos deveriam elaborar tratados sobre o assunto, mas deveriam ter a honestidade de não negar algo intrínseco à condição humana.

Nesse sentido, resumindo a mais nova obra de Yalom em uma palavra, “De frente para o sol”, me vem à cabeça a “coragem”. Irvin está com 78 anos, e o mesmo reconhece sua própria angústia de morte: “… este é um livro profundamente pessoal, nascido da minha própria confrontação com a morte. Eu compartilho esse medo com todos os seres humanos…”. O título da obra não foi mero acaso, Yalom escolheu baseado em uma máxima do aforista fracês La Rochefoucauld: “Nem o sol nem a morte podem ser olhados fixamente”. Não conseguimos olhar para o Sol por muito tempo, também não conseguimos viver se pensarmos a morte intensamente de modo a ofuscar as nossas vivências.

Lidar com a ferida da morte é algo pessoal, Heidegger apresenta a morte enquanto uma questão ontológica que dá sentido ao ser, para ele o homem que não confronta com sua própria morte não atinge a maneira autêntica de viver. Contudo, os existencialistas podem se dar ao luxo de usar Heidegger mesmo desconsiderando essa questão, modificamos-a: para Heidegger e muitos outros a morte é algo que revela sentido à vida. Sartre, contrariamente, dirá que a morte não dá sentido algum pois ela termina de maneira brutal com todas as possibilidades da vida, é um nada total. Epicuro, Sêneca, Schopenhauer, Nietzsche, Dostoiévski, Tolstói, Freud etc., há incontáveis autores que tratam sobre a morte, e Yalom reserva um capítulo específico para discutir idéias de autores da filosofia e da literatura que podem nos ajudar a confrontar com a morte, reconhecendo-as que são idéias estritamente pessoais.

No penúltimo capítulo do livro, Irvin fala sobre a sua própria angústia diante da morte e discute idéias que a ele lhe são próprias para lidar com o medo da morte. Já no último capítulo, Yalom trata especificamente de exemplos (ao longo do livro também há vários exemplos) de como a morte pode surgir disfarçada durante as sessões: nos sonhos, nos comportamentos, nos sentimentos etc., e as várias maneiras como ele aborda essa questão.

Na minha pouca experiência no ambiente clínico, nunca entrei sem estar atento para os disfarces que a angústia de morte pode se apresentar, certamente que há momentos e situações onde a questão se revela útil para investigação bem como maneiras de se abordar o tema. Tampouco acho que as pessoas que procuram atendimento psicoterápico necessariamente devem ser interpeladas sobre sua angústia de morte. Nas palavras de Husserl, o fenômeno se revela por si só, pode ser num sonho, num material (trecho de livro, poesia, texto próprio, música, etc.) que o cliente demonstra interesse em discutir, numa obsessão, em maneiras das mais sutis às mais explícitas etc. Um pouco de bagagem (filosófica, literária, científica) em relação à questão da morte não a torna um elemento tão difícil de ser identificado em suas várias nuances. Nesse sentido, o livro em questão me foi de fundamental importância para a minha formação na medida em que Yalom também revela a imprescindível necessidade de estar atento a essa questão. Ainda, revela que em sua prática, muitos casos onde aparentemente a morte não era a dificuldade, era exatamente essa a questão a ser trabalhada.

Exemplos de singulares maneiras como os seus clientes conseguiram viver com a angústia de morte, alguns com doença terminal, adultos e idosos, as falhas do próprio terapeuta (Irvin) discutidas por ele, bem como os acertos, entre outras questões não iram faltar ao longo do livro, revelando-se como uma obra de suma importância para qualquer pessoa interessada em dialogar com uma questão difícil de ser pensada, discutida e que inevitavelmente teremos que lidar durante a vida e mais do que isso, teremos que morrer e ninguém poderá morrer por nós. Para os psicoterapeutas a simplicidade com que Yalom escreve não é sinônima de conteúdo panfletário, suas obras possibilitam dos mais iniciantes aos mais experientes enriquecer a formação. Para os iniciantes principalmente, pois Yalom discute muitas questões não discutidas nos ambientes universitários, e outras delas, quando discutidas não carregam a honestidade com que Yalom as apresenta.

Comentário(s): 3

  1. Anselmo

    Só li dele o “Quando Nietzsche chorou” e só recentemente fui me dar conta de que ele ajudou a fundar o movimento da abordagem humanista-existencial na psicologia. Os pontos que ele toca me parecem absolutamente nevrálgicos e inescapáveis. Ele traz questões profundas e que nenhuma psicologia, teórica ou prática, pode ignorar e negligenciar em sua consideração do humano.

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