Arquivos da categoria: Filmes

Sínteses, sinopses ou indicações de filmes e documentários.

A Viagem (Cloud Atlas) – vidas que não nos pertencem

Ressonância que me ficou do filme “A viagem” (Cloud Atlas):

“Nossas vidas não nos pertencem. Do útero ao túmulo, estamos ligados a outros, no passado e no presente e a cada crime e a cada bondade, nós damos vida ao nosso futuro.”

O filme é ambientado em vários locais e épocas diferentes e, sob um cunho espiritualista, aborda o quanto estamos conectados uns aos outros. Nessa linha de pensamento, essa conexão implica em conexão de individualidades e a vida é considerada algo pessoal, onde cada pessoa é responsável pelo que faz e isso afetaria a si e aos outros em tempos cronológicos distintos – presente, passado e futuro.

Não foi sob essa leitura que me deixei afetar pelo filme, que por sinal tem uma belíssima fotografia. Através de uma leitura spinozista, para além de uma conexão no âmbito pessoal da vida, estamos em um mundo de uma uma única matéria que se transforma e não cessa de se tranformar dando formas a corpos (homens, animais, plantas, coisas, etc) que se afetam e são afetados. Mais do que falar em conectados uns aos outros, o que implicaria, talvez, uma visão mais pessoal da vida, e então falaríamos de responsabilidades, papeis e reencarnações – uma visão espiritualista -, em Spinoza a questão se passa numa relação com o próprio real – uma visão imanente -, não enquanto uma questão somente de responsabilidades e papeis, mas enquanto impossibilidade de não ser afetado e afetar enquanto corpos (uma dada forma-corpo da matéria se configurar) que se afetam e são afetados a cada encontro com o mundo e as coisas.

Cena do filme "A Viagem"

Cena do filme “A Viagem”

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Holy Motors e os abismos do sentido

Cena - Holy Motors (filme)

Sou dependente de filmes capazes de provocar algo em mim, filmes que se misturam ao corpo e pensamento obrigando-me à criação de passagens – fazer passar algo pelo corpo. “Holy Motors” (2012) de Leos Carax é o mais recente que tive o privilégio de me misturar, misturar-se com as cenas para se perder ou se encontrar com algo. O diretor assim se apresentou em uma academia de críticos que o premiava (prêmio que ele recusou):

“Oi, eu sou o Leos Carax, diretor de filmes de língua estrangeira. Tenho feito filmes de língua estrangeira minha vida inteira. Filmes de língua estrangeira são feitos pelo mundo todo, exceto, é claro, nos EUA. Nos EUA, eles fazem somente filmes de língua não-estrangeira. Filmes de língua estrangeira são bem difíceis de fazer, obviamente, porque você precisa inventar uma língua estrangeira em vez de usar a língua habitual. Mas a verdade é que o cinema é uma língua estrangeira, uma língua criada para aqueles que precisam viajar para o outro lado da vida. Boa noite.”

Há um poderoso riso crítico nessa simples apresentação. Leos Carax sabendo do potencial da linguagem fez um filme magistral que leva a lógica da linguagem à epilepsia. Glossolalia, gaguejar a própria linguagem, toda língua por si só é estrangeira – disse Deleuze. Se não nos parece é porque ela é institucionalizada pela gramática, pelos modos de vidas dominantes, pelos dutos culturais que permitem passar esse ou aquele conteúdo. E então dizemos que falamos língua portuguesa, e então nos conformamos com as palavras que usamos e que usam, e o mais trágico: tomamos a vida pelas palavras, tomamos as pessoas e as coisas pelos sentidos contagiosos das palavras e não pela multiplicidade presente em qualquer acontecimento que a linguagem não dá conta. Se um dia você começar a questionar a palavra – não questionar o significado pelo significado -, questionar a palavra pela vida, vai se deparar com um fundo sem fundo. Heidegger teve vertigens com isso.

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Filme: Cubo

Seis pessoas desconhecidas acordam presas em um cubo de dimensões reduzidas, com várias portas que dão a outros cubos. Cada uma delas possui uma personalidade que é bem evidente e propositalmente caracterizada para que o telespectador possa tecer seus significados, bem como funções diferentes. Um policial-detetive sem escrúpulos que acredita saber quem é quem apenas no “olhar”; um deficiente mental mas com alguma realidade preservada; uma estudante que domina a matemática; uma médica de saúde pública que busca “equilibrar” os extremos…

No decorrer do filme o telespectador pode pensar que está diante de algo próximo dos “Jogos mortais”, porém, com menos sangue e esquartejamentos, e ao que me parece muito mais cativante. Diante da situação de iminente morte, as pessoas irão se enredar em situações de desespero extremo onde o “outro” não existe senão enquanto instrumento “à minha sobrevivência” – o que é o nosso próprio comum e não tem nada de espanto como costuma aparecer aos olhos da razão – e então, tentarão “unir forças” para tentar escapar do local.

Sem nenhum compromisso com o “sentido” mais comum que atribuem ao filme, destaco dois elementos que agradaram muito à minha perspectiva. O primeiro diz respeito à situação absurda e sem-sentido daquelas pessoas que de repente acordaram num cubo, construção estranha e insólita, o que as levou a “procurar” os entes para culparem e atribuírem sentido para o que elas estavam passando: culpabilização do mundo! Ora, que o homem é intoxicado por uma ordem moral do mundo que culpabiliza e responsabiliza o mundo conforme projeta os seus medos e angústias, animando-o conforme à sua imagem, é notório, contudo, foi-me engraçado deparar com aquelas pessoas – dado o sem-sentido da situação – se empenharem em buscar no passado ou nas pessoas uma “causa” por onde se apoiar.

Por fim, ao longo da trama que não me pareceu de grande mistério, transcorrendo dentro de um “já esperado” quando o telespectador já se contextualizou com os personagens e o ambiente do filme, o elemento surpresa e agradável veio exatamente no final. Possivelmente não estaremos falando de um “mesmo final”, mas o que me refiro é um que ri da humanidade [paranoica] inteira: uma delícia de filme… mas pelo desfecho.

O sem-sentido e o absurdo são só o sem-sentido e o absurdo…