Arquivos da Categoria: Filosofia

Artigos e textos filosóficos, vida e obra de filósofos, sobretudo, a filosofia de Friedrich Nietzsche.

Da gratidão a Schopenhauer

Não precisamos concordar para admirar aqueles a quem reconhecemos um encontro que a vida nos proporciona e vai afetando nosso sou de tal modo que poderíamos dizer: se assim não fosse poderia não ter sido assim, mas assim o foi e assim sou grato. Mesmo que da vontade das entranhas do mundo em nada posso ou pude me servir senão para galgar outros pensamentos. Um bom demônio para nos acompanhar durante os tédios da existência se precisa tanto quanto nenhum homem, definitivamente, não é um homem senão com outros homens.

Arthur Schopenhauer (22/02/1788 – 21/09/1860)


Na primeira mocidade, somos colocados em face do destino que se vai abrir diante de nós, como as crianças em frente do pano de um teatro, na expectativa alegre e impaciente das coisas que vão passar-se em cena; é uma felicidade não podermos saber nada de antemão. Aos olhos daquele que sabe o que realmente se vai passar, as crianças são inocentes culpados condenados não à morte mas à vida, e que todavia não conhecem ainda o conteúdo da sua sentença. – Nem por isso todos deixam de ter o desejo de chegar a uma idade avançada, isto é, a um estado que se poderia exprimir deste modo: “Hoje é mau, e cada dia o será mais – até que chegue o pior de todos”.

 (…) Imagine-se por um instante que o ato da geração não era nem uma necessidade nem uma volutuosidade, mas um caso de pura reflexão e de razão: a espécie humana subsistiria ainda? Não sentiriam todos bastante piedade para a geração futura, para lhe poupar o peso da existência, ou pelo menos, não hesitariam em impor-lha a sangue frio? (…) Certamente ainda terei de ouvir dizer que a minha filosofia carece de consolação (…)

O homem perante a natureza – Pascal

Que o homem, voltado para si próprio, considere o que ele é diante do que existe; que se encare como um ser extraviado neste pequeno setor da natureza, e que da pequena cela onde se acha preso, do universo, aprenda a avaliar em seu valor exato a terra, os reinos, as cidades e ele próprio. Que é um homem diante do infinito?

Quero, porém, apresentar-lhe outro prodígio igualmente assombroso, colhido nas coisas mais delicadas que conhece. Eis uma lêndea, que na pequenez de seu corpo contém partes incomparavelmente menores, pernas com articulações, veias nessas pernas, sangue nessas veias, humores neste sangue, gotas nesses humores, vapores nestas gotas; dividindo-se essas últimas coisas esgotar-se-ão suas capacidades de concepção, do homem, e estaremos portanto ante o último objeto a que pode chegar nosso discurso.

Talvez imagine, então, seja essa a menor coisa da natureza. Quero mostrar-lhe, porém, dentro dela um novo abismo. Quero pintar-lhe não somente o universo visível mas também a imensidade concebível da natureza dentro desta parcela de átomo. Aí existe uma infinidade de universos, cada qual com o seu firmamento, seus planetas, sua terra em iguais proporções às do mundo visível; e nessa terra há animais e neles essas lendêas onde voltará a encontrar o que nas primeiras observou. Deparará assim, por toda parte, sem cessar, infindavelmente, com a mesma coisa, e perder-se-á nessas maravilhas tão assombrosas na sua pequenez quanto às outras na sua magnitude. Pois como não se admirar de que nosso corpo, antes imperceptível no universo, imperceptível no todo, se torne um colosso, um mundo, ou melhor, um todo em relação ao nada a que se pode chegar?

Quem assim raciocinar há de apavorar-se de si próprio e, considerando-se suspenso entre esses dois abismos do infinito e do nada, tremerá à vista de tantas maravilhas; e creio que, transformando sua curiosidade em admiração, preferirá contemplá-las em silêncio a investigá-las com presunção. Afinal que é o homem dentro da natureza? Nada, em relação ao infinito; tudo, em relação ao nada; um ponto intermediário entre o tudo e o nada. Infinitamente incapaz de compreender os extremos, tanto o fim das coisas quanto o seu princípio permanecem ocultos num segredo impenetrável, e é-lhe igualmente impossível ver o nada de onde saiu e o infinito que o envolve.

(…)

Ante a cegueira e a miséria do homem, diante do universo mudo, do homem sem luz, abandonado a si mesmo e como que perdido nesse rincão do universo, sem consciência de quem o colocou aí, nem do que veio fazer, nem do que lhe acontecerá depois da morte, ante o homem incapaz de qualquer conhecimento, invade-me o terror e sinto-me como alguém que levassem, durante o sono, para uma ilha deserta, e espantosa, e aí despertasse ignorante de seu paradeiro e impossibilitado de evadir-se. E maravilho-me de que não se desespere alguém ante tão miserável estado. Vejo outras pessoas ao meu lado, aparentemente iguais; pergunto-lhes se se acham mais instruídas que eu, e me respondem pela negativa; no entanto, esses miseráveis extraviados se apegam aos prazeres que encontram em torno de si. Quanto a mim, não consigo afeiçoar-me a tais objetos e, considerando que no que vejo há mais aparência do que outra coisa, procuro descobrir se Deus não deixou algum sinal próprio.

O silêncio eterno desses espaços infinitos me apavora.

Quantos reinos nos ignoram!

Pensamentos. PASCAL, B.

Baruch de Espinosa

A vida se torna incrivelmente mais leve quando não só se lê Espinosa, como também se é convencido pelo pensamento do filósofo. Espinosa nos fala de coisas que deveriam ser primordiais, as coisas que realmente interessam, a alegria, a tristeza, os afetos, os encontros da vida!

Coisas que na filosofia não é muita tradição. Coisas que a escola não nos fala. Coisas que não deveriam, em hipótese alguma, passar tão distante dos cursos de psicologia. Em suma, coisas que a sociedade evita falar, e quando fala, fala para incriminar em um rol de ideais platônicos.

Saborear os encontros enquanto a potência de agir não se esgotou, não esperar muito do mundo nem das pessoas, pois os encontros são inéditos, singulares e irrepetitíveis, nenhum corpo é sempre o mesmo corpo… até mesmo o pensamento sobre a nossa própria morte, em Espinosa, pode acabar encontrando alegria.

Mesmo sendo racionalista, criado uma obra metafísica que pretende dar conta do mundo, Espinosa é um deleite para o pensamento, a carne, o sangue e os ossos. Sua obra é antes uma potência para a potência do viver.

Nem mesmo Nietzsche, que não via nos encontros senão o acaso, o oposto de Espinosa que diz ser o acaso o maior artifício da ignorância, pois atribui a nada aquilo que não se conhece a causa, foi capaz de passar imune ao primeiro filósofo que deu aos afetos o devido lugar para à vida.

50 anos sem Camus

É necessário imaginar Sísifo feliz.

Alguns raros homens se debruçam sobre a existência sem precisar usar de subterfúgios otimistas e tampouco uma concatenação de ideias celebradas em um sistema conceitual. Tais raros homens vão se adentrando nos mais obscuros pântanos da existência, não possuem receios em falar de absurdos, horror, revolta, irracionalidade e outros elementos presentes na vida, não se perdem em querer mostrar flores com borboletas e beija-flores quando um terreno árido e rugoso de cadáveres tem como fundo um cosmos desconhecido que é indiferente quanto ao testemunhar da existência dos homens. E é no horror de existir que Camus fez a alegria jorrar.

Nada resta de Camus senão os seus escritos que fazem parte do Camus que existiu mas não resume o homem Camus. Não faz mal, só resta aos vivos os escritos, e são tais escritos, de homens como tais, que nos ajudam a suportar a existência quando ela parece ter se esgotado, que nos possibilita nos desesperar e angustiar mais e daí um vulcão pode romper e colocar nosso mundo em chamas, pois lá onde o horror se mostra cresce também o afeto criativo diante da vida, pode também simplesmente nos oferecer uma sensação única de companhia quando nos sentimos incompreendidos por nós, pelo outro e diante de um mundo privado de qualquer sentido senão envolto por um absurdo total. Revoltamo-nos, logo existimos! E porque o horror é tão horrendo que a alegria se revela com todo o seu ímpeto isento de qualquer justificativa. “É necessário imaginar Sísifo feliz”. Assim também, é necessário imaginar Camus feliz por ter suportado sua existência e deixar tanta potência para os homens!

Devo a Camus a primeira sensação de ser compreendido no mundo. Ao lado do Estrangeiro senti uma imensa sensação de acolhimento, eu não estava sozinho, o meu mundo da qual eu não conseguia fazer falar também já fez parte de outros homens e certamente ainda o faz. Ainda, a revolta que Camus nos fala pode ser um imenso potencializador da ação e do afeto diante da vida, pela revolta existimos tal como um Sísifo, sempre a lutar sem se perguntar pela esperança, esse veneno que o homem moderno deu um jeito de expulsar da caixa de Pandora!