Freud e a psicanálise pela poesia

Sempre nutri certo gosto pela psicanálise, não enquanto ciência, mas como poesia, terreno para criação de sentidos e significados, sem, contudo, “morrer por uma idéia” ou conceito. Quem me afastou da psicanálise foram meus professores, principalmente os psicanalistas freudianos, que até hoje, os que conheci, eu os vejo não como psicanalistas, mas como religiosos! – Mas nem por isso abandonei Freud, seria ingênuo acreditar que era só aquilo que ouvi da boca dos meus professores. Apenas não o utilizo como referencial teórico, ou melhor dizendo, ele de alguma forma contribuiu para minha formação, mas não enquanto referencial fechado: id, ego e superego – são coisas que chutei longe, ou melhor dizendo, interpreto-os à minha maneira.

Lacan veio e deu novo sentido à psicanálise. O homem habita a linguagem: concordam Lacan e Heidegger; discorda Jaspers. Eu, bem, concordo, é um bom sentido. Lacan, que também não é meu referencial básico, é interessantíssimo; e quanto ao meu professor de psicanálise lacaniana – que também é freudiana – só tenho a agradecer: não o vi como “psicanalista religioso”.

Hoje, um amigo me mandou um email com um título curto: “Acho que você vai adorar!” – Ele sempre me perguntava qual minha opinião sobre a psicanálise pois achava que eu pegava pesado com os “psicanalistas” (àqueles psicanalistas que me deram aula). Eu dizia: psicanálise é poesia, não é perversão, nem neurose, nem complexo, nem estrutura, é poesia e nada mais. (Se algum psicanalista religioso ler isso é capaz de me enquadrar em alguma estrutura, qual a pior delas?)

Meu primeiro contato com Freud foi com “O mal-estar na civilização “, um livro daqueles que ficamos maravilhados por semanas. A partir daí percebi que Freud estava sustentado pela filosofia de Schopenhauer, um filósofo tido como pessimista, na qual encaro como humorista – um grande comediante da vida. Está entre meus filósofos preferidos, junto com Nietzsche – ambos fizeram parte das minhas primeiras leituras: péssimas influências. Concilio os dois: bem opostos.

A partir daí sempre li Freud como um filósofo, e nunca como um cientista. Certamente que ele sistematizou seus pensamentos, muito influenciados por Schopenhauer, Darwin e o próprio Nietzsche, entre outros, em um extenso corpo teórico, conceitos e mecanismos. E corpos teóricos costumam ser perigosos dependendo do que fazem com ele: podem virar religião! Esse problema, infelizmente, ocorre muito na psicanálise, e não somente: outro exemplo que presenciou é no marxismo, que sempre percebi como seus próprios inimigos. Certa vez tomei conhecimento que Sartre, um daqueles existencialistas que fazem parte do meu referencila básico, pensou o mesmo: os inimigos do marxismo são os próprios marxistas – e veio aquele sentimento de alegria quando deparamos com “nossos pensamentos” (que não são nossos) em autores que ocupam lugar vip no nosso pensamento.

Lamento, mas vejo que no meio da psicanálise há muito de “religiosos”; há muitos psicanalistas ruins, que chegam ao ponto de interpretar o complexo de Édipo bem longe do terreno simbólico, chegam a dizer que “falo” é “pênis”, que a menina sente inveja do “pênis/falo”, e o menino ciúmes do “pai/fálico” em determinada fase marcante da vida! Só para citar alguns dos absurdos que já ouvi de professores do meu curso. É uma pena!

Bem, o que meu amigo enviou foi uma indicação de um livro que, embora ainda não consegui meu exemplar, já me agrada só pelo título. Procurando mais sobre o livro encontrei um belo vídeo no YouTube: e foi aquela felicidade encontrar pensamentos semelhantes. O livro: “Quando nem Freud explica, tente a poesia !”, de Ulisses Tavares, Editora Francis.

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