Nietzsche contra Marx e Hegels – Materialismo e Historicismo

Os avanços no conhecimento têm dado ao homem uma falsa idéia de que podemos – através do saber, da consciência, da razão, da lógica e outros artefatos criados por nós mesmos – acessar um fundamento ou princípio básico por trás de qualquer fenômeno, e que se descoberto podemos controlar e organizar o mundo.

Como colonizadores do futuro agarramos no progresso e perdemos com isso o presente; não há trilhas nem caminhos, o que era sólido se desmanchou no ar, disse Marx. Mas, contudo, o pensamento marxista, também se desmancha diante do pensamento nietzschiano.

Iniciada na geração de Hegel, depois com Marx, a História foi apontada como pedra angular da redenção – e por que não, da salvação! Deus, Religião e Arte foram destronadas, seus sacros lugares foram ocupados pela História enquanto dialética das contradições e conflitos dos povos que esclarece o espírito, desvenda o presente e projeta o futuro. Eis a História, com a função de “Tribunal do Mundo dos Homens”.

Antes da filosofia hegeliana o mundo adoecia nos contrastes entre Deus e mundo, homem e Natureza; após, as polaridades foram substituídas pelas paridades sociedade e História, homem e sociedade. – No final das contas, a metafísica passa a ser da sociedade e da História.

O Ser não importa, seu discurso e singularidade tornam-se diluídos e condicionados na História e na sociedade. Perdem-se no grande caldo historicista e materialista. Resta aos seus seguidores dar um novo sabor que lhes agrade juntando e formando quebra-cabeças retirados das ruínas, imaginando vida a partir do que sobrou dos mortos e sepultados. – Hegel e Marx vislumbraram a solução na sociedade e na História.

Nietzsche oferece-nos um possível antídoto. Contra a História a própria História: é preciso voltar a História contra a própria História para quebrar o seu poder,  “a própria História tem de resolver o problema da História“. Vislumbramos aqui a possibilidade do devir se firmar a partir do aqui-e-agora; credita-se um potencial ao indivíduo para que ele possa construir sua própria experiência sem precisar bater continência aos saberes de outros povos – o que não significa que estaríamos esterilizando culturas passadas, mas colocando-as em seus devidos lugares.

Buscando sedimentar suas idéias, Nit se volta para a Grécia Antiga que não tinha o pensamento histórico, mas florescia ali uma arte do viver liberta das correntes da História. Os gregos estavam expostos às guerras e aos elementos culturais externos e internos – elementos históricos – e mesmo assim conseguiram fazer emergir do caos uma afirmação à Vida.

O historicismo de Marx ocupa lugar central no Conhecimento, tornando o pensar escravo do pensado no passado, de tal formo, podemos nos perguntar: como salvar a vida do Conhecimento sem conhecimento e do Saber escravo do pensado? – Nit nos aponta o mesmo antídoto usado para a História. Contra as supostas “verdades” que violentam o homem diante do devir, “o saber tem que de voltar seu aguilhão contra si próprio“.

Há aí um fundamento existencialista: a existência precedendo à essência. Como libertaremos o homem das masmorras essencialistas? – As prisões religiosas já estão abaladas, mas há outras inúmeras trincheiras fantasmagóricas: a lógica, a História, a sociedade, os ideais humanistas, progressistas e liberais, etc. – Não que eles não sejam importantes, mas novamente, devem se colocar em seus devidos lugares, isto é, serem limpos dos seus aspectos divinizados.

Para Nit devemos aprender o a-histórico e o supra-histórico, o primeiro é a imediaticidade do devir, o segundo é o “que confere ao existir o caráter de eterno e idêntico” [eterno retorno]. Diante desse contexto, penso que vale uma reflexão: o fato do pensameno historicista ver que o presente tem conexão com o passado, isto é, a História como responsável pelo presente, se deve, somente ao caráter transformador de épocas passadas para as épocas atuais; ou por que, como não existe um lapso entre as gerações, as gerações que se sucedem moldam o presente de acordo com as condições deixadas, de tal forma que o presente se forma dos múltiplos encontros entre forças casuais?

Referências bibliográficas:

NIETZSCHE, F. A Gaia Ciência. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
_________, F. Sabedoria Para Depois de Amanhã. São Paulo: Martins Fontes, 2005.
_________, F. Crepúsculo dos Ídolos. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.
_________, F. O Nascimento da Tragédia. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

Comentário(s): 6

  1. Márcio Bolchevique

    Um texto repleto de fraseologias vazias, que criam um espantalho em torno do termo “historicismo” para criticar o pensamento de Marx e Engels. “O Ser não importa, seu discurso e singularidade tornam-se diluídos e condicionados na História e na sociedade” significa apenas a negação da ideia simples (porém quase óbvia) de que os indivíduos são socialmente determinados. A individualidade do Ser não é suprema nem absoluta, mas limitada em função de sua realidade material, de sua posição na organização da sociedade (especificamente de sua posição no modo de produção, a.k.a classe social). Mas a filosofia marxista não é determinista, como costumam acusá-la, pois através da práxis o indivíduo é capaz de transformar sua realidade social, criando uma relação dialética entre a sociedade e o indivíduo: este é condicionado por aquela, mas também pode modifica-la por meio da práxis revolucionária.

    Responder
  2. Leonardo

    Cara, só o fato de Niti ser vitalista, e considerar que a realidade é o que é, já é absurdamente contra as ideias de Marx, que propunha uma correção social baseada na análise pelo materialismo histórico. Ótimo artigo.

    Responder
  3. Pingback: Poesias Anarcofágicas #17 |

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *