Nietzsche, o rebelde aristocrata

Recém lançado pela editora Revan, a obra cujo título já nos “revela” algo causa espanto: Nietzsche, o rebelde aristocrata: biografia intelectual e balanço crítico. Ora, espanto maior é saber que são mais de 1000 páginas onde o autor, o filósofo italiano Domenico Losurdo, entabula uma análise marxista da obra de Nietzsche: eu temia por esse dia, mas não sabia que o marxismo seria tão ousado!

O marxismo virou uma doutrina, uma religião, um saber científico altamente racional, iluminista, pautado e engessado em uma lógica, a tal da dialética que eles conseguem a proeza de dizer que faz parte da própria natureza – sim, um modus operandi da natureza -, onde o Tribunal que decide por tudo e por todos é a História, numa esperança de uma nova Jerusalém na Terra.

Já tive oportunidade de ler alguns artigos marxistas sobre pós-modernismo – e para eles Nietzsche é o representante máximo dessa época que para eles são uma espécie de perdição do mundo, tal como é o Mal para o cristão. O professor Newton Duarte, no último ou num dos últimos textos do livro “Crítica ao fetichismo da individualidade” a qual já vomitei todo o conteúdo à época, faz uma análise que ao meu ver mostra a própria reclusão do marxismo como uma doutrina fechada nela mesma, autoritária e incapaz de dialogar com qualquer pensamento: se se não altera as relações do modo de produção que diálogo resta ao marxismo? – Somente no aguardo de um “suicídio” do capitalismo esses senhores de cérebro engessado possivelmente perceberão novas auroras, do contrário ficam atolados em si mesmos.

Referi-me aos marxistas de modo geral, pretensão, sei disso! Não conheço todos os marxistas, mas os que já conheci nunca passaram de acadêmicos, alunos, mestres e doutores, que praticam um dogmatismo virulento sob a efígie de um pensamento crítico e transformador: fora da dialética e da história são como peixes fora d’água!

É penoso ouvir os santíssimos preceitos e conselhos do papa em suas várias aparições na vida pública, mas uma mente marxista fazendo leitura de Nietzsche é por demais insuportável!

Comentário(s): 7

  1. LUIZ HENRIQUE VIEIRA LINS

    É claro que numa página intitulada”eternoretorno” haveria farpas ao livro de Losurdo. A fala final “mas uma mente marxista fazendo leitura de Nietzsche é por demais insuportável!” , encosta no bizarro. Não tenho dúvidas em afirmar que há “marxismos”, pois não consigo vê-lo como um monolítico. E há sim muita coisa “engessada” e de péssima qualidade nesta etiqueta. Concordo também, que para muitos marxistas, tudo no mundo se explica pela dialética. Agora também, elaborar este pequeno pseudo-artigo, sem mencionar absolutamente nada do livro que vai no título é grotesco. Não perca a oportunidade de ler o livro, contra-argumentá-lo e destruí-lo. Do contrário, o silêncio se justificaria.
    Chega de Marxismo 2 X 5 Nietzschenianismo(ou vice-versa)! Isto não leva a absolutamente nada.

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  2. Márcio Bolchevique

    Quem já leu “A Ideologia Alemã” conhece o potencial destruidor que uma análise marxista possui quando se trata de criticar o pensamento filosófico de outros autores. O método de Marx e Engels (o materialismo histórico-dialético) é capaz de destrinchar e expor toda filosofia nietzschiana à luz de sua ideologia, ou seja, de sua compreensão distorcida da realidade, causada pela incapacidade do próprio autor de se reconhecer como aristocrata e, portanto, ter seu pensamento condicionado por sua realidade material, por sua classe social etc. Deslegitimar a ciência e afirmar que o marxismo é “dogmático” ou “positivista” foi a única alternativa que restou, não apenas a Max Stirner, Bruno Bauer e outros autores após “A Ideologia Alemã”, mas também agora é o que sobrará aos defensores de Nietzsche após lerem a obra de Losurdo.

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  3. Márcio Bolchevique

    Quem já leu “A Ideologia Alemã” conhece o potencial destruidor que uma análise marxista possui quando se trata de criticar o pensamento filosófico de outros autores. O método de Marx e Engels (o materialismo histórico-dialético) é capaz de destrinchar e expor toda filosofia nietzschiana à luz de sua ideologia, ou seja, de sua compreensão distorcida da realidade, causada pela incapacidade do próprio autor de se reconhecer como aristocrata e, portanto, ter seu pensamento condicionado por sua realidade material, por sua classe social etc. Deslegitimar a ciência e afirmar que o marxismo é “dogmático” ou “positivista” foi a única alternativa que restou, não apenas a Max Stirner, Bruno Bauer e outros autores após “A Ideologia Alemã”, mas também agora é o que sobrará aos defensores de Nietzsche após lerem a obra de Losurdo.

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  4. Márcio Bolchevique

    Quem já leu “A Ideologia Alemã” conhece o potencial destruidor que uma análise marxista possui quando se trata de criticar o pensamento filosófico de outros autores. O método de Marx e Engels (o materialismo histórico-dialético) é capaz de destrinchar e expor toda filosofia nietzschiana à luz de sua ideologia, ou seja, de sua compreensão distorcida da realidade, causada pela incapacidade do próprio autor de se reconhecer como aristocrata e, portanto, ter seu pensamento condicionado por sua realidade material, por sua classe social etc. Deslegitimar a ciência e afirmar que o marxismo é “dogmático” ou “positivista” foi a única alternativa que restou, não apenas a Max Stirner, Bruno Bauer e outros autores após “A Ideologia Alemã”, mas também agora é o que sobrará aos defensores de Nietzsche após lerem a obra de Losurdo.

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  5. Ademir Bezerra

    É grande homem, só faltou a análise do livro. Tal qual a Veja ele vocifera, mas não analisa. Você conhece tão bem o marxismo quanto eu conheço cirurgias de coração.

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    1. Marcelo

      Fato, ‘vomitou’ tudo num discurso pensado na forma, mas órfão de conteúdo. Não tive a oportunidade de ler o livro do Domenico, mas não acredito que ele o tenha escrito sem fazer referências aos livros de Nietzsche. O sr., ao contrário, não trouxe as provas de seu discurso, não foi honesto na argumentação, o que me faz crer (não precisaria de muito mais depois de ter lido palavras tão ‘aristocráticamente’ rebeldes como estas) que realmente não entende nada de marxismo (pois, se ainda não lhe contaram, o conhecer precede o criticar) nem de filosofia de uma maneira geral.

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