Ninguém nasce mulher nem homem

Velazquez-Meninas As - sec 17 Simone de Beauvoir ficou famosa não só por ser uma companheira de existência de Sartre, mas também por sua obra O segundo sexo (publicada em 2 volumes), talvez uma das insuperáveis obras até o momento que trata e analisa o papel da mulher na sociedade. Certamente muito influenciada por Sartre, Simone assim inicia o segundo volume que escandalizou à sua época: Ninguém nasce mulher, torna-se mulher.

Por considerar apenas a mulher nesta frase Simone de Beauviour deu um tom ainda mais intenso ao que queria com sua obra que mais do que páginas intelectualizadas, foi um grito de mulher para mulheres contra uma sociedade machista – não superada ainda nos dias de hoje.

É perfeitamente possível ampliar a frase. Ninguém nasce homem nem mulher, torna-se homem ou mulher, ninguém nasce homossexual, heterossexual ou bissexual, torna-se homossexual, heterossexual ou bissexual. Fisicamente a mulher não nasce mais fraca que o homem e o homem mais forte que a mulher, o homem costuma ser mais forte que a mulher fisicamente não porque nasce assim, mas porque se constitui assim em sociedade: meninos e meninas são separados desde crianças, atividades físicas e intelectuais, cobranças e formas de relacionamento são devidamente constituídos e separados cada qual ao seu papel mais ou menos demarcado em sociedade. Assim, na mesma lógica, de maneira geral espera-se da mulher mais sensibilidade e apelando a uma distorção aberrante conceitual, mais “feminilidade”; o oposto, isto é, o homem dito “sensível”, é antes pejorativamente etiquetado como “afeminado”, ou aquele que não se enquadra no que se espera dos valores que giram em torno do “homem viril” ou o “macho patriarcal”. Outro valor recorrente no patriarcalismo é a ideia de que a mulher herda evolutivamente um instinto de maternidade, de modo que a mãe que “falha” ao criar o bebê é responsabilizada e martirizada pelos mais diversos rótulos da loucura, ora, nenhuma mulher nasce mãe, torna-se mãe! Para se defender a ideia de que toda mulher tem um instinto materno é necessário apelar para entidades dogmáticas ou pelo menos manter uma relação dogmática com determinadas explicações, o cristianismo e o evolucionismo são os argumentos mais comuns. A genética é o argumento mais moderno que na cabeça de alguns explica o que não se sabe ou não se quer pensar.

Há um discurso pós-modernista que costuma apontar para um momento que não sabemos ao certo o que está acontecendo, mas que há uma grande mudança se realizando entre os valores. Os sexólogos mais modernos estão afiadíssimos nesse discurso transposto para as suas especialidades. Certos psicanalistas também não deixam por menos, a “crise do macho” (e da fêmea?) e os “livros de amor” de um certo psicanalista bem conhecido por aí estão em alta. Penso que é compreensível verificar uma inquietude sim em relação aos valores, e como gostaria que o edifício tradicional dos valores fosse dinamitado – quem poderá dizer se o que vier após a catástrofe não é uma catástrofe mais digna? –, contudo esse otimismo não me contagia tanto, os ideais permanecem aí, intocáveis: não de modo explícito, mas implícito idealizando (e não concretizando) a liberdade de valores.

A mulher que tinha o seu corpo enquanto objeto para o homem (na cama e nos afazeres domésticos) passa agora a ser a mulher poderosa dos negócios que usufrui da “liberdade feminina” que se acredita já conquistada, seu corpo não pertence ao marido ou pelo menos a um único marido, mas a vários (à sociedade do consumo de maneira mais ampla): o corpo feminino passou a ser objeto do negócio. A mulher então passou apenas a ser remunerada pela sua submissão a uma sociedade ainda patriarcal, ora, antes era “remunerada” em forma de moradia, alimentação e outras necessidades supridas pelo homem provedor do sustento.

O amor é outro valor que brilha aos olhos dos “especialistas em relacionamentos afetivos” que se empolgaram com a possibilidade de se ter mais parceiros(as) na cama e selaram suas teorias que predizem um momento de profunda transformação: ora, a vida concreta tem me revelado que os amantes até possuem mais relacionamentos e experiências afetivas e sexuais mais variadas – e que bom! –, contudo, são também em grande parte saudosos e, portanto, ressentidos, dos “contos pitorescos do amor romântico” em seus variados coloridos para mais ou para menos encanto, embora isso não seja algo que venha a tona explicitamente, pelo contrário, é conteúdo que passa a ser vergonhoso de se compartilhar no cotidiano.

Os exemplos são inúmeros. Tornar-se-ia desnecessário dizer que homens e mulheres não nascem homens nem mulheres, mas tornam-se homens ou mulheres, bissexuais, homossexuais ou heterossexuais; desnecessário se não fosse, de outro modo, acreditar quase que como um autômato de que as coisas mais ou menos já “nascem assim”. E em se tratando de uma sociedade de miséria sexual, segregada e escravizada por valores tradicionais que em grande parte não foram modificados mas dispensados de serem ditos, as religiões monoteístas, judaísmo, islamismo e cristianismo (e as politeístas?) possuem grande participação, pois em matéria de pênis e vagina, Deus, embora eunuco e vitoriano a ponto de não permitir nem que Jesus Cristo tenha nascido de uma noite de gemidos com alguns puxões de cabelo, não fica de fora quando se pretende classificar, normatizar e definir os papéis de homens e mulheres. Por assim dizer, todo ateu é também um ex-crente.

*Pintura: As meninas. Velazquez (século XVII)

Comentário(s): 6

  1. veromundo

    verdade, homem nao nasce homem, cadela nao nasce cadela, cão não nasce, cão, egua não nasce egua e cavalo não nasce cavalo, todos descobrem sua sexualidade depois. estou tentando convencer minha cadela que ela é um cachorro, mais a danada cisma que é femea. a verdade é que esta todo mundo ficando doido, mulheres de penis e homens de vagina…a natureza errou!

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  2. Margareth

    Oi Adriel,
    Não tinha lido esse texto seu, adorei! Parabéns mesmo! Muito bem escrito, e com perspicácia Deleuziana. estou escrevendo algo sobre a questão da sociedade falocentrica, reafirmada em Freud, que tratou da pulsão dionísica do femino inscrevendo-a nos fundamentos da psicanalise como histeria, e seu seguidor mais famoso Lacan, não fez por menos, manteve o feminino, refém do poder patriarcal. E por aí vai
    outro abraço

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  3. Emanuelle

    Parabens por essa obra fantastica e mais do que verdadeira,a verdade esta diante dos olhos de todos mais eles fingim que nao a ve, quando eles falam o ditado muito macho pra mim nao tem logica o certo seria dizer (MUITO FEMEA)pois tds sabemos que as mulheres sao mais resistentes que o homem,mas como eles estavam no poder usou esse ditado que para mim e machista e mentiroso,como se o homem fosse mais forte do que a mulher,o fato e simples:os homens por ter visto que as mulheres faziam os proprios homens, eles nao gostaram da ideia e inventaram que fomos feitos de sua costela por obra de Deus,desconfio muito de que isso seja realmente verdade,se fosse assim eles fariam os filhos,entao para a mulher nao manter poder sobre o homem sobre toda sua existencia eles inventaram essa,como se Deus prefiressem a eles do que a nos,dai eles venceram,pois colocando Deus no meio quem vai discordar? Naquela epoca ainda se dizia que o homem era mais inteligente que a mulher,claro,era so eles que frequentavam as escolas,assim fica facil,rsrs,td isso por nossa dadiva de ser mae nao podiamos sair as ruas sem a invencao da bendita pilula pq se nao poderiam(na cabeca deles) nos estrupar e dai engravidariamos e naquela epoca qual o homem que iria cuidar de um filho que nao fosse seu? E tbm pensavam que as mulheres poderiam trai-los,engravidar do amante e falar que o filho era do marido,por isso tinhamos que viver presas e ser empregada domestica deles por comida e abrigo(humilhante),se falam da escravidao dos negros,mas se esquecem da escravidao que as mulheres tbm passaram,diferente,mas nao deixa de ser escravidao…Bom,dai foi inventado a pilula,isso fez com que pudessemos sair as ruas,dai se ja pudiamos sair as ruas sozinhas pq nao trabalhar pra ajudar no sustento da casa?pensou o homem,pois bem,finalmente conhecemos o cheiro do dinheiro,dai entao para sermos mais eficientes tivemos que nos aprimorar com livros e mais livros,assim ganhamos papeis importantes na sociedade,agora ninguem pode negar nossa inteligencia,muitos gostaram da evolucao,mas tenho certeza de que muitos sentiram uma pontinha de raiva(idiotas),agora quanto a forca fisica eu tenho certeza de que existem mulheres mais forte do que muitos homens,mas como tem esse negocio todo de homem nao poder lutar com mulher fica dificil provar,tem uns casos assim de queda de braco que as mulheres vencem mas sao muito discretos,os homens tem medo de expor,dai fica dificil provar,mas como vc disse:geralmente os homens sao mais fortes,mas nao pq nasceram assim e simplesmente pq cresceram com essa crenca e disposicao para levantar pesos,dai nao da outra,e claro que eles ficariam mais forte,quanto mais vc treina,mais forte vc fica, e as mulheres sem nenhuma disposicao e costume para fazer forca deixa td para hora do parto e sofre muito por nao ter conhecido sua propria forca antes,e claro que as mulheres nao sao o sexo flagil e sim o sexo com falta de animo e disposicao(POIS NA ESCOLA NAO SE ESTUDA ANATOMIA DE MUSCULOS DO CORPO DO HOMEM E DA MULHER Estuda APENAS DO CORPO HUMANO) a diferenca e so la embaixo mesmo…rsrsrs…

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