O esvaziamento da Arte

Se se tem algo que se torna gritante naquilo que se chama de arte pós-moderna é o completo esvaziamento da própria Arte. Ora, a Arte não é um vácuo onde toda matéria pode vir a ser obra de Arte, se se tem algo que é próprio da Arte, uma obra de arte capaz de afetar e produzir horror ou encanto, capaz de chocar e alterar a órbita das percepções só pode dizer respeito à vida e ao homem. A Arte só se fundamenta no homem e na vida, e nada mais. E tal Arte só pode ser feita por homens, qualquer homem – dos sábios aos indigentes, do miserável ao príncipe – pode criar e dar luz a uma obra de arte.

Todavia, desde o fim da modernidade que a Arte vem sendo esvaziada, e agora adquire sua forma mais desprezível entre os chamados “artistas pós-modernos” que a transfiguraram no próprio culto ao objeto. Já não é feita por qualquer homem, é uma arte que clama pelas mãos de um artista com cunho de “especialista”, de alguém que, diante de um “quadro vazio”, tenha sua assinatura adornada de atributos que garanta àquele que a “consome” uma posição diferenciada. Visitar uma galeria de arte pós-moderna é algo como experienciar “religiosos” cultuando objetos por eles escolhidos para representarem seus próprios vazios enquanto fetiche capaz de significar “tudo” ou “nada”. Toda quinquilharia produzida pelos artistas pós-modernos também se paga na lógica do fetiche e não do objeto. Há quem pague, assim como há pessoas que estampam suas estantes com livros falsos.

É possível dar à percepção a dimensão da Arte, relacionar-se com o mundo a partir de uma ética estética, mas é uma obra de arte que não se materializa ao outro, mas que se presta à própria singularidade, é antes uma ética da vida enquanto obra de arte. Já a Arte materializada em obra de arte é algo bem ausente nos tempos atuais, as obras de arte dos mortos jazem como objetos ícones de troféus nas casas de colecionadores, ou protegidas em museus que são pontos turísticos programados para um público que pode “consumi-los” desde que possa desembolsar o que é pedido. Entre os artistas-especialistas encontra-se o culto ao objeto e do gerenciamento do negócio a ser realizado.

É mais certo que podemos encontrar a Arte que só pode dizer da vida e do homem batendo à porta dos anônimos, buscar nos excluídos, nos silenciosos, naqueles que têm sido os únicos contempladores das suas próprias obras de arte e nada mais pediram senão viver o próprio júbilo que sua criação lhes proporcionam…

Comentário(s): 6

  1. Isis Moura

    O bom é perceber que filósofos como Hans Belting e Artur Danto há tempos ja anuciaram o fim da história da arte com A maiúsculo. Penso que nós estamos no iniciozinho da pós-modernidade, e cm é comum aos artistas… se precipitam!
    será q a arte contemporânea propõe uma reflexão sobre si mesma?
    uma coisa é certa…Ela esta andando, de mãos dadas -mais do que nunca- com a filosofia.

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  2. Fatima C. Calcagno

    nao quero ser repetitiva… mas faco eco as palavras acima… tudo que ja vivi, vi e passei daria um livro! o esvaziamento da arte vem do esvaziamento das pobres cabecas… pobres cabecas das pobres pessoas que, vazias, se deixam encher do que for… de qualquer coisa… de nada…!!!! O bom e bonito e inteligente eh o que vem do que esta “na moda”… Eh inteligente ficar embaixo de lencois pendurados no teto de um salao d arte… eh inteligente ficar horas diante de garatujas q nqda dizem ou de um quadro em branco q nem tinta de fundo tem! e ah! presisa-se elogiar muito. Tecer comentarios e mostrar que se conhece o “autor” e suas obras!!!!!!!! Quanta pobreza. Quanta falta de personalidade!!! Ah… desculpem!! esqueci que pessoas vazias e ocas nao tem personalidade… pois sao… ocas.

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  3. Pingback: O artista e a realidade social – Eduardo Marinho | Eterno Retorno

  4. Balaio Variado

    Parabéns pelo texto!!

    Infelizmente sinto o tal esvaziamento na arte também… acho que por muitos motivos. E são motivos que sempre existiram, mas que no momento parecem mais graves do que nunca.
    Não se valoriza o artista de rua, nem o que faz um trabalho de pesquisa e autoria própria, nem o que batalha pela valorização (dinheiro sim) de seu trabalho ideológico e etc.
    A questão de como nosso trabalho é divulgado (quando o é)
    e como é divulgado, que na minha opinião, só presta um desserviço ao artista.
    Sabe que… quando um grupo de artistas vem para o Brasil se
    apresentar em algum festival, eles ganham as passagens aéreas, a hospedagem, alimentação e o cachê. Quando um grupo brasileiro vai para fora do país, ele recebe o convite e também a proposta que é basicamente esta – alimentação, hospedagem, cachê simbólico, mas tem que bancar as passagens. Sem falar na diferença entre os cachês…
    É o terceiro mundo, pagando para os artistas do primeiro mundo (que são subsidiados por seus governos), sendo que
    nossos artista aqui não ganham para nada, ao contrário, pagam para trabalhar.
    Não sei se vocês conhecem este vídeo, mas vou deixar aqui
    (com a sua licença) pois vale muito a pena assistir!! Ele diz tudo e mais um pouco. Simplesmente demais!!

    Abraços

    http://balaiovariado.blogspot.com/2010/02/dica-de-video-ainda-nao-viu.html#links

    Balaio Variado

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  5. adv Autor do post

    @]Margareth Bravo: olá, acho que a palavra “patrocínio” que faltou nesse post diz muito sobre o que se reivindica para a arte atualmente, sobretudo através de um exemplo prático: clarificou muito! Muito grato pelas considerações ;)

    abraços
    [deixei o mail no seu blog ok]

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  6. ]Margareth Bravo

    Ai que coisa boa a gente se sentir compreendida… Venho sentido exatamente isso, e vendo amigos na exata situação que vc descreve. Mas vai falar, isso é que nem criticar o mundo acadêmico. Fui numa exposição dia desses cuja obra de arte, era digamos, apoiada, por um pai ricaço, e a artista exibia sua arte com gravações nas instalações humanas onde podíamos ouvir elogios a sua pessoa e referências ao seu trabalho. Fiquei imaginando quantos artistas viscerais poderiam estar naquele momento criando e sem a menor chance de algum dia expor por falta de ” paitrocínio”.
    Não entendi bem o skibihit (não sei se é assim) mas serviu para eu te dizer que quero seu email, (vc pode deixar no meu blog e eu não publico) para trocarmos idéias. Meu computador está com problema na placa mãe, pai filho e espírito santo, mas assim que que tiver sanado te escrevo com calma. beijosss

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