O que estamos fazendo de nossas vidas?

Caspar David Friedrich o viajante-sobre-o-mar-de-nevoa

Obs.: A frase do título é uma pergunta feita pelo filósofo francês Michel Foucault – penso ser esta uma das perguntas mais inquietantes, que não comporta resposta, mas punge por respostas, embora ainda estamos longe de compreendê-la.

Estamos em um pequeno pião chamado mundo que gira ao redor de uma bola de fogo, diz Edgar Morin, estamos condenados à morte, somos seres-para-a-morte nos apontou Heidegger.

Não há nenhum destino final, nenhum momento que a felicidade e a igualdade social irão imperar. Não há Salvação no Além e nem na Ciência. Há o mistério, o caos, o desconhecido, as incertezas, os acasos, e é exatamente a partir daí que devemos construir as certezas incertas. É aprender a conviver com a angústia pois ela se renova eternamente.

Uma fórmula capaz de solucionar um mundo que contém a morte, o caos, a incerteza, o erro, isto é, a complexidade, é um profundo sonho da qual a humanidade ainda não despertou.

E é exatamente por não haver Salvação nem Redenção que devemos amar incondicionalmente a Vida, alegrar-se com o instante, reinventando a cada instante, buscando a certeza na incerteza, sem, contudo, deixar de saber que ela é só uma incerteza. Edgar Morin alerta que a dúvida sem a fé se torna niilismo, e a fé sem a dúvida se torna dogma, de tal forma que devemos saber navegar em um sistema de dúvida e fé, fazendo voltar a dúvida contra a fé, e a fé contra a dúvida, não porque são antagônicos, porque se complementam.
Já não está na hora de trazer aqueles elementos que encontraram abrigo no Além, como a alegria, o amor e a fé, para conviverem juntamente com a razão nessa vida do aqui e agora, na vida terrena mortal, para nos alimentar diante do inaudito?

Por mais que eu tente, não tenho encontrado diálogos, mas somente pessoas buscando uma Salvação, qualquer que seja; fazendo guerras de idéias e tornando-se prisioneiras de suas próprias idéias, presas à moral, à razão, a Deus, à Ciência. Deixam de sentir a Vida, o instante e o mistério para sofrerem diante de medidas de uma moral do escravo.

A humanidade forjou um mundo para si e acredita ser livre sendo prisioneira de seus próprios mausoléus decorados pomposamente com o que chamam de sublime: não estará o seu prazer sexual sendo velado pelos senhores do recato? E o amor ideal do “felizes para sempre”, não será ele o seu rabecão?

Quando Nietzsche disse que nasceu postumamente não foi por soberba, acho que o compreendo, foi por solidão, foi por não encontrar no aqui e agora alguém que seja capaz de conviver com as incertezas, com a dor, com o sofrimento e fazer desses elementos terreno fértil para amar incondicionalmente a Vida; capaz de fazer jorrar a alegria em abraços com a tristeza, entrelaçando os instantes com as nuances do prazer e do desprazer, sem procurar solução final nem termo final, mas entregues ao acaso e ao encantamento do inaudito. – É por não encontrar seres que estão para além do bem e do mal que, às vezes, sinto-me distante de companhias e diálogos. É tu, capaz de se jogar ao abismo da incerteza, abraçar o instante que não comporta nem futuro nem passado e ver a vida alimentando da morte que se alimenta de vida? Vamos então dançar as variadas melodias da casualidade.

* Imagem: O viajante sobre o mar de névoa, Caspar David Friedrich, 1818.
Edgar Morin, “sociólogo” francês.
Jean Paul Sartre, filósofo existencialista francês do século XX.
Friedrich Nietzsche, filósofo alemão do século XIX.

Comentário(s): 5

  1. Aloisio Chaves

    Formidavel isso é de uma sensibilidade ímpar, um discurso aperfeiçoado da fenomenologia do espirito, no meu observar subjetivo. Muito Prazeroso!

    Responder
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