Eterno Retorno - um olhar existencial sobre o mundo e o homem - Part 2

O que são vida e morte

29 ago 2010 Em: Pensamentos

Falamos tanto a palavra vida e pouco falamos a palavra morte. Todavia, a morte é falada mais que a vida através da banalização da vida. A morte que pouco se fala é aquela que nos impele à vida na medida em que escreve no mundo e nas coisas um olhe-me pela última vez!

Mas o que são morte e vida?

O efeito de todas as nossas confusões e incompreensões que temos diante de tudo e de nada… O efeito de todos os nossos medos diante de um futuro que organizamos e planejamos nossos “lares” diante de um abismo sem fundo e sem luz… Talvez sejam estes os módulos que operam as nossas maneiras de usar vida e morte respectivamente.

Diante do não-sabemos-de-nada temos as palavras vida e morte para tagarelar, e nela colocamos e nunca deixamos de colocar incontáveis penduricalhos. Do cientista ao analfabeto vida e morte são palavras universais carregadas de conteúdos singulares e coletivos que servem somente aos nossos antropomorfismos mas de nada têm à cumplicidade com o “mundo” e as “coisas”.

Vida e morte não são fenômenos que estão em outro lugar senão no lugar em que colocamos com a nossa consciência; vida e morte estão antes na consciência do homem.

Contudo, é bem óbvio que qualquer animal que não tenha consciência busca por continuar “vivendo”, do contrário não faria nada para escapar da dor que dilacera e destrói. Ora, há algo em tudo o que “vive” que impele para uma perseverança no “viver”, evitar a destruição. Essa força que impele à sobrevivência encontra suas ressonâncias na consciência através dos significados de vida e morte, talvez seja por isso que, ainda que compreendemos que vida e morte sejam conceitos do homem para o homem na sua relação com o mundo e as coisas, jamais conseguimos boicotar a consciência que estremece diante do ter que morrer.

Vida e morte podem ser tudo o que criamos, vida e morte não existem como coisas em si, vida e morte são nomes que damos para as coisas que nos são mais incompreensíveis.

Os homens costumam perceber a solidão das estrelas porque as veem no mais absoluto silêncio. As estrelas povoam o universo e tudo o que podem fazer é brilharem umas as outras, nascem, vivem e morrem na mais completa solidão. E nós somos tais como as estrelas, não temos o brilho mas temos a tagarelice – a linguagem com palavras, gestos, olhares, silêncios -, luz de vela em meio ao vazio-povoado onde nascemos, vivemos e morremos. Assim como as estrelas que não tocam umas às outras, nós também não conseguimos nos tocar, estamos na mais completa solidão radical povoando um universo indiferente e frio, seja para homens, estrelas, planetas ou baratas.

Devido o efeito sonoro das nossas tagarelices não percebemos os abismos incomunicáveis que nos separam porque o nosso silêncio é sempre barulhento e o das estrelas é um silêncio de pedra, alguns seres têm brilho para dizer que estão juntos e outros têm barulho.

Apesar de tudo estamos juntos na solidão radical dos seres, juntos porque juntos mesmo ou juntos em separação. Apesar de tudo, homens, estrelas, planetas e baratas alteram de alguma maneira o universo, pois ainda que ele permaneça na sua mais absoluta frieza e indiferença, os corpos se processam nesse infindável tonel das Danaides sem protagonistas. Oh! mortais, apesar de tudo… morreremos um dia ou apenas seremos o que já somos: universo cuja carne somos carne.

Sob o sol que escurece e ilumina

25 ago 2010 Em: Literatura

Só mais um dia como todos os outros, um dia desses quaisquer onde muitos morrem e muitos nascem conforme os ponteiros dos relógios vão sangrando o íntimo de nossas vidas sob a aparência dos dentes que se mostram como sorriso por trás de um balcão de loja, das palavras industrializadas das pessoas funcionando em sociedade, dos papéis e das funções desempenhadas com suas convenções… da vida sem vida alguma, mas mecânica, disciplinada, operacionalizada, classificada e conhecida: movimentada dentro das prisões com liberdade.

Nada de extraordinário no imperativo do absurdo que escorre na vida comum e normal morrida nas folhas de um calendário que é só calendário mesmo ou no relógio que é só relógio mesmo. Um vida densa de saber que vai moldando o conhecido e o não-conhecido, mas nunca o incognoscível. Semáforos abrindo e fechando com seus símbolos vermelho, amarelo e verde; mulher carregando bebê no carrinho; ruas de asfalto com faixas pintadas e desbotadas; carros de várias cores, formas e barulhos sem pessoas mas com motoristas. Nada de absurdo e insólito há nas cidades que têm carros, pessoas e construções.

Raridade será a radical estranheza de estar existindo agarrar o homem que vive nas fortalezas do mundo identificado, também, num dia desses quaisquer.  Há somente o mundo lacrado no que é e no que não é. Pessoas sabem o que elas são do que não são. Sabem demais porque estão demasiadamente presas naquilo que a consciência vai criando sem saber criação.

Dias sem vida e sem existência na penitência cotidiana de pessoas que funcionam num emaranhado de relações contratuais assinadas pela moeda financeira através das mãos humanas. No cotidiano absurdo o comum e o normal são a paisagem por onde passam as pessoas que não vivem nem morrem, mas produzem e são expiradas conforme vão perdendo seus prazos de validade.

Nessa imensa bola que chamamos de planeta Terra, girando no vazio de um universo indiferente, há pessoas que se interagem sem conhecer umas as outras. Pessoas, só pessoas iguais gritando suas diferenças. São diferentes na igualdade de poder escolher entre as diferenças, entre as máscaras de bugalha adversas ao heteróclito. Talvez não precisem de compreensão porque nunca há de faltar classificações já prontas para um homem ou uma mulher. E assim se vão e vêm gerações, vão e vêm gerações e nada mais: assentamento de cadáveres em cima de cadáveres. Absurdo incessante de matéria transformada em absurdos que têm sorrisos, lágrimas ou somente a dureza das pedras.

A carne e os ossos irrigados com sangue e coloridos com múltiplas tonalidades de afetos vão vivendo enquanto vão morrendo em vidas diárias capturadas na operacionalização de pessoas que produzem sociedade e coisas que se trocam. Vísceras que desejam e sentem, mas domesticadas o bastante para não arderem em estranheza no mundo extirpado de seus inefáveis.

O sol do meio-dia grita o absurdo enquanto tédio e vazio escorrem no irremediável cotidiano. Nem todos ouvem os gritos de silêncio do fogo que chega no invisível do calor insuportável tornando a cidade só uma cidade, mas também é nesse mesmo horror que basta um aguardar-de-semáforo-abrir para ser expulso do mundo conhecido e viver o paraíso através de um sorriso feminino que diviniza as ruas e o universo inteiro com o júbilo de uma indizível alegria. Sorriso que estremece o corpo em delícias. Sorriso que verve o terrível do mundo e transborda o ordinário em extraordinário, e então corpo que deseja aquele corpo se vê ilhado nas consciências que criaram tantas barreiras que corpo que deseja outro corpo não pode ser franco com o corpo desejado.

Mas apesar dos humanos… apesar dos humanos há o sorriso que estremece, o corpo que enlouquece, os detalhes que desmancham e os vulcões do coração que explodem de prazer inundando a carne com ternura.

É sob o mesmo sol que ilumina o mundo horroroso que os afetos podem se alterar e o mesmo mundo se iluminar com a beleza que inebria.

Criança não tem mais medo de Deus

24 ago 2010 Em: Literatura

Foi uma criança que buscava agradar a Deus, não sabia como mas sabia que Ele conseguia ler até mesmo os pensamentos, e isso o incomodava. Alguém que tudo pode podia ler os segredos de uma criança e isso era grave, de gravidade aumentada quando descobrira que não podia controlar os pensamentos.

Medo que tinha, pensava em não pensar coisas como ver a coleguinha de classe pelada, pois toda vez que estavam juntos sentia um friozinho na barriga sem saber por que, e o gostoso era mais gostoso sabendo sem saber que debaixo da roupa havia segredos. Pensava em não pensar e já pensava, e a julgar por tudo que ouvia Dele se sentia com medo, muito medo.

Deus castiga quem faz isso ou aquilo, e era tanto isso ou aquilo que então passou a procurar só por aquilo que podia fazer. Mas diante do que ouvia dos adultos, daquilo que se podia fazer, que no fundo eram coisas que os adultos queriam, tudo se embaralhava em contradições, coisas sem sentidos e confusões. Ficava mais perturbado. O medo Dele aumentava.

Uma criança sentindo medo daquele que devia protegê-la. A inocência bastaria para mostrar que a teologia é um terreno habitado por serpentes, bastaria… Fora uma criança que tinha medo de Deus, medo de ouvir o poder descomunal que tinha esse Pai que nunca falava nem respondia nada. Pai que não respeitava nem mesmo os segredos de criança, como aquele da curiosidade de querer ver o que tinha debaixo da saia plissada das meninas.

Ora, se não podia controlar os pensamentos e nem os sentimentos, como poderia não desagradar a Deus? Pensou então que era anormal, que tudo poderia ser um trabalho do Diabo. Não tinha medo do Diabo, sabia que ele era do mal porque assim o diziam, mas temia a Deus e não o Diabo. Deus castiga. E o Diabo? Imaginava que o Diabo, embora fosse mal, era alguém com quem se podia negociar, falar, conversar que ele poderia entender e isso lhe tranquilizava.

Não tinha nada contra o Diabo, senão um conhecimento que vinha dos adultos de que este não era boa coisa, mas somente isso. Soube que o Diabo fora um anjo que Deus castigou e então sentiu pena e compaixão daquele que fora expulso de sua casa, mas também muito medo do Pai mais que seu pai.

Entre tantas as confusões, fantasias e incertezas que vivera sobre as coisas de Deus e do Diabo nunca se esqueceu do medo diante e da fúria Dele. Sentia medo de Deus porque o via como alguém que castigava quem o desagradasse, e sabia que dificilmente iria conseguir ficar sem desagradar alguém, podia pedir perdão, mas também não percebia Deus como alguém que perdoava: Ele castiga. De outro lado o sentimento segredado de que o Diabo não era tão mal assim, não via nele a fúria do castigo.

Cresceu e tudo isso foi perdendo o sentido. Deus e o Diabo? Quanta bobagem. Bobagem que não se arrepende, pois se sentiu com compreensão, a compreensão da não-compreensão, e compreendeu que Deus e o Diabo foram necessários para que pudesse compreender sem compreender. Sentira-se um herói ao saber estar só no mundo sem Deus e sem o Diabo. O mundo-aí se abriu como uma grande saga a ser trilhada.

Pena que hoje as crianças não tem mais medo de Deus. Não há fantasias quando o perigo pode estar aí em qualquer lugar, visível e sem segredos tal como o homem. Não faz mais sentido temer a Deus nem o Diabo em tempos onde o homem sabe que o maior perigo é o homem mesmo. Perdeu-se muito das fantasias e segredos que na cabeça de criança podem arquitetar novos adultos.

Pg. 2 de 2531234102030...Última
Eterno Retorno é um blog que objetiva instigar o leitor a lançar sobre o mundo um olhar reflexivo, crítico e filosófico.

Arquivos


Blog no seu email:

Assinantes do blog