Eterno Retorno - um olhar existencial sobre o mundo e o homem - Part 3

Nos dias de hoje a solidão raramente vai ter em primeiro plano uma concepção de amadurecimento e crescimento pessoal, inerente a toda transformação significativa de si mesmo e como elemento indispensável à criação.

Solidão nos tempos atuais é o mal a ser evitado, não muito pelo estado de solidão em si, mas porque significa estar na contramão da estrada universal por onde caminha a manada em busca da felicidade. Ser solitário hoje em dia é muito mais uma questão de não conseguir ser feliz, o desvio mais grave – de conduta, identidade e personalidade – considerado pela sociedade.

Não é gratuita a negação da solidão, quando algo é negado com intensidade é porque tem um peso diferenciado. Relacionar-se pensando mais em relação ao que os outros pensam de mim, como aparência de dizer que não se está só, tem sido mais importante do que uma escolha que se faz pensando em encontrar alguém para compartilhar a vida, então dá-se as mãos em posição de enamoramento, a parte visível aos outros e o mais importante: passaporte para transitar nas várias áreas consumistas da sociedade sem se sentir excluído do rebanho que busca a felicidade.

Suportar a solidão e não negá-la é a maior prova de maturidade emocional e pessoal. Contudo, o que mais vemos são adultos com emocionais de crianças birrentas, que partem desesperados às boates, seguindo e se comportando conforme a manada – mas com o sentimento de que são únicos e originais -, em busca de suportarem o sentimento de solidão. Não resolvem, pois tão logo são revisitados pela corrosão de uma vida vazia, mas pelo menos se ocupam com questões que os mantém afastados de si mesmos além de seguirem em frente com o que é fundamental no nosso tempo: não perder a esperança pela busca da felicidade.

A solidão é condição básica da existência. Um relacionamento maduro implica que ambas as partes possam se sentir, ainda que juntos, solitários. Quando maduros o suficientes para lidar com a solidão, os enamorados gozam de um amor genuíno que é o amor do compartilhar a solidão a dois.

Talvez, a primeira condição para um relacionamento mais criativo do que destrutivo, é que ambos saibam conviver com esse sentimento de sentir só e desamparado na vida – o que não significa viver nessa condição mas legitimá-la à existência. É conhecendo e lidando com a própria solidão que aprendemos a nos tocar uns aos outros com mais compreensão; é ela, e não muito as palavras, que nos fazem conseguir chegarmos mais próximos de fazer as almas se tocarem.

O Inferno de luxo

21 ago 2010 Em: Literatura

Sou um ateu que precisa de Deus e do Diabo. Não consigo imaginar como tudo seria se não tivéssemos a existência – não importa se enquanto entidade própria para o crente ou mera criação do homem – do todo poderoso, Deus, e do menos poderoso que Deus, Diabo, como assim sugere a clássica empresa cristã de degradação da vida.

Não irei questionar Deus nem o Diabo como tem feito toda tradição. Parto do pensamento de que ambos são absolutamente necessários enquanto desnecessários. Deus e o Diabo juntos! Ambos têm espaço no mundo e, principalmente, nas nossas consciências. Que seria do homem sem a ideia de deuses e demônios? As pedras não têm deuses nem demônios, mas tudo o que anda sobre duas patas e pensa possui seus deuses e demônios, ainda que seja para negar ou desacreditar. Em suma: se não posso dizer quando surgiu o primeiro deus ou demônio, sei que o último deles só morrerá quando o último dos homens tombar sobre a terra. Em outras palavras a morte do homem é a morte dos deuses e demônios.

Que assim seja! Não me importo com esse chato monarca do universo, ele degrada e envenena a vida, mas pode ser útil às fantasias de um ex-crente que se excita muito mais quando os prazeres da carne são mantidos sob uma áurea divina de sujeira e pecado. Sou um homem doente, desses que goza muito mais se tiver Jesus Cristo com seu olhar derramando compaixão e dor sobre a cama. Por quê? Essas coisas não se explicam, acontecem simplesmente na vida de um homem conforme circunstâncias que não podemos diagnosticar, conforme os sacerdotes diagnosticaram o mundo em Bem e Mal fazendo de coisas gostosas como essa uma blasfêmia.

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As flores raras no deserto

18 ago 2010 Em: Literatura

A preguiça me invade as tardes. A consciência que nunca está satisfeita grita: estás perdendo vida, estás deixando de viver, isso acaba um dia e não vai ser possível fazer mais nada.

Não se pode dar muita atenção a essa tola birrenta que vive insatisfeita Será porque, coitada, irá desaparecer um dia enquanto a matéria vai seguir por aí nos encontros dos corpos no planeta, no universo? Ah! Consciência, que pena de ti! Tão passageira nesse continuum irremediável do absurdo que se desespera sabendo desaparecer um dia enquanto a matéria que animaste por uns tempos vai prosseguir, prosseguir, prosseguir… prosseguir ao longo dessas gerações de homens e mulheres que se julgam importantes e fazem seus rebuliçozinhos por uns tempos, mas o que impera é sempre esse pasto tedioso onde nada acontece de extraordinário senão o absurdo da matéria vir a ser em suas formas, das mais aparentemente (?) tranquilas como as pedras e as rochas e as estrelas e… às mais demoníacas formas do absurdo, os seres vivos, que em todas as suas diferenças se encontram como personagens de um show de horror onde a dor é tudo o que sobra de animado gritando sobre as crostas terrestres compostas também pelos cadáveres e o sangue, seiva universal, de outrora, depois que os sorrisos, os pensamentos dos tolos e dos sábios, o olhar da moça e do moço desapareceram como desaparecem os castelos de princesas e príncipes no silêncio de chumbo das ondas do amor.

Ai de ti consciência doida por sentidos. Desamparada diante da frieza do universo indiferente, condenada a buscar por sentidos no sem sentido absoluto, aprendas a rir enquanto choras de desespero. Crie mentiras para viver, embriaga-te com os sonhos e as fantasias, com a música e a poesia, com a arte que ri da dor para suportar a crueldade da vida e esqueça da mentira burocrática que se vive em rebanho sob um céu de esperanças, isso é tudo o que podes fazer: alucina-te para conseguir gozar das miragens, sentir as raras flores com cheiros, cores e macios durante a travessia do deserto onde a dor dilacera a multidão dos seres sob um céu de solidão radical.

Sobre o medo do amor

17 ago 2010 Em: Pensamentos

No amor pelo outro o medo é inerente. Os amantes sabem bem disso. Nosso embaraço para falar de amor deve boa parte ao medo que se sente. Quando não há fortes afetos envolvidos é muito mais fácil abordar o outro para qualquer coisa: numa boate todo homem é mais homem, mas diante daquela mulher em particular o corpo e a consciência se comportam também de maneira bem particular, estremecem, por assim dizer.

Muitos sentimentos envolvidos nessas situações são paradoxais, e nem todos sabem lidar com os paradoxos. Para muitas pessoas sentir alegria e tristeza, medo e coragem ao mesmo tempo são impossibilidades, e aí pagam um alto preço por ter que lutar com o que é mais próprio da vida achando que somos ou isso ou aquilo. Diante daquilo que não sabemos como lidar a tendência é negar, e não é difícil perceber pessoas em rebeldia com as tonalidades do amor, não se permitem viverem tais afetos porque não sabem como lidar, negando-os ainda que o corpo inteiro esteja sendo atravessado por sensações que, se não podem ser definidas, sabe-se que estão presentes e que são sensações diferentes. O que não pode ser definido e conhecido não significa que não possa ser vivido e sentido.

Também há aqueles que se machucaram com amor, e então generalizam uma concepção negativa sobre outras vivências envolvendo o amor, outra tendência funesta que nos é muito presente: tendemos a classificar a vida com a morte do igual que nunca está presente na vida; há o semelhante mas jamais o igual, no limite, nem mesmo o si-mesmo é igual a si-mesmo. Se machucar com os afetos é inevitável, não se pode amar sem se machucar, pois o amar envolve também o cuidar das feridas um do outro. As questões envolvendo os afetos de amor pelo outro podem ser tão complicadas, complexas, incertas, contraditórias e dúbias que o ódio pode ser uma expressão de amor, uma maneira que o outro encontra de dizer “eu te amo” pois de outra maneira ele não consegue, o que não é difícil de perceber, principalmente, nas relações entre pais e filhos.

Em suma, temos medo do amor, alguns conseguem lidar com isso com menos dificuldade outros não, mas o medo estará presente. Certamente é um “recurso” culturamente aprendido para não se machucar tanto. Recurso. Porque somos tão complicados em relação ao amor que se costuma pensar que não se sentir tão tocado pelo outro é um luxo. O outro pode nos machucar e nos ferir, e coloquemos o eu nessa relação também, o outro também pode ser machucado por nós e isso não é nem ruim nem bom, é o irremediável das nossas relações. Quem se fecha diante do outro com medo de se ferir também se fecha para a possibilidade de conhecer o outro que pode nos oferecer o aconchego, a potencialização da alegria e também nos entristecer.

Talvez o amor seja uma questão muito simples, extremamente simples, mas nós a tornamos uma questão complexa demais, um emaranhado de sentimentos em guerra. Embaraçados demais estamos afetivamente uns com os outros. Desembaraçarmos? Não há pontas de inícios nem fins para sabermos como. Mas talvez esteja na hora de tentarmos outras maneiras. Se o medo é um “recurso” que temos para não se machucar tanto é um recurso que não tem dado certo, nos sentimos mais desembaraçados para falar ao outro sobre como o percebemos nos incomodando do que falar sobre como o percebemos nos alegrando. Que sintamos o medo diante do outro que amamos, ainda que o corpo estremeça, que assim seja, siga em frente, o medo é algo que se vence enfrentando-o, e não refletindo. Talvez assim possamos conseguir vencer o medo e o amor passe a respirar com mais ímpeto e liberdade, embora estejamos mais próximos de nos tornamos meras mercadorias. Se o coração sangrar muito pare e fique com o coração sangrando olhando como se olha para o mar sentado na areia.

Evitar a dor é também evitar viver.

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Eterno Retorno é um blog que objetiva instigar o leitor a lançar sobre o mundo um olhar reflexivo, crítico e filosófico.

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