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Impossível não saber que em Santa Catarina, recentemente, uma enchente causou grandes estragos materiais e humanos (a mídia usa o termo espetacular “tragédia” para denominar tal situação).
Tempos atrás, livremente vagando pelos pensamentos, eu disse que as pessoas criam risos pelas dores dos outros (Das dores e da felicidade do mundo). De modo bem mais gritante, a mídia torna as coisas mais evidentes, quase uma experimentação empírica para contribuir às dores do mundo: vende-se desgraça!
Notícias de desgraça são lucrativas, entretêm o povo e faz do horror um filme de ficção através da realidade, onde as famílias, horrorizadas, na segurança e conforto do lar, são anestesiadas por todos os lados. Eu poderia muito bem ter montado o cenário de acordo com as exigências do público internauta e também lucrar, vestir-me das palavras do “Ego Popular” e aproveitar o susto das massas, mas resolvi guardar silêncio e agora resolvo trazer a questão em tona na tentativa de trazer incômodos; tentar revirar os destroços do local da catástrofe e mostrar um terror ainda pior - sempre há possibilidades de um terror mais aterrorizante!
No show, como de costume, se destacam os mesmos discursos naturalizantes respaldados pela lógica capitalista. Para os religiosos radicais a enchente pode ser um castigo divino, mas esse não é o discurso mais aceito. O mais “democrático” é o que se dá na mídia, nas organizações governamentais através dos líderes políticos e reproduzido e aceito por uma ampla maioria das pessoas: nessa concepção o ocorrido é tomado como um acidente natural. Embalando para venda, essa concepção desfila em notícias como “Saiba tudo sobre a tragédia em Santa Catarina”; “Cobertura total da tragédia…”; “Celebridade fica chocada com o que viu em Santa Catarina”; “Saiba como doar para as vítimas de Santa Catarina”… etc.
Alguém viu no show espetacular das notícias alguma outra causa ser apontada além de fatos naturalizantes? “Ora, foi um fato natural da qual ninguém é culpado, o problema foi a chuva e os ventos que não pararam!” - dizem. Em contrapartida o discurso que preenche as praças públicas é o mesmo, afinal, há muito tempo que as pessoas “pensam” através da reprodução do que lhes é entregue já “pensado” - é por isso que a forma na qual se organiza a economia não é contestada mas justificada, pois a lógica do pensamento é a própria lógica do capitalismo que há muito tempo reifica tudo, inclusive o pensar que hoje não é senão um produto reificado.
Para os que de alguma forma ainda conseguem parir pensamento fora daqueles moldes fabricados, talvez não tenham se chocado com os danos em Santa Catarina, mas sim com as pessoas e com aquele da qual esperamos uma atitude mais bem elaborada, e não o reflexo do próprio conformismo, como verificado no presidente Lula que sobrevoou o local da desgraça e diz ter ficado “chocado”! Mas deixemos o sentimento de comiseração para o nosso presidente, única coisa que ele tem capacidade de fazer no momento, e uma das suas únicas “ações” durante sua presidência. Ou melhor dizendo, tenta-se esquecer a comiseração, mas tampouco este sentimento é característica apenas do nosso presidente: é a unanimidade que desfila como única forma das pessoas conversarem umas com as outras sobre os “espetáculos” da sociedade.
Por outro lado, a desgraça é uma fonte barata e gera grandes retornos lucrativos quando se trata de publicidade: uma mobilização intensa é anunciada por todos os canais, grandes empresas, clubes de futebol, celebridades, políticos, organizações privadas e “voluntárias”, todos juntos unidos pela causa! E você, cidadão, vai ficar de fora dessa? Que oportunidade de você demonstrar aquelas ditas qualidades que chamam de “humanas” mas que ninguém sabe o que é!
A mensagem é que eu, você, sua família, seus semelhantes, todos nós, unidos, patrocinemos a causa! Pegue o seu sapato velho que você não usa mais, aquela roupa que não te agrada, cobertores, alimentos, dinheiro ou qualquer outro recurso de troca e doe! Doe! Colabore, ajude o seu próximo!
Não que eu esteja dizendo para você não doar ou sentir pena pelas vítimas. A questão não convém de ser medida no Bem ou no Mal, tampouco o sentimento de comiseração irá criar condições para superar as desgraças, senão aumentar a própria vaidade daquele que se diz caridoso e bom.
Convém dizer que o Natal da indústria cultural será tão farto quanto mais miserável for o daqueles que perderam tudo menos o coração que ainda bate e provê as condições para que ainda se possa respirar, olhar, sentir, ouvir e se verem mortos em vidas.
Há algo que atiça o espírito, inquieta-o e por vezes o paralisa em sublime contemplação. Contemplação do que? Esse mundo de contemplação não é a calmaria dos verdes prados, tampouco a fúria dos mares, nele impera as sensações do corpo e do espírito em completo esquecimento da civilização; nele o indivíduo não se reconhece enquanto sujeito, está imerso no universo. - Esse mundo é inatingível por palavras e conceitos, consegue sentí-lo?

* Imagem: O monge e o mar, DAVID-FRIEDRICH, Caspar.
Abaixo um vídeo intitulado “A história das coisas” em sua versão legendada. A autora apresenta, de modo bem didático e em linguagem comum, os colapsos ocultos que o progresso, a técnica e o racionalismo científico, tão cultuados no modo como a sociedade se configura, essencialmente capitalista, apresentam ao planeta - que em última instância é contra nós mesmos. Certamente que a autora está embasada pelo materialismo histórico-dialético, base marxista, e pautada por uma lógica dialética em detrimento da ingênua linearidade-causal, não deixou transparecer, acredito eu, a “presença” marxista: uma estratégia astuta diante de uma sociedade que apresenta súditos com pensamentos bem dominados e ordenados de acordo com as oferendas que foram acostumados ao longo da vida a acreditar - e principalmente: não duvidar!
Gostaria de ressaltar que a autora é americana - divã dos principais demônios sociais -, penso ser esse um motivo, ainda, para “acreditar” sim, que um dia um grande colapso irá transformar as bases apocalípticas da civilização, nem que para isso custe a extinção da vida: o planeta certamente que fica, quem não fica são os homens, e infelizmente, as outras formas de vida - mas isso será tema para uma outra postagem ;)
A orca, mais conhecida como “baleia assassina”, costuma pegar filhotes de leões marinho que se arriscam a nadar pelas praias; uma tentativa arriscada pois em seu ímpeto, a orca pode acabar se encalhando uma vez que violentamente invade partes mais rasas do mar, nesses casos ela se debate freneticamente e freqüentemente acaba se dando bem - é um animal inteligente.
Mas quem não se dá bem é o pobre filhote de leão marinho que, se capturado, será levado em alto mar onde um bando de orcas o aguarda para ficarem arremessando o indefeso animal que literalmente “voa” em grandes alturas - a orca faz isso através de golpes com sua “cauda”, e não importa o quanto ele emita sons que expressam sua dor, a orca só pára quando o filhote morre.
Não se sabe ainda por que a orca faz isso com sua presa. Mas convenhamos, é um animal de grandes estratégias de caça. Sempre em bandos, também ataca filhotes de baleia, tentando, através de golpes com a cauda, tirá-lo da proteção da mãe; quando conseguem o matam facilmente e se saciam com uma parte da mandíbula inferior e a língua do filhote, desprezando o restante. Por esses e outros hábitos é que a orca é chamada de baleia assassina.
Mas a baleia assassina não amedronta os pais leão marinho, que tão logo irão dar vida a um novo filhote, lançado ao mundo de olhos arregalados e sem chorar, irá saborear do leite e do calor materno antes de se aventurar com toda sua curiosidade por tudo aquilo que se lhe apresenta como inaudito. Tão logo irá querer capturar pequenos peixes e para isso irá com outros filhotes brincar na praia, etapa de aprendizado de natação antes de se lançar nas fúrias do mar. Ele quer viver! Mas poderá se surpreender com algo tão enorme que costuma aparecer de surpresa: a orca! Nesse caso não irá julgar a vida, simplesmente irá em sua forma de vida tentar se salvar. Os humanos à observar, poderão dizer que ele foge de medo. Mas o filhote de leão marinho, ou o que se passa no interior daquela forma de vida visível, suas células, seus órgãos, seu sistema nervoso e outros sistemas, certamente que não usam nomes de sentimentos carregados de valores para designar aquelas circunstâncias, mas não medirão esforços e lutarão bravamente para tentar sobreviver. O filhote de leão marinho quer viver!
A natureza está repleta de episódios de esvaziar e de encher emocionalmente muitos homens. Já esse animal que ao longo dos tempos passou a andar sobre duas patas e desenvolveu uma massa encefálica robusta, chamado homem, formou a civilização para se proteger dos “horrores” e perigos da natureza: a civilização é uma forma de defesa do medo do homem que fugiu do desconhecido e inventou um mundo para si, ordenado, classificado, identificado e tecido por um emaranhado de redes de idéias, conceitos e teorias: o homem se salva pela linguagem.
Schopenhauer, provavelmente observou muito bem a difícil competição pela sobrevivência na natureza. O homem, seu animal de observação preferido, foi eleito como o mais cruel dos animais. Constatou que o mundo é sofrimento, viver é sofrer e experienciar a dor; via expresso nas relações entre os homens a face do horror, e os poucos momentos de felicidade e prazer são timidamente sufocados pela profusão em dor. Em toda expressão de vida havia luta, necessidade de desferir golpes, ser sangrado, rasgado, violentado e acabar sendo devorado, e aqueles que se saem sobreviventes não se sabe até quanto tempo.