Pensamentos, Existencialismo, Trágico, Absurdo, Música, etc.
Flagrei minha consciência perdidamente se fantasiando e sonhando com a pequena. Em plena luz do dia! Ai de mim e pobre de ti consciência que pensas nela, tu achas poder eliminar a distância entre mim e ela agindo assim? Por que fazes isso? Sou eu ou és tu que se endoideceu com tão absurda beleza? Se és tu, o que viste nela? Sei, sei, sei de tudo, não me enganas mais, teu histórico não deixa dúvidas de teus vícios por detalhe aqui outro ali e pronto, perdidamente enlouquecida por um fetiche. Aquilo, tua tola, não dará a completude, a Salvação, a plenitude, o Tudo que pensas poder ter para ser.
QUERO! - Pronto! Aí a carne gritando endoidecida também, olha o que tu fazes, vicia, vicia a carne e entristece o sangue, querem e desconhecem que não é assim só de querer e conseguir, pudera que fosse assim e então vós poderíeis explodir de prazer até morrerdes com aquilo. Sim! se fosse assim… até eu iria desesperadamente junto.
Mas o que quero é pura ilusão, não existe nada disso! -Aham! Agora tentas apaziguar a situação ponderando com esses juízos do homem louco da civilização? Desse jeito tu só fazes o corpo inteiro estremecer em risos. Tolinha! Tola consciência! Achas que o coração te dá alguma razão? Ai de mim, ai de ti e ai de nossa carne, olha o que fizeste! Deixaste te enfeitiçar pelo feitiço e agora, depois de tantas tentativas por aquilo sem o êxito para o paraíso, uma guerra entre nós precisa acontecer para que não morramos com esse QUERO estrangulador.
Minha consciência enlouquecida fica o tempo inteiro tentando criar tua presença do nada que ela é porque não é. Em vãs tentativas ela se esforça para se lembrar de todos os teus traços, da curvatura dos teus pequenos e delicados lábios com resquícios de saliva bem no cantinho, dos pontinhos que formam em teu rosto quando teus sorrisos iluminam o mundo, e os teus olhos vivos como dois sóis de um novo céu, de um novo mundo que os vejo vendo a ti. Tola consciência fora escravizada pela tua beleza e agora vive sob a tirania de alegrias em sonhos e fantasias enquanto o coração que não sonha bate sem parar na frieza do mundo sem ti. Mas não sou eu, não sou eu! É minha consciência desassossegada e perturbada que faz da tua matéria a mais bela e sedutora obra de arte. Tudo bem, confesso que estremeço inteiro só de imaginar minha língua passando pela tua carne aveludada como as pétalas das rosas, mas é a consciência também que deixa esse gosto estrangulado no vácuo, é a consciência e não sou eu, ou sou eu? ou é ela? ou é Ela mesmo?
Audio clip: Adobe Flash Player (version 9 or above) is required to play this audio clip. Download the latest version here. You also need to have JavaScript enabled in your browser.
Ostro picta. RV 642 – III
Compositor: Antonio Vivaldi
Maestro: Robert King (Sacred Music, vol. 10)
Samaria virá a ser deserta, porque se rebelou contra o seu Deus; cairão à espada, seus filhos serão despedaçados, e as suas grávidas serão fendidas pelo meio. [Oséias, 13:16]
O garoto não sabia, e por não saber era feliz. Aos seus 13 anos, na idade em que ficara assustado com os pelos púberes que começaram a formar uma estranha vegetação negra em volta daquilo onde tocava e sentia um friozinho gostoso soprar por todo corpo com uma mistura de culpa por que pensava que Deus estava vendo até mesmo seus pensamentos que não sabia dizer mas tinha a filha do pastor imaginada nuazinha fazendo coisas tão gostosas, mas tão gostosas… e Deus vendo tudo isso deixava o garoto constrangido, confuso e culpado.
Aos 13 anos… ficara durante toda a semana abismado com o título de um livro que vira na banca de jornal, O anticristo de Nietzsche, mas o autor naquele momento era um anônimo qualquer. – Anticristo? Isso existe mesmo? – Só de pronunciar a palavra já sentia medo de ir para o inferno.
No domingo de manhã pegou dinheiro escondido de sua mãe, correu para a banca e saiu levando O anticristo para casa. Enquanto os meninos de sua idade escondiam revistas de mulher pelada o garoto escondia seu primeiro livro comprado, e um “livro de anticristo”, uma blasfêmia maior que a nudez da mulher. Sentiu-se estranho pelo livro, pelo que poderia conter o livro e por ter comprado um livro, nunca antes pensara que iria comprar um livro, para que serviria um livro? Livros? Bobagem, só conhecia a bíblia e os gibis. Nunca antes tinha precisado de um livro, e também agora comprou não porque precisava, mas por uma curiosidade bem curiosa.
Lera o livro trancado no banheiro ou no quarto, Deus vira tudo.
Não sabe o que entendera, mas aos domingos também deixou de ir recitar os versinhos da bíblia como de costume fazia nos cultos reservados apenas para as jovens almas que desde a mais tenra idade eram adestradas pelo pastor. Aliás, até o narrador precisa dizer o que realmente importa: a filha do pastor! uma delícia de pecado!
Foi num domingo também que ejaculou com abundância e se sentira tremendamente assustado com aquilo. E foi pensando na filha do pastor, a mais doce criatura que desejava com todo o pecado, por ela iria para o inferno feliz. Feliz para o inferno agora, pois antes morria de medo dessas coisas, a engenhosidade cristã sabe muito bem como implantar a culpa nos corpos. E até a visão do paraíso se modificara: o paraíso era a filha do pastor, não poderia ser outra coisa.
E foi num domingo também que descobrira as delícias de todos os proibidos que tinha o sexo oposto – quase todos. Não fora com a filha do pastor. Ahh! A filha do pastor! Até hoje sente uma saudadezinha gostosa quando se lembra daquele prazer inocente que sentira diante daquela pequena donzela que tinha a carne suja com a pureza do pecado.
Agora está aí. Homem adulto em mais um domingo desses qualquer que escorre lentamente o tédio e o vazio mais abundante que os outros dias, mas só uma impressão que torna o cotidiano suportável, no fundo o tempo não é nada e tudo é um contínuo indiferente às nossas vidas. Na estante percebemos os livros de Nietzsche ordenados separadamente dos demais, denunciando que o garoto nunca mais deixara de se perturbar. O que um homem vem a ser? Pura gratuidade, puro acaso, pura relação de forças entre as circunstâncias e por isso mesmo pura liberdade de ser o que não é.
Em mais um domingo desses qualquer… o homem deitado em sua cama pensando tudo sem pensar nada sente o tédio evaporando dos ponteiros do relógio e sufocando o ar, e ele fica à espera de que aconteça qualquer coisa, qualquer coisa, qualquer coisa…