Suicidar-se de alegria

Um corpo que se mexe, engraçado. Um corpo que realiza, engraçado. Um corpo que tem energia, engraçado. Um corpo animado que a qualquer momento pode se transformar em coisa inerte, desesperador. Em cada corpo com vida um algo de querer. Em cada vida uma sentença.

Quando criança não pensava que morrer acontecesse com ele, logo ele, não, morrer é para os outros, os velhos e os doentes. Depois descobriu que morrer também era para si, morrer era para si mas ainda não era uma morte. Morrer era algo muito muito muito distante, aconteceria depois que estivesse enjoado e já tivesse feito tudo que tinha que fazer, soltar pipas, jogar pião, beijar, vestir um terno e uma gravata, trabalhar, ganhar dinheiro, virar avô… pobre criança! Tão tolamente aconchegada enquanto sentia os mortos do mundo. E via. Via e ouvia. Ouvia tiros na madrugada, sabia que alguém acabara de ter sido morto na esquina do bar como de costume. Achava estranho, mas não se assustava, afinal, morrer era para os outros. Via a guerra na TV e achava legal aqueles aviões e tiros e bombas e construções destruídas e feridos e gente fugindo e no fundo sentia um calafrio de que o mundo era um lugar muito estranho.

Morrer acontece. A gente só sabe que vai morrer, saber que vai morrer é assim, saber pelo verbo, pelo conceito, pelos outros que morrem. Só saber que vai morrer. O saber que vai morrer é o saber mais inofensivo que tem. O paradoxo é que só saber que vai morrer expressa o nosso maior desconhecimento.

Não acho natural morrer. E nem quero morrer. Não querer morrer não é que não se vai morrer, não querer morrer é ter a força de uma alegria suficiente para tirar a própria vida. Eu sei que muitas pessoas censuram esses pensamentos, é porque elas nunca sentiram o que é transbordar de vida, nunca sentiram o corpo vibrar em uma frequência tão próxima da vida que se é capaz de sentir vibrando em consonância com os astros. Essas pessoas estão mortas há muito tempo, isso não é desmerecimento, até eu morri, e morri muitas e muitas vezes até me sentir vivo, e mesmo sentindo vivo eu ainda sou capaz de morrer.

Em geral somos mortos depois dos nossos primeiros anos de vida, alguns poucos conseguem ressuscitar para a vida, para isso é necessário ter a coragem do pensamento. Estou falando de outro pensamento, não esses que vamos coletando ao longo da vida através dos outros, estou falando de um pensamento móvel, um pensamento que se descobriu estar limitado pelos muros dos outros e então criou brechas para sentir o que estava fora das paredes, e fora das paredes percebeu coisas de tirar o fôlego. Lá fora há um Fora, lá não há muros, então pode ser que nunca mais se consiga voltar, mas em geral volta, mas jamais a vida no lado de dentro será a mesma. Dentro? O dentro é a sala de estar da civilização, pode parecer imensa, mas jamais sem limites.

Falei de “dois tipos” de mortes. É difícil escrever sobre coisas que não são coisas. E morte nem é morte, esse nome é só um nome, o mais importante é conseguir tatear. Tatear… sabe, algo como sentir os gritos das moléculas? Lá no Fora não tem nomes, lá a gente tateia, sente, lambe, morde, escuta, vê, percebe.

Morte não é tudo igual. Mas muita gente parece ser tudo igual quando é morte, vai se afastando logo quando escuta esse nome. É porque isso borra, e muito, a maquiagem que se demora tanto tempo para criar uma personagem que pareça feliz. Eu poderia usar outro nome, e prefiro, para chamar a morte, porque morte é um nome com muitos preconceitos. Gostaria de chamar a morte de sussurros sobre a vida. Foram tantas as vezes que morri, e em tantas vezes escutei os sussurros sobre a vida, foram esses sussurros me faziam a vida surgir de maneira mais renovada. E se algum dia eu morrer e deixar de escutar os sussurros da vida quero que meu último lance seja um transbordamento de desespero com coragem e com alegria suficientes para terminar com a minha própria vida. “Suicidou-se de alegria”, é uma pena que os humanos ainda sejam incapazes de compreender as centelhas que estão presentes nesta frase. 

Enfim, não quero morrer.

O homem do bem

Desconfio e tenho receio,
de quem fala em nome de/do(a)
bem
justiça
amor
verdade.

Desconfio de quem quem fala em nome de deus, da paz, da ciência, da fé, do trabalho, do especialista, da mídia, do amor de mãe e do amor de pai.

Qualquer grande ditador que o mundo já conheceu agiu em nome dos valores ou instituintes acima. Nunca se matou tanto em nome de deus e do amor. Atualmente, nunca se mata tanto em nome da justiça. O poder adora se legitimar em nome de supostos valores que ele mesmo instaura. A métrica do homem do bem é a blasfêmia da vida, seus valores são formas de dominação para fazer de sua fraqueza a própria força. Perpetuação do poder em vários níveis, da população que se junta para espancar uma mulher que se ouviu dizer que praticava o “mal” até mesmo quando um homem desempregado chega em casa e agride a mulher, os filhos e o cachorro; a hierarquia do poder desce: essa mãe tem o filho e o cachorro para impor seu poder.

E parece que todos sabem dizer quem é do bem, quem é justo e quem é verdadeiro, ainda que diante de perguntas – “O que é o bem? – é bem provável que titubeiem. Se perguntarmos “quem é do bem?” então só a modéstia evitará a resposta “sou eu mesmo”, porque o outro parece sempre estar em falta com alguma coisa para que seja do bem. Quando criança e me deparei, pela primeira vez, com livros introdutórios e gerais de filosofia, me deparava com excertos gerais sobre o bem, o mal, o belo, o justo, etc., eu me espantava com o impacto, lia e relia mas não conseguia chegar a nenhuma apreensão. Hoje continuo sem nenhuma conclusão, mas não preciso ler e reler. A questão não é definir quando se sabe que a vida não comporta definições e toda definição é algo que veio de algum lugar para servir a algo e a alguém, portanto, mutável, na verdade, posso dizer mais sobre origens e funcionamento de tudo isso, mas não teria uma resposta para o que é bem. Mas para o homem do bem isso não acontece, ele é incrível, ainda que gagueje diante da pergunta “o que é o bem” ele é capaz de definir e julgar.

É muito difícil encontrar pessoas que não sejam do bem. Muito difícil encontrar pessoas mentirosas, maldosas, descrentes, injustas. Gente infeliz também é difícil de encontrar, ainda que os grandes centros de compras nos desmintam: gente infeliz adora fazer compras. Com tanta gente do bem, que ama, que trabalha, que é justa, que é verdadeira… fica difícil entender por que tanta sede de justiça e amor ao poder.

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Pensando com galhos secos na cabeça: esquerda ou direita?

Esses pensamentos de ensino médio que me chamam de esquerda ou comunista pelas minhas tentativas insanas de resistir ao capitalismo me chateiam. Esquerda ou direita? O que importa? Se não é esquerda nem direita, nem preto nem branco, nem sim nem não, então os homens brigam por outras coisas, e há sempre um fundo em comum nisso tudo: disputa por modos de vida. É verdade, “modo de vida” é uma expressão que essas pessoas não utilizam, sequer se dão conta de que estão fazendo, no fundo, tentativas de imposição de valores. Até em momentos tão comuns como, por exemplo, as “discussões” por preferências gastronômicas na hora do almoço, os valores estão em disputas.

Não me incomodem, não sou revolucionário, não sou liberal, não sou pessimista, não sou otimista, não acredito em gerações piores nem melhores, não sou… – não adianta dizer, para cada não – e cada sim – há um enquadramento. O negativo e o positivo, como se assim coubesse a vida.

A abundância da informação e dos meios de comunicação parece favorecer a chatice das categorizações da vida. Não quero dizer que não devíamos ter informação, mas esta, dentre seus vários efeitos gera ideias para os que têm galhos secos na cabeça usarem de maneira apressada e rasa e sair classificando a vida. Como toda informação, se não tivermos capacidade de pensar e avalia-las e, principalmente, saber de suas origens e interesses, esta só serve como diretriz ideológica. Quando não pensamos o pensamento é constrangido pelo já pensado, resta-lhe reproduzir.

Questões de posição, ou melhor, de dois lados. Quando a vida acontece em 360º qualquer agrupamento em posição tende a virar fascismo. Os da “esquerda” me acusam de pessimista, pós-moderno, eclético, burguês – esse último é um dos genéricos para qualquer um que não caminha com a esquerda. Os da “direita” me acusam de esquerda. Devotos do dinheiro, apressam-se logo em etiquetar com um nome tudo o que desvia dos mandamentos para ganhar mais e mais. Me enojam!

E tudo que acho do mundo é que ele é maior que qualquer ideal. As nossas mais brilhantes ideias não ofuscam o sol, grandes gênios não alteram o rumo das órbitas planetárias e de civilização em civilização a loucura desponta como visão panorâmica: não há gerações nem piores nem melhores, a loucura é o nosso fundo. Não se trata de resignar-se, não fazer nada, ser um niilista, trata-se de desenvolver uma capacidade maior de se perceber como sendo parte da natureza e não um personagem que se julga especial na vida, quem sabe assim diminuímos nossos euzinhos egóicos para não sair por aí querendo impor ideias, gostos, gestos, enfim, não impor modos de vida. Um homem pode querer ficar só no topo de uma montanha pelo resto de sua vida – e quem disse que ele estaria só? Nossas suposições com os significados são masturbações com o equívoco.

As nossas utilidades são sempre um engodo, entre a utilidade e a inutilidade escolho a última. A alegria é uma coisa inútil, gozar também é inútil, sentir o vento frio na madrugada após um dia quente é inútil, mas as contas bancárias são úteis, o acúmulo de títulos de especialização é útil, compreender a dialética e a história e como isso se encaixa na formação do homem genérico também é útil. Útil para que e para quem? A utilidade é a servidão do ideal. Revolucionários e liberais amantes da economia, eu sou um inútil e estou bem assim, obrigado.

Toda política que requer para si um lado já carrega consigo a marca do fascismo. Sou político pela impossibilidade de não ser vivendo em sociedade. Não há uma só escolha que fazemos que não tenha suas ressonâncias políticas, política são nossas entranhas e não o regime. Me parece que muitos se esquecem de cuidar das próprias entranhas políticas para gritar na praça seus ideais, de que adianta gritar um ideal na praça quando não olhamos nossa própria relação no trânsito, com o vizinho, com o que consumimos e, principalmente, com a política dos nossos próprios afetos? – No campo dos afetos consigo mesmo muitos democratas e “homens do bem” – nunca houve tantos homens do bem! – se descobririam como facínoras.

Me importo que chegue a noite. Acendo uma luz fraca e amarelada. Tenho minha garrafa de vinho. Tenho o silêncio necessário para escutar a vida através do vento e das conversações com as plantas e os animais. Tenho meu disco de Mozart ou Handel. Tenho lembranças de amores que às vezes põe a entreter-me. Vejo a lua e penso no quão distante está, penso em tantas coisas que devem ter pra lá dessa lua, o veludo do universo é um silêncio só, e é nesse quadro negro que vejo como são pequenas as nossas desgraças e conquistas diárias. Descobrir o quão irrisório somos pode ser um gesto para encontrar-se com a vida enquanto um encantamento muito singular, pode também nos levar a mais completa desolação, pode… as nossas suposições sobre o significado são masturbações com o equívoco.

Não somos todos macacos

O intempestivo logo cai nas teias da identidade e vira imbecilidade coletiva. O gesto do Daniel Alves de resistência individual passou a ser bandeira de todos. A questão não é levantar bandeira para um ou outro grupo, não somos todos macacos, SOMOS DIFERENÇAS. Ademais o “somos todos macacos” é ação de marketing lançada pelos assessores (o que já é de prática) de certo jogador muito bem pago e protegido em território midiático.

danielalves