Pensamentos, Existencialismo, Trágico, Absurdo, Música, etc.
Tanto quanto compreendo que os românticos não correspondidos sofrem profundamente suas dores platônicas, em silêncio pois a sociedade não suporta os românticos sofredores, embora o berço de homens e mulheres sejam adornados em uma atmosfera de amor romântico, também tenho uma profunda aversão por literatura cujo tema central são as românticas relações entre homens e mulheres. Não tenho paciência para a repetição dos diálogos entre os amantes, a morbidez de suas fantasias, o tempo vivido pelos românticos é por demais um enfado que se passa em rodeios completados com alguns passos.
No entanto, tomado pela curiosidade de conhecer “Madame Bovary” mais pela luta frenética que Flaubert travou com as palavras, acabei por me alegrar com tão belo final de obra. Típica obra realista mas não tanto enfadonha com parágrafos descritivos intermináveis, somada à clareza com que Flaubert consegue encadear as palavras, é um romance desses onde a leitura flui naturalmente numa interação onde o espaço-tempo literário nos cativa por nos “colocar” em meio ao devir das personagens.
Uma caricatura dos valores burgueses da França do século XIX, que é também um fundo do ridículo da tragicomédia humana que reina em qualquer tempo, Flaubert utiliza do relacionamento do casal Bovary para expor a fragilidade dos valores sociais através do ideal de amor romântico que impele muito mais na tola e ingênua Emma Bovary, a boa moça que respira e se alimenta do romantismo em sua versão mais tradicional. Mas não menos tolo é o marido Charles Bovary, um médico sem grandes dotes que vive para Emma, adornando-a em uma aura de imunidade contra o desagradável, portanto, tornando-a uma figura angelical dotada de perfeição e formosura.
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A TV Gazeta compete com o Boris Casoy. Ambos os canais possuem suas aberrações no jornalismo. A âncora Maria Lydia não deixa o Casoy para trás no quesito jornalismo pessoal, preconceituoso, banal, vulgar, conservadorista: ruim, imbecil e esclerosado em todos os sentidos.
Uma das características marcantes de Maria Lydia é que não há diferença alguma entre os pitacos que ela dá e os pitacos que um popular que se alimenta da informação televisiva neoliberal também pode oferecer, com a ressalva de que este último ainda pode opinar com mais profundidade e complexidade.
No bojo dessa recente greve dos professores da rede estadual paulista, a jornalista tem frequentemente asseverado que a classe dos professores está sendo ilegítima na medida em que deixa a população à mercê, o que para ela é transferência do “problema do professor” para a sociedade, mais especificamente aos pais e filhos. Ainda, em demonstração à sua visão de mundo regida e limitada pelos valores mais óbvios e ralos do burguês-econômico-cristão, a jornalista diz que os professores perdem a chance de serem melhores vistos pela sociedade, contribuindo ainda mais para a tão péssima visão que a própria sociedade sustenta em relação à educação, muitas vezes transferindo unicamente à representação do professor toda a responsabilidade pela gama de elementos envolvidos (políticos, econômicos, sociais e da própria visão de mundo que sustentamos num modo de pensar que se mostra cada vez mais em crise) no sistema de ensino que imaginamos conhecer, que conhecemos e, sobretudo, que desconhecemos.
Ora, a essência de qualquer greve é justamente incomodar, causar desconforto e prejuízo à sociedade – e ainda assim não deixa de ser legítima -, como instrumento para se chegar aos objetivos e/ou acordos. Ainda que os que não concordam com a greve irão querer inverter a situação e forçar a legitimidade à violência.
Imaginar que uma greve é um movimento que para ser legítimo não deve causar nenhum tipo de prejuízo social, isto é, nenhum tipo de paralisação e/ou limitação dos serviços prestados, pode ser tantas coisas menos uma greve! Esse discurso de que a greve para ser legítima “não deve ser greve”, portanto, como mera manifestação de opinião mas esvaziada de ação e engajamento, só admite a greve segundo o dever jurídico assegurado em constituição, portanto, como ideia registrada para cômputo de direito. O abismo que separa o direito assegurado pela palavra jurídica à prática assegurada em sociedade, é certamente o efetivo lado hipócrita dos ideais burgueses de uma sociedade conservadora e cínica que é a sociedade brasileira. Mais cínica e hipócrita do que costumam querer vê-la como potencialidade de resistência devido a multiplicidade étnica e cultural que aparentemente faz parte da população: sim! é verdade, temos uma variedade de danças, modos de se vestir e se alimentar, costumes onde confluem culturas estrangeiras e regionais, dialetos e tantos outros hábitos, o que não impede que sejamos também um rebanho dócil às ideologias dominantes.
Tão pior quanto a dissimulada opinião esvaziada e conservadora da âncora Maria Lydia, só imaginando um jornal feito em dupla, ela e o Boris Casoy: provavelmente uma situação para tornar qualquer alegoria do inferno em paraíso a ser preferido.
Dos encontros com o álcool, com as drogas, com o sagrado, com o homem… que não se duvide das nossas potencialidades, por vezes trágicas, por vezes virtuosas, por vezes risonhas, mas sempre sob um fundo de Nada.
É muito intelectual apontando para uma abertura dos três monoteísmos nos tempos atuais em relação aos tempos de bruxarias e fogueira – sobretudo o cristianismo que é céu que paira mais próximo sobre nossas cabeças. Que admitamos as variações de graus, mas não a tomemos como variações de natureza. Acreditar que o cristianismo, o judaísmo e o islamismo são mais liberais e suscetíveis a uma maior aceitação da multiplicidade de ideias e pensamentos, de modos de vida e relacionamentos, é por demais um equívoco digno e vindo de não outro senão um próprio “monoteísta”.
Historicamente, o ateísmo não fez frente à teologia. Limitou-se a fazer mera oposição negativa aos argumentos profusos do pântano obscuro dos teólogos que nunca deixou de emanar um jogo de discurso de mundos e entidades sob a efígie de um intelectualismo coerente. O ateísmo tradicionalmente referendado pela ciência é um “ateísmo religioso”, onde Deus foi destronado por novos deuses através de “sacerdotes-cientistas” que, é certo, negaram a divindade Deus, mas presos em um corpo e mente absolutamente cristãos, ofereceram outros transcendentais em troca. Outra dificuldade para o ateísmo ter se firmado é que desde os seus primórdios, nunca deixou de ser identificado como uma facção subterrânea que promove o mal, a baderna, a violência e todos os tipos de desgraças sobre a terra, características estas que encontramos muito mais nos clérigos poderosos em seus castelos com príncipes, reis e livros invioláveis do que qualquer pensador, inclusive os que se ajoelharam ao deus-razão.
Admitir que somos todos ex-crentes, talvez seja a primeira condição para um ateísmo que não seja mera brincadeira de negação. Richard Dawkins tem um ateísmo que se sustenta na lógica da negação. Sua louvável luta é frágil na medida em que substitui a religião pelo evolucionismo, e Deus passa a ser regido por uma ordem natural erigida sob as bases da evolução natural das espécies e da genética: é daí que vem o tecido com que o cientista explica o mundo. É o que Dawkins oferece, o que está longe de permitir que o pensamento alce voos livres para além de uma questão de ser divino ou ser evolucionista. Deus não existe porque a evolução natural e a genética mostram que… é o que Dawkins se limita a fazer, antes um ateísmo de argumentação opositivo ao monoteísmo. E se tem algo que o ateísmo não precisa é argumentar e se permitir entrar no jogo do discurso teológico, mas se respaldar em uma ética do viver que valorize a nossa única e possível vida que temos e que se faz num real que é trágico, que implica necessariamente incluir a morte na vida, morte não enquanto culto, mas como face intrínseca à própria celebração da vida. A questão deve ir além de permitir que se abandone a bíblia para aderir à ciência evolucionista, pode-se, inclusive, ser ateu sem precisar abandonar a bíblia!
O direito, a medicina, a bioética, a psicologia, muito da filosofia – Platão, Descartes, Kant, Comte etc. -, … quem pode dizer que tais ciências não operam sob um fundo cristão? Ora, o que resta do sujeito-jurídico sem o mito de Adão e Eva? E o que dizer do nosso esquema corporal e mental, nosso cérebro, coração, paixões e emoções, o simbolismo da nossa carne e dos órgãos, que sobrevivem da seiva do platonismo-cristianismo? E quantos filósofos não parecem mais que braços forte do Vaticano?
Tentemos ir no fundo dos monoteísmos: seus ódios violentos produzidos em mais de dois milênios ainda se processam e se produzem respaldados na depreciação e no ódio ao corpo; no ódio às mulheres e ao prazer; no culto do pensamento submisso e aprisionado no já pensado em detrimento do pensamento livre e, principalmente, na depreciação e no ódio desse mundo e dessa vida dominados pelo Mal e pela imundície, incessantemente, comparados a paraísos no Além que são plenos de todo o Bem. Tais fundos básicos por onde se perpassa toda produção de sentidos dos monoteísmos, dos tempos de Moisés, Abraão e Maomé aos cristãos histéricos e business do pós-modernismo, em nada se alterou.
Cônscios de que somos ex-crentes, talvez o ateísmo passe à maioridade e deixe sua lógica de tirar Deus do trono para colocar outros, quais sejam, os fabricados pela ciência e pelo afã do progresso-tecnológico. Para um ateísmo que seja realmente ateu ou que se sustente fora das bases monoteístas, o que menos importa é a negação ou não da existência de Deus com base nos jogos de discursos, o ateísmo pós-moderno não deve se importar com a “presença” de Deus, deixemos Ele no céu!
Se defendo o ateísmo, é porque ainda acredito em um ateísmo que possa vir a se constituir não como um ateísmo que nunca passou de uma religião de revolta contra os transcendentes institucionalizados pela teologia, se ainda luto contra o monoteísmo não é porque quero que Deus desapareça ou não, provavelmente o último deus só desaparecerá quando o último homem desaparecer, mas porque não posso aceitar que a única vida que temos seja caluniada em nome de Nadas, de mundos e naturezas que vingarão num pós-vida, e que ganham corpo nas prescrições e exortações da teologia, que decide essa vida do aqui e agora numa lógica do que é proibido ou autorizado, secando, através dessa pequenez, toda multiplicidade e possíveis da vida com toda criatividade trágica e absurda que nos aparece aí pelo menos num fundo estético do porvir.
Um ateísmo realmente ateu deve antes buscar as raízes da moral cristã, e com a ajuda de uma genealogia da moral, ver o quanto ela foi disfarçadamente infiltrando e contaminando o mundo, destituindo essa vida em prol de uma outra configurada de acordo com os interesses de ditadores, de moralistas, de clérigos perversos, de higienistas, de políticos e cientistas fechados em suas próprias gaiolas de pensamentos, e que passaram a vilipendiar e caluniar tantas perspectivas de vida que desviassem dos caminhos por eles apontados. Os ateus também precisam se libertar do cristianismo, libertar o modus operandi, a carne e o pensamento cristianizados, para só então poder começar a lutar contra a perversa máfia monoteísta: o ateísmo-cristão que se consolidou até o momento precisa livrar a própria carne e pensamento de uma lógica com que criou seus conceitos e ideias, e que não é outra senão a lógica platônica-cristã. O ateísmo finalmente liberto do corpo cristão, possibilitaria (?), enfim, devolver à vida a sua inocência e dar ao homem uma ética de afirmação e celebração do devir. Com o real afirmado em seu trágico, o homem, que então compreenderia os cadáveres pelos quais ele se assenta, não precisaria, em suplícios, agarrar no primeiro ser fantasioso que lhe oferecer hipotecas de paraísos de naturezas imortal e plena.