Utilidades não movem a vida

  “Na noite anterior, quando dava meu passeio costumeiro pela beira do Canyon, a visão de uma folha de quadrinhos (o que me chamou a atenção foi o Príncipe Valente) caída na beira do abismo despertou em mim curiosas reflexões. O que podia parecer mais inútil, estéril e insignificante do que uma folha de quadrinhos de domingo diante de um espetáculo tão vasto e misterioso quanto o Grand Canyon? Lá estava ela, descuidadamente jogada fora por um leitor indiferente, pronta a ser levada pelo menor vento e extinta. Por trás dessa folha colorida com espalhafato, que exigiu para sua criação as energias de homens incontáveis, variados recursos da natureza, os tênues desejos de crianças superalimentadas, estava toda a história da culminação de nossa sociedade ocidental. Para mim é difícil fazer qualquer distinção de valor entre uma folha de quadrinhos, um navio de guerra, um dínamo, uma estação de radio-transmissão. Estão todos no mesmo plano, são todos manifestações de uma energia inquieta, descontrolada, de impermanência, de morte e dissolução. Olhando o Canyon, os grandes anfiteatros, coliseus, templos que a natureza escavou ao longo de incalculáveis períodos de tempo em diferentes ordens de rochas, perguntei-me por que efetivamente aquela vasta criação não podia ser obra do homem. Por que, na América, as grandes obras de arte são todas obras da natureza? Havia arranha-céus, com certeza, e diques, pontes, estradas de concreto. Todos utilitários. Em nenhum lugar da América havia nada comparável às catedrais da Europa, aos templos da Ásia e do Egito – monumentos duradouros criados pela fé, pelo amor, pela paixão. Nenhuma exaltação, nenhum fervor, nenhum zelo – a não ser para aumentar os negócios, facilitar o transporte, aumentar o domínio da impiedosa exploração. Resultado disso? Um povo em rápida decadência, um terço na pobreza, os mais inteligentes e influentes cometendo suicídio racial, os pobres coitados se tornando mais e mais desregrados, mais e mais criminosos, mais degenerados e degradados sob todos os aspectos. Um punhado de políticos indiferentes, ambiciosos tentando convencer a multidão de que este é o último refúgio da civilização, Deus salve os indicadores!

Os homens do futuro vão olhar as relíquias desta era como nós olhamos os artefatos da Idade da Pedra. Somos dinossauros mentais. Arrastamo-nos com pés pesados, cabeça entorpecida, sem imaginação em meio a milagres aos quais nos tornamos impermeáveis. Todas as nossas invenções e descobertas levam à aniquilação.”

Henry Miller, Pesadelo Refrigerado.

Ondas noturnas

A música clássica silencia o mundo e emudece as palavras, e então posso escutar os planetas, as estrelas, a morte, o delírio de estar vivo.

O clímax da insônia é a decomposição do Eu no feitiço da noite. Sente–se os passos dos mortos. Pulsa o insignificante do instante no compasso da respiração. A veia pulsa sem saber do mundo. Que é o mundo? Que sou eu? E o que sou responde com o que sou eu infinitamente, e assim a vida escorre nos colapsos dos significados. As estrelas que quero tocá-las e a lua que quero morder e os rostos da beleza que já presenciei, tudo escapa. O que escrevi já não sei. A palavra é um significado insignificante, é a mentira que temos como tentativa de capturar o que está atrás do pensamento, a medida que teço o mundo em palavras sinto escapar o mais importante. Descubro então que o meu respirar é mais importante que Platão, Kant e Descartes e as pirâmides do Egito. Assim: só respirar! só respirar basta! basta a respiração sem sentido sorvendo a vida para reduzir o conhecimento a nada.

Gosto de filosofias que combinam com a madrugada, a insônia, a embriaguez, a noite. Não é qualquer filosofia, não dá para sair com Kant pelos flocos da madrugada, Kant é para entrar no jurídico e ver toda nossa decadência, nossa fraqueza e negação da vida. Olhar para o mundo com estrelas pueris e planetas, para o silêncio do cosmo, para coisas que não costumamos olhar porque elas não tem nomes ou porque nos incomodam, é preciso bem mais, e quando a gente tem esse a mais… é só se deixar levar pelos ventos noturnos e aguardar para as estranhezas começarem a pulsar e criar composições no corpo, criar o que? – Não cabe perguntas quando nos deixamos levar para além das fronteiras do significante.

de noite estou a embriagar ao lado de deuses selvagens,
caminhando por espaços vazios,
de dia vou pela rede de esgoto humana,
escorrendo pelas sarjetas do emprego.

O Eu sabotador

Quando acreditava no Eu eu só era um Eu, o Eu se impunha, eu era um Eu e o Eu me era e nada mais, mal havia divisão de um Eu e um não-Eu, e então o Eu me dominava, comandava, se ele não queria agir eu nada podia fazer – não agia. Se algo em mim queria e o Eu sentia medo ele sabotava, meu corpo entristecia e o Eu vinha com suas mentiras. Um dia descobri que eu não era um Eu. Descobri que o Eu é uma ficção social feita verdade básica, dessas que ninguém desconfia. Descobri que o Eu habita a linguagem, esta quer apossar-me, falar por mim. O dia que descobri que eu não sou um Eu foi um colapso delicioso, e então olho para traz e percebo que a vida nunca mais foi como antes, é como um novo nascimento em um novo mundo. O dia que descobri que eu não era o Eu o mundo se rachou em inúmeros mundos, a realidade se desfez. Eu não deixei de ter um Eu, eu tenho um Eu mas eu sei que ele não me é e eu não o sou. Ele faz parte de mim mas como um outro, um outro medroso e cheio de artimanhas para sabotar – é porque ele sabe que vai morrer, sabe que nunca se alinhará plenamente ao estatuto da matéria e suas transformações. Morrer? Que sentido tem o morrer senão os que inventamos, senão os que o Eu inventa para tentar se safar de um sem sentido que se impõe.

A consciência que temos de como estamos sendo transformados pelo mundo é irrisória, para darmos conta precisamos de que coisas estranhas estão acontecendo a todo instante é necessário esquartejar o Eu, do contrário ele não para de criar paisagens e papéis de parede para decorar a vida como se passasse em uma sala.

As moléculas gracejam para o Eu – desconheço a morte, transformo-me em outros corpos -, e o Eu se desespera diante do dia em que nunca mais será. O corpo é um turbilhão de forças, e o Eu nos prega peças, faz da vida um emplastro de sentidos distribuídos em etapas, um antes, um agora e um que ainda será – passado, presente e futuro. E ainda temos a psicanálise que busca construir uma gramática do afeto que faça relação com o pensamento – a patrulha para trazer os marginais de volta à civilização.

O que mais importa é o afeto que pulsa sem significado.

O corpo

O corpo… o mais precioso. O que somos. Matéria-conexão com os encontros do mundo. Campo de acontecimentos. Arena de pensamentos e afetos.

O mais inocente, e no entanto o mais criminalizado: um corpo nu em público incendeia o social, os egos entram em erupção prestes a sucumbir, a violência entra em cena – que há no corpo nu para ser tão ofensivo?

Somos uma espécie de catástrofe, o progresso é a nossa mais pura decadência.