Entrevista: Eduardo V. de Castro sobre o Capitalismo

Entrevista recomendadíssima (Fonte: Ecodebate) com o antropólogo que deu um soco no eurocentrismo do homem ao nos apresentar a beleza do perspectivismo ameríndio. Eduardo Viveiro de Castro é um grande pensador, seus pensamentos sempre acabam ressoando em nós de maneira muito intensa. Abaixo alguns trechos.

Não há nada mais estúpido que estas Land Rovers que vemos em São Paulo ou no Rio de Janeiro, andando com adesivos do Greenpeace, de slogans ecológicos, coladas no para-brisa.

As pessoas vão às ruas nestes 4×4 e bebem um diesel venenoso… Gente que pensa que o contato com a natureza é fazer um Rally no Pantanal…

Um governo que não se cansa de se orgulhar pela quantidade de carros produzidos por ano. É absurdo utilizar os números da produção de veículos como um indicador de prosperidade econômica. Essa é uma proposta podre, uma visão estreita e uma proposta muito empobrecedora para o país.

O Brasil segue como um país periférico, uma plantação “high tech” que abastece com matérias-primas o capitalismo central.

O projeto de Brasil, que tem a atual coalizão do governo sob o mando do Partido dos Trabalhadores (PT), considera os ribeirinhos, os indígenas, os campesinos, os quilombolas como pessoas com atraso, um atraso sociocultural, e que devem ser conduzida para outro estado.

O PT vê a Amazônia brasileira como um lugar para civilizar, para domar, para obter benefícios econômicos, para capitalizar.

Estamos vendo hoje uma ironia muito dialética: o governo, liderado por uma pessoa perseguida e torturada pela ditadura, realizando um projeto de sociedade que foi adotado e implementado por esta mesma ditadura: a destruição da Amazônia, a mecanização, a “transgenização” e a “agrotoxicação” da agricultura, migração induzida pelas cidades.

Por que não percebemos a coerção da linguagem

“(…) na prática viva da língua, a consciência lingüística do locutor e do receptor nada tem a ver com um sistema abstrato de formas normativas, mas apenas com a linguagem no sentido de conjunto dos contextos possíveis de uso de cada forma particular. Para o falante nativo, a palavra não se apresenta como um item de dicionário, mas como parte das mais diversas enunciações dos locutores A, B ou C de sua comunidade e das múltiplas enunciações de sua própria prática lingüística. Para que se passe a perceber a palavra como uma forma fixa pertencente ao sistema lexical de uma língua dada – como uma palavra de dicionário –, é preciso que se adote uma orientação particular e específica. É por isso que os membros de uma comunidade lingüística, normalmente, não percebem nunca o caráter coercitivo das normas lingüísticas. A significação normativa da forma lingüística só se deixa perceber nos momentos de conflito, momentos raríssimos e não característicos do uso da língua (para o homem contemporâneo, eles estão quase exclusivamente associados à expressão escrita). – M. Bakhtin, Marxismo e Filosofia da Linguagem

Grifos meus :]

A libertação da vida

Uma das coisas mais belas e encantadoras que o professor Cláudio Ulpiano já me proporcionou através das suas aulas transcritas. Instante de vida que valeu a pena ser vivido, instante de vida que me aconteceu como uma torrente de lágrimas dançantes de alegria, e elas cantavam o privilégio de estar vivo, instante de vida desses que levamos para o túmulo. 

A libertação da vida é a libertação do organismo: libertar a vida do organismo! Então, fazer esse procedimento em todas as linhas possíveis e é a beleza que a história dos homens, tão enlouquecida, nos proporciona. Artistas, cientistas, filósofos que literalmente cortaram o orgânico das suas preocupações teóricas e éticas, produzindo uma obra de liberação exatamente dessas forças afetivas que estão aqui. Vocês podem me perguntar: mas … pra quê e por quê? Porque a vida – à maneira bergsoniana – ela é um élan, ela é uma força, ela é uma linha abstrata. A vida é como se fosse um homem apaixonado à procura exacerbada da sua amada. Por isso a vida vai sempre pra frente, porque ela nunca vai encontrar essa amada. A vida é exacerbada e é errante. É exacerbada e errante. E o pensamento tem uma função. A vida se dá nos corpos e os corpos forçam o pensamento a pensar – porque o corpo não pensa; mas ele força o pensamento a pensar. – Cláudio Ulpiano

A identidade é uma ilusão

Somos um movimento contínuo, o que sou já não sou mais a cada instante, um corpo que já não é mais o mesmo a cada instante. No entanto, o campo social nos pergunta a cada instante “quem é você?”, e quando nos perguntam dizemos o que fazemos. Não sabemos o que dizer? Se dissermos que somos um fluxo constante a conversa termina ali, fim de linha na mesa do bar. Identidade, nossa ilusão de cada dia. 

O corpo é um fluxo constante, consequentemente os pensamentos também são fluxos, dependem dos encontros do corpo com o mundo. Paralelo a isso carregamos o discurso sobre si, como o discurso sobre si nunca acompanha a dinâmica dos afetos nós sofremos tanto quanto mais queremos nos grampear em uma identidade. O campo social não aceita muito bem quem não tem identidade, ele reage negativamente até mesmo a quem antes gostava de melancia e depois passou a não gostar… coisas de família, de amigos, de concreto cotidiano.

Espinoza, com seu pensamento belo e sublime, dizia que quando o discurso sobre si em muito se distanciava do corpo, então o corpo saía de cena: o homem se suicida. Saibamos rir da nossa consciência, saibamos que ela nos prega peças, saibamos que ela é muito mais um personagem criado pelo coletivo e que aquilo que chamamos de individual é selecionado do coletivo e misturado com outros discursos, saibamos que a consciência é a ilusão de um “interior de si” privado e só nosso. Saibamos que, no limite, a consciência é só um tapete escrito “bem-vindo”… atente-se às afecções e  aos afetos, aos encontros com o mundo.