Por que não percebemos a coerção da linguagem

“(…) na prática viva da língua, a consciência lingüística do locutor e do receptor nada tem a ver com um sistema abstrato de formas normativas, mas apenas com a linguagem no sentido de conjunto dos contextos possíveis de uso de cada forma particular. Para o falante nativo, a palavra não se apresenta como um item de dicionário, mas como parte das mais diversas enunciações dos locutores A, B ou C de sua comunidade e das múltiplas enunciações de sua própria prática lingüística. Para que se passe a perceber a palavra como uma forma fixa pertencente ao sistema lexical de uma língua dada – como uma palavra de dicionário –, é preciso que se adote uma orientação particular e específica. É por isso que os membros de uma comunidade lingüística, normalmente, não percebem nunca o caráter coercitivo das normas lingüísticas. A significação normativa da forma lingüística só se deixa perceber nos momentos de conflito, momentos raríssimos e não característicos do uso da língua (para o homem contemporâneo, eles estão quase exclusivamente associados à expressão escrita). – M. Bakhtin, Marxismo e Filosofia da Linguagem

Grifos meus :]

A libertação da vida

Uma das coisas mais belas e encantadoras que o professor Cláudio Ulpiano já me proporcionou através das suas aulas transcritas. Instante de vida que valeu a pena ser vivido, instante de vida que me aconteceu como uma torrente de lágrimas dançantes de alegria, e elas cantavam o privilégio de estar vivo, instante de vida desses que levamos para o túmulo. 

A libertação da vida é a libertação do organismo: libertar a vida do organismo! Então, fazer esse procedimento em todas as linhas possíveis e é a beleza que a história dos homens, tão enlouquecida, nos proporciona. Artistas, cientistas, filósofos que literalmente cortaram o orgânico das suas preocupações teóricas e éticas, produzindo uma obra de liberação exatamente dessas forças afetivas que estão aqui. Vocês podem me perguntar: mas … pra quê e por quê? Porque a vida – à maneira bergsoniana – ela é um élan, ela é uma força, ela é uma linha abstrata. A vida é como se fosse um homem apaixonado à procura exacerbada da sua amada. Por isso a vida vai sempre pra frente, porque ela nunca vai encontrar essa amada. A vida é exacerbada e é errante. É exacerbada e errante. E o pensamento tem uma função. A vida se dá nos corpos e os corpos forçam o pensamento a pensar – porque o corpo não pensa; mas ele força o pensamento a pensar. – Cláudio Ulpiano

A identidade é uma ilusão

Somos um movimento contínuo, o que sou já não sou mais a cada instante, um corpo que já não é mais o mesmo a cada instante. No entanto, o campo social nos pergunta a cada instante “quem é você?”, e quando nos perguntam dizemos o que fazemos. Não sabemos o que dizer? Se dissermos que somos um fluxo constante a conversa termina ali, fim de linha na mesa do bar. Identidade, nossa ilusão de cada dia. 

O corpo é um fluxo constante, consequentemente os pensamentos também são fluxos, dependem dos encontros do corpo com o mundo. Paralelo a isso carregamos o discurso sobre si, como o discurso sobre si nunca acompanha a dinâmica dos afetos nós sofremos tanto quanto mais queremos nos grampear em uma identidade. O campo social não aceita muito bem quem não tem identidade, ele reage negativamente até mesmo a quem antes gostava de melancia e depois passou a não gostar… coisas de família, de amigos, de concreto cotidiano.

Espinoza, com seu pensamento belo e sublime, dizia que quando o discurso sobre si em muito se distanciava do corpo, então o corpo saía de cena: o homem se suicida. Saibamos rir da nossa consciência, saibamos que ela nos prega peças, saibamos que ela é muito mais um personagem criado pelo coletivo e que aquilo que chamamos de individual é selecionado do coletivo e misturado com outros discursos, saibamos que a consciência é a ilusão de um “interior de si” privado e só nosso. Saibamos que, no limite, a consciência é só um tapete escrito “bem-vindo”… atente-se às afecções e  aos afetos, aos encontros com o mundo.