A identidade é uma ilusão

Somos um movimento contínuo, o que sou já não sou mais a cada instante, um corpo que já não é mais o mesmo a cada instante. No entanto, o campo social nos pergunta a cada instante “quem é você?”, e quando nos perguntam dizemos o que fazemos. Não sabemos o que dizer? Se dissermos que somos um fluxo constante a conversa termina ali, fim de linha na mesa do bar. Identidade, nossa ilusão de cada dia. 

O corpo é um fluxo constante, consequentemente os pensamentos também são fluxos, dependem dos encontros do corpo com o mundo. Paralelo a isso carregamos o discurso sobre si, como o discurso sobre si nunca acompanha a dinâmica dos afetos nós sofremos tanto quanto mais queremos nos grampear em uma identidade. O campo social não aceita muito bem quem não tem identidade, ele reage negativamente até mesmo a quem antes gostava de melancia e depois passou a não gostar… coisas de família, de amigos, de concreto cotidiano.

Espinoza, com seu pensamento belo e sublime, dizia que quando o discurso sobre si em muito se distanciava do corpo, então o corpo saía de cena: o homem se suicida. Saibamos rir da nossa consciência, saibamos que ela nos prega peças, saibamos que ela é muito mais um personagem criado pelo coletivo e que aquilo que chamamos de individual é selecionado do coletivo e misturado com outros discursos, saibamos que a consciência é a ilusão de um “interior de si” privado e só nosso. Saibamos que, no limite, a consciência é só um tapete escrito “bem-vindo”… atente-se às afecções e  aos afetos, aos encontros com o mundo.

Disciplina pelo detalhe

O homem do humanismo foi erigido a partir do detalhe, corpo talhado na minuciosidade do detalhe. Pequenos e ínfimos detalhes, silenciosos, pouco aparentes, mas muito questionáveis, para controle e utilização dos corpos. Detalhes que como pragas de gafanhotos trazem consigo a minuciosidade da técnica e da aptidão, os aparelhos de saber e descrições, gafanhotos extremamente ágeis para corroer a potência do corpo, ao mesmo tempo que o faz uma potência em aptidão para uso e eficácia de uma vida baseada na racionalidade econômica da vida. 

A disciplina é uma anatomia política do detalhe. – Foucault, Vigiar e Punir.

Que você seja mais franco com a vida

Não desejo paz, nem harmonia, nem saúde, nem sucesso, nem felicidade a ninguém, e muito menos um ano pleno. Não desejo guerra, nem desarmonia, nem fracasso, nem infelicidade a ninguém.

Que sejamos nós mais honestos com a vida, que tenhamos a capacidade de ser franco com nós, olhar as nossas impotências, as nossas fraquezas, as nossas covardias, os nossos medos, a nossa hipocrisia, o nosso fascismo e a nossa cumplicidade diários.

Basta de muletas metafísicas. Basta de mais um ano-coisa que seja aquilo que nós não conseguimos ser…

Mas que desejemo-nos NÓS a vida, tal como ela é, com alegrias e tristezas, desejemo-nos NÓS mais instantes de eterno-retorno.

Beba, fume, embriague-se, leia, escute, transe, grite, sussurre, ame, pule, cante, pratique esportes, alimente-se bem, faça mais tantas outras coisas ou não faça nada disso, ou não queira fazer nada, mas que seja você o soberano, em potência afirmativa, a decidir o que fazer ou não fazer, que seja você a decidir, somente você, por uma vida boa.