Que você seja mais franco com a vida

Não desejo paz, nem harmonia, nem saúde, nem sucesso, nem felicidade a ninguém, e muito menos um ano pleno. Não desejo guerra, nem desarmonia, nem fracasso, nem infelicidade a ninguém.

Que sejamos nós mais honestos com a vida, que tenhamos a capacidade de ser franco com nós, olhar as nossas impotências, as nossas fraquezas, as nossas covardias, os nossos medos, a nossa hipocrisia, o nosso fascismo e a nossa cumplicidade diários.

Basta de muletas metafísicas. Basta de mais um ano-coisa que seja aquilo que nós não conseguimos ser…

Mas que desejemo-nos NÓS a vida, tal como ela é, com alegrias e tristezas, desejemo-nos NÓS mais instantes de eterno-retorno.

Beba, fume, embriague-se, leia, escute, transe, grite, sussurre, ame, pule, cante, pratique esportes, alimente-se bem, faça mais tantas outras coisas ou não faça nada disso, ou não queira fazer nada, mas que seja você o soberano, em potência afirmativa, a decidir o que fazer ou não fazer, que seja você a decidir, somente você, por uma vida boa.

Sex shop – casa de repressão moderna

Talvez os sex shops revelem muito mais o quanto somos problemáticos em se tratando dos prazeres do que algum nível de liberdade sexual. É bem verdade: hoje temos muito mais liberdade para consumir modos de como lidar com o sexo – digamos, lidar com as posições e meios para o sexo, pois o modo dominante ainda é o fálico -, e ainda são referendados pelos chamados sexólogos, uma nova raça de padres que surgiu. 

Guerra de gêneros

Brilhantes reflexões no texto “O fantasma do amor romântico nas relações livres” do blog Amores Livres.

Acho catastrófica a “guerra” entre homens e mulheres que acredito permear de maneiras muito sutis as relações, além da sexualidade, inclusive, no contemporâneo onde se diz – apenas se diz – que somos livres sexualmente. Ainda não consegui expressar em palavras ou atingir, da forma como gostaria, algumas problematizações das relações entre homens e mulheres. Sou contra os modos difundidos pelo patriarcalismo (machismo, amor romântico, Édipo… agrupo tudo aí), mas também temerário quanto algumas outras maneiras de viver que vão se engessando como oposições, identifico aqui o que tem se chamado de movimento feminista.

É complexo falar em um movimento feminista, parece desprezar movimentos singulares de mulheres que lutam contra a dominância do gênero masculino, no entanto, um movimento feminista mais encorpado parece existir e se manifestar em uma estrutura lógica inversa. A questão não é nem machismo nem feminismo, e um pelo outro seria incorrer no perigo de engessar regimes de afetos ou modos de vidas, ainda que diferentes. Só se pode falar de um modo de vida para si mesmo, quando falamos de modos de vida em tom de querê-lo como dominante, incorremos em fascismos contra os afetos e as sensibilidades que são múltiplas.

O movimento homossexual que surgiu como uma contestação de vários modos dominantes da família burguesa hoje se manifesta mais como um movimento que clama pelo direito (“meu direito humano!”) de constituir uma família, a meu ver, também sedimentada em ideais burgueses.

De alguma maneira o texto abaixo citado toca em alguns pontos do que ainda em mim é me ainda muito complexo para puxar algumas linhas de pensamento. É preciso refletir sobre por que o sexo tem que ser assim tão determinante a ponto de clivar as relações, do meu ponto de vista, em todos os âmbitos, ou simplesmente ignorá-lo, talvez seja justamente nossas reflexões sobre o sexo que fazem de nós, ocidentais, uma civilização que faz girar discursos e práticas de si em torno da sexualidade. Por que o sexo tem que ser assim tão determinante assim? Foucault também não parava de se perguntar para problematizar muito dessa genealogia… infernal.

O sexo tem que ser assim tão determinante no grau de profundidade e no caráter geral de uma relação? Precisamos chegar ao ponto de clivar as relações entre “com sexo” e “sem sexo”, usando nomes diferentes pra cada? Por que, em vez disso, não dividimos nossas relações entre “com afinidade política” e “sem afinidade política”, ou então entre “com conversas profundas” e “sem conversas profundas”, ou ainda entre “com gosto artístico parecido” e “sem gosto artístico parecido”? Por que, acima de todas as outras características, especificamente a presença do sexo define a forma de se relacionar? - O fantasma do amor romântico nas relações livres, blog Amores Livres

Doces desastres

Um sorriso diabólicamente terno, a doce maldade nos olhos, a sutileza escorrendo pelos lábios, um certo modo de andar, sobrancelhas que compõem com traços ocultos um mistério de pirâmide… são tantas as tentações que estão além de um corpo-bunda, corpo-peito, corpo-modelo. A gostosura excita, mas não tira do lugar comum, o tesão agradece e quando não mais aguenta o tédio desaba. A beleza desfaz o tédio, não porque dura para sempre, mas por transbordar o instante. Um homem não enlouquece por uma mulher-gostosa, mas é capaz de enlouquecer-se pela beleza – que só ele vê! – de uma mulher. Morte cruel, perturbada – e deliciosa. Ou quem sabe a vida em estado excessivo, quando então sobe aos céus, despoja os deuses e desce à terra para fazê-la o próprio paraíso. Um detalhe de estrabismo nos olhos a eclipsar o tempo e fazer o olhar se perder na eternidade de um instante… é sempre por um detalhe, por um detalhe que se quebra pela beleza. E então vemo-nos a se desmanchar deliciosamente enquanto caímos – dançando! – em um abismo, e enquanto caímos o universo que há tão pouco era indiferente e frio, passa a cantar com um coral de estrelas cintilantes. Doce desastre!