A AIDS é uma invenção biopolítica

Esse título não é por acaso, optei por um incidência significante mais aguda pois desde meus tempos de faculdade, sobretudo nas aulas dos doutores em sexualidade – novos padres! -, eu não suportava todos aqueles discursos sem o mínimo de tato filosófico que iam de encontro às “novas descobertas” da ciência (repararam que são sempre novas?), protocolos e mais protocolos sob a égide de pesquisas e artigos científicos. Dizem “isso é científico”, “há muitas pesquisas” e por aí vai, a ciência tal como Deus para um cristão do século XVII!

Breve desabafo que sussurra-me agora, enquanto lembro da ditadura acadêmica, seja na figura de um professor de fé científica ou de próprios colegas, que me mandavam à fogueira quando, discordando da opinião dominante, dizia que a AIDS me era mais uma invenção biopolítica e uma grande indústria lucrativa assim como tantas outras “doenças”. Dizia isso usando-me do próprio pensamento, isso mesmo, pensar, atividade que quase não se faz hoje em dia! Pensando com elementos foucaultianos. Não me era algo de interesse ou de pesquisa.

E então fico tremendamente alegre – acho que me teria sido mais incrível se eu viesse a saber disso em tempos anteriores! – com a proposta de Peter Duesberg que em tempos onde a AIDS estava em evidência, talvez até mais do que hoje, publicou o livro Inventando o vírus da AIDS (1996) no qual sustenta que o HIV é inofensivo e as drogas utilizadas para o tratamento (especialmente o AZT) são causas para a doença – entre outras hipóteses. Há inclusive uma entrevista dada por ele à Revista SuperInteressante em 2000!  Vale a pena conferi-la >>

Atualmente o foco das “novas doenças” parece que está voltado para a indústria psiquiátrica com os seus produtos que atendem pelo nome de TDH e derivados da depressão. E é lamentável o tanto de gente,que supostamente deveria ter mais qualificação para lidar com os saberes, mas acaba reproduzindo os discursos, agindo como verdadeiros agentes de difusão – e são muito efetivos! – desses novos… produtos.

Toda contra-história da filosofia sabe que a ciência é um grande senso comum – mas não digam isso por aí de qualquer maneira, trata-se de um riso cínico e nietzschiano que conservamos para não espantar as forças alegres do pensamento.

A potência da beleza: o canto dos pássaros na presença da aurora

francisbacon_mulhersentadaCláudio Ulpiano, para explicar a potência não orgânica da vida, usa-se de um exemplo belíssimo a partir de um músico chamado Olivier Messiaen. Os pássaros possuem um órgão chamado siringe, o que dá a esses voadores uma beleza muito mais sofisticada ao canto se comparado ao homem. Ulpiano diz que o canto dos pássaros são ondas que percorrem o corpo, quando esses fluxos transbordam os limites do corpo estamos diante de um corpo sem órgãos. Vejam que beleza!

O músico Olivier identificou quatro maneiras do canto dos pássaros.

1. Grito de alarme
Quando um pássaro se depara como uma força destruidora, uma cobra, por exemplo, ele produz um canto que é muito alto – para ser ouvido na floresta que é pura algazarra diz Ulpiano -, esse canto é identificado, como de alarme, por todos os pássaros, não necessariamente precisa ser da mesma espécie.

2. Cantos da primavera
Aqui acontece os cantos de amor, os galanteios, os cantos que os machos (eles que produzem a maior parte desses cantos) produzem para atrair as fêmeas e se acasalarem. Cada primavera eles inventam um canto novo, o que faz da alma dos pássaros uma alma de ritmos, diz-nos Ulpiano, novamente, com a sua incrível capacidade de embelezar as coisas.

3. Canto territorial
São cantos que os pássaros produzem para demarcar território, são funções que pressupõem a produção de um território. Trata-se de uma potência orgânica do pássaro que tem que produzir seu território cantando.

4. Aqui é onde a beleza transborda. Ulpiano diz que quando os pássaros se confrontam com as belezas cromáticas – a aurora e o crepúsculo, por exemplo -, as ondas sonoras se assemelham a um grito dentro da tela, uma tela de Francis Bacon por exemplo. Diante do silêncio absoluto de uma aurora, mas de uma beleza extraordinária, o pássaro, diante dessas forças insonoras, torna-as sonoras, o que ele está fazendo é tornar visível o invisível, o que muitos artistas fazem. Aqui estamos diante da potência inorgânica da vida.

Para acessar a aula do Cláudio Ulpiano na integra clique aqui.

Quem nunca contemplou um céu estrelado, sob um silêncio absoluto, e foi atravessado por forças intensas? Pascal dizia que quando contemplava o silêncio eterno dos espaços infinitos se assustava, imagino como Pascal se sentia nesses instantes diante dos fluxos que atravessam o corpo – um corpo que é transbordado pela beleza.

A beleza está silenciosamente pela vida, quando ela nos atinge os limites do nosso corpo sempre são ultrapassados, transbordamo-nos, acontecemos enquanto um corpo sem órgãos, não mais costurado às funções de um organismo ou ao utilitário da vida orgânica, mas acontecendo em um tempo puro, em uma potência não orgânica da vida. Atingidos pelas forças da beleza somos interpelados a produzir um grito para dar conta dos fluxos, nem sempre conseguimos produzir cantos como os pássaros e tornar visível o invisível, às vezes gritamos em silêncio e o invisível permanece invisível mesmo, mas de maneira alguma saímos indiferentes.

Às vezes não conseguimos gritar no momento, ficamos mudos, pode ser ainda que, silenciosamente, na rouquidão do dia a dia, vamos produzindo ondas que um dia poderão virar canções. Pode acontecer ainda de nos enlouquecermos…

Rosto sem Eu

O rosto fala, se comunica, diz, escuta, posiciona, identifica, marca. Um rosto comandado pelo Eu é um rosto que se comporta. Esse rosto nos captura na medida em que está ancorado sobre significações, o outro recebe essas significações e nos devolve um comportamento, e assim vamos nos comportando, todos presos nos sentidos.

Mas quantos rostos há em um rosto? Muitos outros rostos possíveis, rostos que nos impactam pela beleza ou pelo terror, que nos assombram porque não conseguimos identificá-los, e, no entanto, muita coisa se passa. Pode se viver a eternidade nos traços de um rosto. Um rosto pode ser um labirinto do tempo do qual nos perdemos enquanto tentamos nos tocar com os olhos. Um rosto que não está se comportando pelo Eu, um rosto que se desfez das coordenadas significantes-significados impacta de imediato, sentimos suas forças nos puxar, desde que nós mesmos não estejamos tão atolados nos pântanos do verbo.

Mundos belíssimos e mundos terríveis podem se passar por um rosto sem Eu. O olhar se prostra. Tantos rostos possíveis… Em meio ao grande rosto-econômico da multidão procuro por rostos-pulsão, rostos-afectivos, rostos sem Eu. Sentir-se puxado por essas forças é algo indescritível. Esses rostos são capazes de abrir bosques em meio a cinza morte do concreto civilizatório.

O cinema pode nos proporcionar esses momentos terríveis. Em O homem de Londres (A Londoni Férfi) de Béla Tarr perdi-me em Henriette (Érika Bók). Seu rosto está a meio termo do comportamento e dos afetos, um rosto-pulsão carregado de um sofrimento que o Eu não responde mais, o sofrimento se desfez da biografia pessoal para mostrar-se enquanto força, há muita beleza e muito horror percorrendo a geografia do rosto de Henriette, no entanto, um labirinto cuja doce atração faz nosso próprio rosto se desfazer de suas roupas.

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