A potência da beleza: o canto dos pássaros na presença da aurora

francisbacon_mulhersentadaCláudio Ulpiano, para explicar a potência não orgânica da vida, usa-se de um exemplo belíssimo a partir de um músico chamado Olivier Messiaen. Os pássaros possuem um órgão chamado siringe, o que dá a esses voadores uma beleza muito mais sofisticada ao canto se comparado ao homem. Ulpiano diz que o canto dos pássaros são ondas que percorrem o corpo, quando esses fluxos transbordam os limites do corpo estamos diante de um corpo sem órgãos. Vejam que beleza!

O músico Olivier identificou quatro maneiras do canto dos pássaros.

1. Grito de alarme
Quando um pássaro se depara como uma força destruidora, uma cobra, por exemplo, ele produz um canto que é muito alto – para ser ouvido na floresta que é pura algazarra diz Ulpiano -, esse canto é identificado, como de alarme, por todos os pássaros, não necessariamente precisa ser da mesma espécie.

2. Cantos da primavera
Aqui acontece os cantos de amor, os galanteios, os cantos que os machos (eles que produzem a maior parte desses cantos) produzem para atrair as fêmeas e se acasalarem. Cada primavera eles inventam um canto novo, o que faz da alma dos pássaros uma alma de ritmos, diz-nos Ulpiano, novamente, com a sua incrível capacidade de embelezar as coisas.

3. Canto territorial
São cantos que os pássaros produzem para demarcar território, são funções que pressupõem a produção de um território. Trata-se de uma potência orgânica do pássaro que tem que produzir seu território cantando.

4. Aqui é onde a beleza transborda. Ulpiano diz que quando os pássaros se confrontam com as belezas cromáticas – a aurora e o crepúsculo, por exemplo -, as ondas sonoras se assemelham a um grito dentro da tela, uma tela de Francis Bacon por exemplo. Diante do silêncio absoluto de uma aurora, mas de uma beleza extraordinária, o pássaro, diante dessas forças insonoras, torna-as sonoras, o que ele está fazendo é tornar visível o invisível, o que muitos artistas fazem. Aqui estamos diante da potência inorgânica da vida.

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Quem nunca contemplou um céu estrelado, sob um silêncio absoluto, e foi atravessado por forças intensas? Pascal dizia que quando contemplava o silêncio eterno dos espaços infinitos se assustava, imagino como Pascal se sentia nesses instantes diante dos fluxos que atravessam o corpo – um corpo que é transbordado pela beleza.

A beleza está silenciosamente pela vida, quando ela nos atinge os limites do nosso corpo sempre são ultrapassados, transbordamo-nos, acontecemos enquanto um corpo sem órgãos, não mais costurado às funções de um organismo ou ao utilitário da vida orgânica, mas acontecendo em um tempo puro, em uma potência não orgânica da vida. Atingidos pelas forças da beleza somos interpelados a produzir um grito para dar conta dos fluxos, nem sempre conseguimos produzir cantos como os pássaros e tornar visível o invisível, às vezes gritamos em silêncio e o invisível permanece invisível mesmo, mas de maneira alguma saímos indiferentes.

Às vezes não conseguimos gritar no momento, ficamos mudos, pode ser ainda que, silenciosamente, na rouquidão do dia a dia, vamos produzindo ondas que um dia poderão virar canções. Pode acontecer ainda de nos enlouquecermos…

Rosto sem Eu

O rosto fala, se comunica, diz, escuta, posiciona, identifica, marca. Um rosto comandado pelo Eu é um rosto que se comporta. Esse rosto nos captura na medida em que está ancorado sobre significações, o outro recebe essas significações e nos devolve um comportamento, e assim vamos nos comportando, todos presos nos sentidos.

Mas quantos rostos há em um rosto? Muitos outros rostos possíveis, rostos que nos impactam pela beleza ou pelo terror, que nos assombram porque não conseguimos identificá-los, e, no entanto, muita coisa se passa. Pode se viver a eternidade nos traços de um rosto. Um rosto pode ser um labirinto do tempo do qual nos perdemos enquanto tentamos nos tocar com os olhos. Um rosto que não está se comportando pelo Eu, um rosto que se desfez das coordenadas significantes-significados impacta de imediato, sentimos suas forças nos puxar, desde que nós mesmos não estejamos tão atolados nos pântanos do verbo.

Mundos belíssimos e mundos terríveis podem se passar por um rosto sem Eu. O olhar se prostra. Tantos rostos possíveis… Em meio ao grande rosto-econômico da multidão procuro por rostos-pulsão, rostos-afectivos, rostos sem Eu. Sentir-se puxado por essas forças é algo indescritível. Esses rostos são capazes de abrir bosques em meio a cinza morte do concreto civilizatório.

O cinema pode nos proporcionar esses momentos terríveis. Em O homem de Londres (A Londoni Férfi) de Béla Tarr perdi-me em Henriette (Érika Bók). Seu rosto está a meio termo do comportamento e dos afetos, um rosto-pulsão carregado de um sofrimento que o Eu não responde mais, o sofrimento se desfez da biografia pessoal para mostrar-se enquanto força, há muita beleza e muito horror percorrendo a geografia do rosto de Henriette, no entanto, um labirinto cuja doce atração faz nosso próprio rosto se desfazer de suas roupas.

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Vida trapo

Luzes brancas acesas, muito brancas. Liga o computador, outro computador ligando, liga outro. Liga a impressora, outra impressora, desenrola o fio. Liga, liga, liga. O café está pronto. Alguém busca o jornal na portaria. Telefone toca, atende. Toca de novo, aten… toca de novo. Liguem o ar, tá calor! Belas pernas essa cliente tem, o rosto muda. Olá tubo bem, como posso ajudá-la? Um visto aqui por gentileza, isso, prontinho. Telefone toca, toca, toca, toca, toca, para de tocar. Buzinas lá fora, o trânsito parou. Calor, calor, calor. Bunda cansada na cadeira. Cliente com pernas feias, traz muitos papéis e senta. Boa tarde! O rosto endurece. Assina aqui! Só aguardar! Tchau! Banheiro. Alguém jogou papel fora do lixo, um filho da puta. Volta pra cadeira, senta, costas doendo. Sede. Preguiça de buscar água. Telefone toca, toca, atende. Um minuto, vou transferir. Alô? Oi quem fala? Tudo de novo. Abre a pasta, joga a pasta de volta. Esconde na gaveta. Esse aí rasga e joga. Não, esse cliente não é interessante. Esse outro aí da última vez estava com bafo. Lucro e vantagens. Não vou retornar. Dentes brancos à mostra. Sorriso. Falsidade. Máscara, muitas máscaras. O dólar subiu novamente. Eu vi. Chato, ia comprar um celular novo, agora está caro. Elevador sobe. Elevador desce. Elevador sobe, sobe, desce, sobe, desce, desce, sobe. Os olhares se cruzam. Constrangimento. Silêncio. Nossa, que calor, será que chove hoje? Celular toca. Ufa. Oi Lu, tudo bem? Tudo, que bom. Então, tá tudo bem mesmo? Legal! Beijo. Homens de terno e gravata sobem e descem elevadores. Gravatas vermelho-escuro. Dica do marketing. Regras sociais. Capitalização do corpo. Homens de terno e gravata entram e saem de carros. Homens com seus pequenos caixões-diários. Vou até o banco e já volto. Senha. Fila. Fila especial. Espera, espera, espera. Liga e desliga o celular. Abre um aplicativo e o fecha em seguida. Abre e fecha. Mexe, mexe, mexe, mais um velho idiota na fila. Já depositaram o pagamento, acabei de ver! Oba, preciso pagar meu cartão, acredita que gastei mais de 600,00 esse mês? meu marido quer me matar! Ah, e eu então, tenho a prestação do carro pra pagar. Oi senhor, o que deseja? Não, ainda não ficou pronto. Está para ficar pronto, uns… cinco dias. Liga tá, semana que vem, obrigado, tchau. Pés dormentes. Abre o email. Nenhuma mensagem. Abre o facebook, rola, rola, rola, nada. Vazio. Uma mensagem. O rosto se dissolve. Ah, esse idiota! O rosto encrespa. Levanta. Toma um café. Muito açúcar no café. Coração tedioso. Telefone toca, toca, toca. Não atendo, levantei agora! Atende que eu acho que é aquele cara que ficou de retornar para fechar o negócio. Saco! Alô? Hora do almoço. Calor. Restaurante lotado, cheiro de gordura. A porra do ar não está funcionando! Come. Não sabe o gosto. Mexe no celular, abre e fecha aplicativo. Liga a tela. Desliga a tela. Liga novamente. Uma hora. Senta na cadeira. Preguiça. Corpo sentado ou em pé. Luz branca, muito branca. Toma uma água. Por favor… dá licença. Como foi o almoço? Telefone toca. Cliente entra. Celular toca. Boa tarde, o sr. Luis Carlos por favor? É ele. Tudo bem sr. Luis Carlos, devido a fidelidade do senhor estamos oferecendo um cartão especial onde o senhor poderá realizar… Rosto encrespa. Cliente gostosa. Rosto dissolve. Que pernas! Olá, boa tarde! Posso ajudá-la? Cara da manutenção do ar na porta. Pode entrar. Espera aí, aí não, aí ó, do outro lado, isso, já te chamo. Senhorita, você gostaria de tomar um cafezinho enquanto conto as vantagens que estamos oferecendo esse mês? Bípede de terno e gravata. Lucro, lucro, lucro, lucro. Bípede de salto alto. O calor tropical rindo lá fora dos idiotas de cu branco escorrendo suor aqui dentro. Todos escondem bem. Mas a porra toda tem que sair por algum lugar. Fim do expediente. Embora já! O corpo está como pedra. Corpo se arrasta. Preciso passar na farmácia. Remédio pra dor de cabeça por favor. Me dá um anti-inflamatório também. A cabeça dói. Maldito semáforo, logo na minha vez. Chega em casa. Janta, banho. Televisão. Parceiro chega. Não tem parceiro. Televisão. Família, família, família, família, subornos, muito suborno. Repetição.  Hábitos e deveres. Jantar. Barulho de talheres tilintam no prato. Rostos em silêncio. Tédio. Amanhã é terça. Trabalho. Emprego. Lucro. Vantagem. Representação. Sistemas de dominação e obediência. Morte, morte, morte, morte, morte… MORTE.