Paul Cézanne e o movimento da vida

Entre as várias impressões, sensações e pensamentos que uma obra de Paul Cézanne pode desencadear, convém-me como destaque, principalmente nas suas pinturas de paisagens, o retrato de um mundo não como objeto, mas como o próprio tudo. Abaixo, vemos pinturas onde não há distinção entre sujeito e objeto, mas um cenário com coisas que é o próprio mundo em sua total integração – não falo aqui daquela integração das partes tal como fala o misticismo dentro de uma perspectiva harmônica, mas um todo que já é o próprio isso-aí e não poderia ser de outra maneira [separada].

Para Merleau-Ponty as obras de Cézanne aparecem como fundos de natureza inumana onde não há movimento: sem vento, sem água, lago sem vida, no limite, o filósofo consegue ver um mundo sem vida! Ora, percebo justamente o oposto nas obras de Cézanne: nesse tudo silencioso grita o movimento da vida. O lago, o céu, a montanha, as árvores, as folhas, os homens… tudo em movimento e indissociáveis do mundo: vontade de potência!

Se a pintura de Cézanne revela também um fundo de natureza inumana aos olhos de Merleau-Ponty e que é devolvido sua humanidade pela captação do pintor, é necessário que esta seja vista antes sob um olhar dissociante e quebradiço do mundo em coisas e homens, sujeitos e objetos, nesse caso, vê se com um “Eu” e não com o corpo-pensamento. Bem se sabe o quanto o pensamento corre do mistério e do nada para o ventre apaziguador de produção de ideias.

O olhar separatista do Eu diante do Mundo é incapaz de perceber o mundo próprio tal como é transbordante de encanto e espanto mas nunca familiar, o familiar só pode surgir através de um pensamento seguro de si mesmo, porque até este pode virar terror e esplendor quando se volta contra si mesmo. Sequer esse mundo captado por Cézanne em obra de arte, portanto, real que se sabe ilusão, pode ser somente visto pela perspectiva do que nos é familiar, é também uma das muitas possíveis perspectivas de captar a perplexidade da existência. “Só um humano, contudo,” pode sim dar familiaridade ao mundo, mas também dar perplexidade ao que é “familiar”.

Vivemos em meio aos objetos construídos pelos homens, entre utensílios, casas, ruas, cidades e na maior parte do tempo só os vemos através das ações humanas de que podem ser os pontos de aplicação… A pintura de Cézanne suspende estes hábitos e revela o fundo de Natureza inumana sobre a qual se instala o homem… a paisagem aparece sem vento, a água do lago sem movimento, os objetos transidos hesitando como na origem da Terra. Um mundo sem familiaridade… Só um humano, contudo, é justamente capaz desta visão que vai até as raízes, aquém da humanidade constituída… O artista é aquele que fixa e torna acessível aos demais humanos o espetáculo de que participam sem perceber. [Merleau-Ponty. A dúvida de Cézanne.]

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