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Pensamentos e conteúdos, espontâneos, poéticos ou filosóficos advindos das inquietações do autor.

A psicoterapia

Acredito que a psicoterapia alcança sua potência quando ambos conseguem ficar em silêncio confortavelmente. Cessar a tagarelice, rir de Édipo e toda hermenêutica ocidental que nos interpela por uma resposta. Basta, basta de perguntas e respostas. Basta de motivações. Basta de um ego pretenso às suas incansáveis justificativas e seus intermináveis sentidos narcísicos. Dor e sofrimento são contingentes, apesar de tudo. Você e eu, nós, ninguém é especial. 

Pensamentos – 01

Nós somos grandes construtores de mundos e situações para além do aqui e agora. É bom para sonhar e fantasiar, mas não tem sido por isso. Inventamos mundos, na maioria das vezes, construídos com má-fé e medo. O medo é sempre um mundo imaginado.

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A ditadura do sorriso esconde tantas outras belezas, tantas feições, bocas e olhares de doce maldade.

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“Todo Mundo” ou “Ninguém” é assim, faz isso ou aquilo, pensa dessa ou daquela maneira. O “Todo Mundo” e o “Ninguém” estão por toda parte, mas nunca nos apresentaram não é mesmo? Sabe quando se quer justificar algo, fazê-lo justificável e legítimo? Chamam logo o “Todo Mundo” e o “Ninguém”. “Todo Mundo” e “Ninguém” são os personagens favoritos que usamos para articular a própria má-fé ou inventar justificativas à própria razão.

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São pequenos detalhes que podem nos salvar no dia a dia. Não espere por uma revolução. Às vezes basta um olhar complacente, uma voz doce e suave para nos livrar de tanta maldade no mundo.

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Com a lucidez ou a ampliação de um conhecimento filosófico a chance de ficarmos com raiva do mundo aumenta exponencialmente, pois o que antes era legítimo, inocente ou natural passa a ser visto como produto de relações de forças que denunciam relações de dominante-dominado, enfim, dominação. Por outro lado, também é possível ampliar nossas possibilidades para enfrentar os poderes que aviltam a vida, experimentar uma maior liberdade de existir e com isso expandir nossa capacidade de sentir. A Filosofia – e também a Psicologia – não devem prometer que seremos mais felizes, mas que seremos capazes de sentir mais.

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Quem nunca teve grandes desilusões na vida? Uma paixão não correspondida pode trazer muito sofrimento, contudo, pode nos trazer grandes experiências, até mesmo nos transformar em filósofos, poetas, pintores, músicos. Os gregos antes de Sócrates sabiam bem do que a paixão era capaz. Desilusões? Dóem, e muito, mas podem nos levar a alçar voos nunca antes imaginados.

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A mídia é um elemento essencial para controlar, disciplinar e docilizar nossos corpos e almas. Despejar taxas de violência na sociedade, criando assim um estado de medo, faz a vida ser temida e desacreditada. Biopolítica para manter a carência dos afetos, a falta, a impotência. É necessário conhecer bem como funciona a maquinaria da informação global para não sermos escravizados pela notícia.

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Proibido? Que nada, isso é careta! Saímos da era da proibição para entrar na era do dever.

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As palavras escondem muitas relações. De escravos a servos, de servos a empregados, de empregados a colaboradores. Vão sendo trabalhadas pelo cinzel da exploração conforme o que se pretende passar. É verdade, o colaborador não está sob o chicote, ao menos aquele que é físico e ecoa seus silvos pelos ares.

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Foucault dizia que nossas instituições são de sequestro. Sequestram não para excluir, mas incluir. É importante manter as pessoas em programas de vida já instituídos. É em nome do bem que a família quer enclausurar o louco, será mesmo? As instituições sequestram nosso tempo e nossa energia, torna-nos dóceis dentro de nossas confortáveis salas equipadas com TVs grandes e brilhantes. É necessário ter cuidado com tudo que vem em nome do bem, afinal, bem para quem? Foi em nome do bem e do progresso que os índios foram dizimados pelos colonizadores.

A ordem do mundo tem sido tal, que…

kandinsky_gugg_0910_33A ordem do mundo tem sido tal…
Poder, dinheiro e reconhecimento social.
A imbecilidade do mundo tem sido tal…
Selfies, lugares e pratos recomendados pelo cheff para dizer o quanto se é importante.
O nojo de existir às vezes é tal…
Os mais ricos cabem em um ônibus de dois andares, a miséria perde-se em extensão e horror.

… tem sido tal que os sonhadores e os rebeldes têm que criar seus pequenos mundos para continuar sentindo o frescor da alegria, ainda que os tempos seja de sufocante tristeza. Eles costumam praticar alpinismo com o pensamento, pensam, ao invés de se contentar com o já pensando, e então, o que antes era tido como natural e legítimo passa a evidenciar terríveis relações de dominação. A lucidez provoca abalos existenciais, e essas almas se entristecem.

Essas almas, quando já venceram tantos e tantos cumes do pensamento, não se apaixonam por promessas de status social, mas se apaixonam pela dança das folhas secas quando os ventos cantam sob uma noite de tímida lua. Elas não se interessam por grandes carreiras e nem faz do dinheiro um sonho de vida, pois as coisas que lhe são mais valiosas não têm valor financeiro, como por exemplo, a capacidade de criar e sentir. Essas almas não estão em evidência, não frequentam programas de auditório e nem os lugares mais bem avaliados, por vezes não frequentam nem o próprio círculo familiar e costumam ser mal avaliadas pelo campo social, mas por conhecerem os podres poderes e a ordem do mundo como tal não se implicam com a implicância do outro.

As grandes dores dessas pessoas nada têm a ver com questões pessoais. Se o outro não o ama, isso é irrelevante. Se o vizinho não o cumprimenta, isso é irrelevante. Se o outro lhe corta a frente no trânsito isso é irrelevante para fazer discursos do quanto a culpa e o erro são sempre do outro. Essas almas não se entristecem com a queda das ações da Petrobrás, mas se entristecem com passarinho que está morrendo com o corpo encharcado de petróleo sem conseguir levantar voo. Seus incômodos se devem ao esmagamento diário da vida, a percepção de uma condição humana feita trapo e escravidão legitimada, as sutis e as escancaradas formas de dominação e violência em todas as áreas. E talvez, a dor maior, aquela de que tais condições têm se cristalizado como legítimas e naturais.

Às vezes é difícil demais, parecem tão a sós diante dos podres poderes do mundo que… E a ordem do mundo tem sido tal… E a imbecilidade do mundo tem sido tal… Tem sido tal que essas pessoas, para não serem dominadas pela tristeza, criam pequenos mundos com pedaços de poesia. São catadores de detalhes captados por olhares atentos à beleza que escapa em veios de terra dominada e guerreada, com isso criam artilharias e máquinas de guerra para continuarem sentindo a vida pulsando em um mundo de dominação. Essas pessoas fazem festa com música e sorriem aos próprios delírios. São capazes de se alegrar com pequenos detalhes. Um olhar e uma voz doce que se reencontra, o silêncio e a boca de quem se gosta, uma planta que cresce em vaso que fica em cima da pia e até com o sabor de água gelada em um dia de sol muito quente.

Suicidar-se de alegria

Um corpo que se mexe, engraçado. Um corpo que realiza, engraçado. Um corpo que tem energia, engraçado. Um corpo animado que a qualquer momento pode se transformar em coisa inerte, desesperador. Em cada corpo com vida um algo de querer. Em cada vida uma sentença.

Quando criança não pensava que morrer acontecesse com ele, logo ele, não, morrer é para os outros, os velhos e os doentes. Depois descobriu que morrer também era para si, morrer era para si mas ainda não era uma morte. Morrer era algo muito muito muito distante, aconteceria depois que estivesse enjoado e já tivesse feito tudo que tinha que fazer, soltar pipas, jogar pião, beijar, vestir um terno e uma gravata, trabalhar, ganhar dinheiro, virar avô… pobre criança! Tão tolamente aconchegada enquanto sentia os mortos do mundo. E via. Via e ouvia. Ouvia tiros na madrugada, sabia que alguém acabara de ter sido morto na esquina do bar como de costume. Achava estranho, mas não se assustava, afinal, morrer era para os outros. Via a guerra na TV e achava legal aqueles aviões e tiros e bombas e construções destruídas e feridos e gente fugindo e no fundo sentia um calafrio de que o mundo era um lugar muito estranho.

Morrer acontece. A gente só sabe que vai morrer, saber que vai morrer é assim, saber pelo verbo, pelo conceito, pelos outros que morrem. Só saber que vai morrer. O saber que vai morrer é o saber mais inofensivo que tem. O paradoxo é que só saber que vai morrer expressa o nosso maior desconhecimento.

Não acho natural morrer. E nem quero morrer. Não querer morrer não é que não se vai morrer, não querer morrer é ter a força de uma alegria suficiente para tirar a própria vida. Eu sei que muitas pessoas censuram esses pensamentos, é porque elas nunca sentiram o que é transbordar de vida, nunca sentiram o corpo vibrar em uma frequência tão próxima da vida que se é capaz de sentir vibrando em consonância com os astros. Essas pessoas estão mortas há muito tempo, isso não é desmerecimento, até eu morri, e morri muitas e muitas vezes até me sentir vivo, e mesmo sentindo vivo eu ainda sou capaz de morrer.

Em geral somos mortos depois dos nossos primeiros anos de vida, alguns poucos conseguem ressuscitar para a vida, para isso é necessário ter a coragem do pensamento. Estou falando de outro pensamento, não esses que vamos coletando ao longo da vida através dos outros, estou falando de um pensamento móvel, um pensamento que se descobriu estar limitado pelos muros dos outros e então criou brechas para sentir o que estava fora das paredes, e fora das paredes percebeu coisas de tirar o fôlego. Lá fora há um Fora, lá não há muros, então pode ser que nunca mais se consiga voltar, mas em geral volta, mas jamais a vida no lado de dentro será a mesma. Dentro? O dentro é a sala de estar da civilização, pode parecer imensa, mas jamais sem limites.

Falei de “dois tipos” de mortes. É difícil escrever sobre coisas que não são coisas. E morte nem é morte, esse nome é só um nome, o mais importante é conseguir tatear. Tatear… sabe, algo como sentir os gritos das moléculas? Lá no Fora não tem nomes, lá a gente tateia, sente, lambe, morde, escuta, vê, percebe.

Morte não é tudo igual. Mas muita gente parece ser tudo igual quando é morte, vai se afastando logo quando escuta esse nome. É porque isso borra, e muito, a maquiagem que se demora tanto tempo para criar uma personagem que pareça feliz. Eu poderia usar outro nome, e prefiro, para chamar a morte, porque morte é um nome com muitos preconceitos. Gostaria de chamar a morte de sussurros sobre a vida. Foram tantas as vezes que morri, e em tantas vezes escutei os sussurros sobre a vida, foram esses sussurros me faziam a vida surgir de maneira mais renovada. E se algum dia eu morrer e deixar de escutar os sussurros da vida quero que meu último lance seja um transbordamento de desespero com coragem e com alegria suficientes para terminar com a minha própria vida. “Suicidou-se de alegria”, é uma pena que os humanos ainda sejam incapazes de compreender as centelhas que estão presentes nesta frase. 

Enfim, não quero morrer.