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Textos e artigos sobre comportamentos; psicanálise freudiana, existencial e ciência do comportamento (Behaviorismo Radical).

O fascismo do outro – e o nosso?

As minhas experiências em análise do caráter convenceram-me de que não existe um único indivíduo que não seja portador, na sua estrutura, de elementos do pensamento e do sentimento fascistas.

O fascismo como um movimento político distingue-se de outros partidos reacionários pelo fato de ser sustentado e defendido por massas humanas.

Estou plenamente consciente da enorme responsabilidade contida nestas afirmações. Desejaria, para bem deste mundo perturbado, que as massas trabalhadoras estivessem igualmente conscientes da sua responsabilidade pelo fascismo.

Psicologia de massas do fascismo – Wilhelm Reich

A surdez do divã

Um amigo comentou que não estava gostando da psicanalista pois sentia que ela não conseguia se aproximar do que ele dizia, devolvendo-lhe significados dos quais ele sentia pouca ressonância com aquilo que tentava, com dificuldade, expressar.

Apesar de muitos aspectos estarem presentes numa relação terapêutica que a configura como única, há um certo fundo aí que é muito próprio da psicanálise – e de forma geral, de todas as psicoterapias que de alguma maneira se sustentam por um método colado num grande muro que devolve significados a partir de um sistema regulado pela produção do mundo em linguagem, um mundo que é humano, demasiadamente humano – utilizando-me de uma bela expressão nietzschiana -, para efeito desse texto irei chamar esse mundo de orgânico ou mundo da realidade comum.

Deleuze e Guattari provocavam, com o humor que lhe são característicos, que diante do psicanalista tem se a impressão de falar, mas na verdade o que ocorre é que nunca falamos. Estão a nos remeter a um inconsciente psicanalítico humanizado e representativo que contém os elementos constitutivos da história pessoal do sujeito, bastando para isso, através da linguagem, organizá-lo. Caberia ao psicanalista ajudar o sujeito a decifrar a verdade sobre si, em outras palavras, colocá-la em linguagem.

Ora, no fundo do inconsciente psicanalítico sempre haverá um enredo originário com três personagens principais, papai, mamãe e o próprio sujeito. É a partir dessa cena que todo discurso da verdade de si é relacionado, daí que se tem a impressão de falar, só a impressão, porque na verdade toda produção expressiva que é incrivelmente múltipla e rica vai ser esmagada, ou, para usar um termo que é muito caro à psicanálise, castrada, em algum momento.

Édipo é a força gravitacional que arrasta toda matéria molecular expressiva para a cama materna e se dá conta que está sob os olhos do Pai: a partir daí nunca faltarão fantasmas para a construção de uma história pessoal. E uma história pessoal, apesar de única, é sempre construída a partir de fantasmas, sentimentos, emoções, grandes sofrimentos, dores, alegrias e figuras parentais, e nessa realidade está o próprio sujeito que busca ser o herói – toda história pessoal busca ser elogiosa para si ainda que pela provação de si. Aqui dois parênteses: todos os livros best-seller giram em torno desses elementos, são psicanalíticos por excelência; e toda história pessoal nos tende a enredos com segredinhos e paranoias. Continue lendo

Preste atenção na sua comunicação

Boa parte dos conflitos entre as pessoas decorrem de jogos de diálogos vazios e  não esclarecedores. A falta de uma comunicação efetiva atravessa boa parte das relações. Refiro-me principalmente às nossas conversas em relacionamentos com grau de amizade variados à conversações com pessoas desconhecidas, visto que em família as situações são mais complexas e nem sempre dependem apenas da comunicação. Tagarelamos demasiadamente em volta do nosso umbigo, e pouco sabemos conduzir uma situação de desentendimento a uma experiência de crescimento interpessoal. No trabalho, nas escolas, nos demais espaços da cidade o que é mais comum de ver nas conversas conflitantes é uma disputa de acusações e julgamentos um sobre o outro. Imaginemos dois bons amigos no exemplo abaixo:

– Não gostei da maneira que você falou comigo. Foi grosso e inoportuno.
– Você mereceu! Queria o que, que lhe passasse a mão na cabeça?
– É perda de tempo falar com você já que não aceita os fatos.

Não é difícil imaginar que essa conversa não iria levar a nenhum lugar de entendimento, pelo contrário, as acusações aqui iriam continuar até que um abrisse mão da amizade do outro. O tom da conversa gira em torno de acusações e julgamentos ofuscando qualquer tentativa de abertura de possibilidades para que ambos busquem entender o que ocorreu e superar o conflito. Lamentavelmente nós podemos até compreender racionalmente que as pessoas podem ter pensamentos, sentimentos e sentidos diferentes para uma mesma situação, mas não vivemos isso. Vamos falando do outro a partir da nossa experiência, e aí não é difícil imaginar que grande parte dos desentendimentos se dão por bobagens de comunicação.

Uma maneira mais produtiva de encarar a situação anterior poderia ocorrer mais ou menos assim:

(A) – A maneira que você falou comigo me chateou. Senti um pouco de grosseria na situação e achei que o momento não era adequado.
(B) – Você mereceu! Queria o que, que lhe passasse a mão na cabeça?
(A) – Então me ajude a entender por que eu mereci que as coisas se dessem daquele jeito.

Não quer dizer que o final dessa conversa será positivo, é possível perceber que o interlocutor A está tentando levá-la para um nível mais produtivo onde as trocas de sentidos possam ser colocadas à mesa para serem verificadas. De imediato o interlocutor B resiste (Você mereceu!…) e novamente A tenta dar prosseguimento a um diálogo mais aberto, em detrimento, do que seria mais comum, responder de maneira defensiva-agressiva. Nem sempre a outra pessoa irá acatar a nossa disposição de imediato, às vezes é preciso insistência, às vezes não vai ter acordo mesmo. Não se trata de querer ser mais ou menos amigo das pessoas ou responder à qualquer protocolo de boa conduta dos mais variados que se oferecem por aí, trata-se de uma ética mais qualificada consigo mesmo. É uma grande tolice imaginar que se ganha alguma coisa quando se dá a última palavra e o outro desiste “mansamente” e você fica imaginando o quanto ele está arrasado – pode se sair mansamente com o riso nos lábios…

Apenas como consideração, é fundamental também considerar com que corpo você falou. Em outras palavras, com que cara, com que boca, com que olhar, com que modo… se falou algo – não dá para desconsiderar os gestos, humores e disposições que maestram nossos diálogos. Vale a pena se atentar!

Situações de conflitos geram afetos negativos para ambos, para além de “ganhar uma briga” está um compromisso com a vida – de que maneira os afetos gerados nessa situação poderão diminuir a minha potência de vida?

Muitas vezes depois do desentendimento as pessoas se evitam umas às outras mas ambos lamentam as coisas positivas que perderam com a amizade. Penso que o mais importante é perceber o quanto o funcionamento social pode nos influenciar com seus valores competitivos a cristalizar cada vez mais um modo de vida fascista em cada um de nós – “implantando” em cada um de nós um modo quase que automático de agir com alguma forma de agressão diante do outro que nos desagradou. Ao invés de julgar as pessoas porque elas agiram ou lhes disseram algo que lhe desagradou experimente descobrir como será que elas vêem o mundo de forma que o ponto de vista delas faça sentido.

Permita-se refletir um pouco sobre sua comunicação. Talvez ela esteja contribuindo para fechar muitas portas. É possível melhorá-la!

“Não existe psicanálise sem divã”

“Se o paciente fosse visto, em vez de apenas ouvido, reprimir se faria termo impróprio. Usar-se-iam com certeza conter-se, coibir-se, controlar-se, segurar-se, disfarçar…”(J.A. Gaiarsa. A estátua e a bailarina)

Sábias palavras de Gaiarsa. Em psicanálise freudiana o verbo ocupa todo espaço. E são acrobacias engenhosas pois acredita que existe algo que sabe algo que você não sabe e fica ali decidindo o que deve ou não ir para as vias da expressão. Nos dias de hoje, quero acreditar, a ideia de que não existe psicanálise sem divã não faz muito sentido, mas não foi sempre assim. E não é por acaso… Quando tudo começa a se justificar em nome da técnica, quando tudo começa a se justificar em nome de defesas ou de mecanismos ocultos é preciso também discordar por outras vias. É engraçado imaginar Freud escondendo-se atrás de um divã. “Se o paciente fosse visto…”, mas o legado foi muito mais verborrágico.