Religião científica?

Uma ciência sem filosofia não sabe o que fala, pois nunca pergunta a si mesma quem é o “sujeito” que se pergunta sobre aquilo que se quer conhecer. A ciência moderna abdicou para si um mundo erigido com estruturas platônico-socráticas e a partir daí criou um mundo falsamente ordenado pela lógica.

Enquanto a ciência não se fazer saber que postula simplesmente modelos explicativos de uma experiência muito mais original que o seu objeto, ela será caduca nela mesma. Ou através de Adorno: continuará o desencantamento do mundo, esterilizá-lo de vida e torná-lo denso de razão.

O “físico” quebra o encanto do pôr-do-sol, ele faz da sua experiência com o pôr-do-sol mera questão de posicionamento da Terra com o Sol, e elabora uma sentença: o sol não se põe, pois ele está sempre parado; assim ele aprendeu em algum livro de Astronomia. Mas o físico antes de dizer isso ele tem a sua experiência com o sol, um sol que se põe, que esquenta, que alegra, que floresce, que lhe afeta com sensações de mais quente ou mais frio… O físico só pode falar do sol como objeto de sua ciência antes de ter a experiência original com o sol, e esta é espontânea, intuitiva, pré-reflexiva.

Há um abismo incomensurável entre o mundo vivido e o objetivismo científico. O cientista pode até falar de certos movimentos faciais e labiais, da laringe, ondas sonoras e elementos fisicoquímicos para descrever um sorriso, mas ele só pode fazer isso porque antes experimentou o sorriso e tem um conhecimento pré-reflexivo da sua experiência com o sorrir.

Enquanto a ciência não aceitar a volta às próprias coisas como sobrepujante às suas leis continuará sufocando a vida – que comporta caos e multiplicidade – em um recipiente experimental onde a ordem e a hipótese travestida de verdade imperam.

Com a volta às próprias coisas entende-se o retorno ao mundo vivido, inclui o homem existente com suas muitas atitudes e vivências, que experiencia ser-no-mundo antes mesmo do “sujeito cognoscente”.

Essa experiência com o mundo vivido continua sendo caracterizada pela maior parte da ciência como subjetivismo e relativismo, como se o cientista se desligasse da sua subjetividade e relatividade, se colocando “fora do mundo”, para então olhar o “objeto” e torná-lo inteligível. Ora, é claro que as ciências positivas sabem o que falam, é tudo mais do mesmo, criaram um mundo altamente ordenado e experimental com leis e diretrizes básicas, como pode deixar de ser sabido o que é da ordem habitual? – Diante do caos ou de algo que não saiu como o planejado, então eis que surge o elemento novo que levará o cientista a dizer: descobrimos algo novo e de agora em diante tal formulação será… e re-formula sua teoria.

Sua experiência trouxe uma afetação diferente diante do que ele supôs conhecido, mas tampouco ele perceberá assim, dirá que foi o avanço do seu entendimento científico que o fez chegar ao novo resultado.

Não se pode querer substituir os significados do mundo vivido do homem singular pelo sistema de significados da ciência, isso é doutrinar para a fé científica. Não é a experiência científica que sustenta a experiência mais original, pelo contrário, parte-se do vivido para depois se enredar na reflexão.

O cientificismo é uma filosofia da experiência caduco de sua própria origem. O cientista que confunde o laboratório com o mundo não passa de um perigoso especialista, um sacerdote da modernidade.

É necessário antes desconfiar dos sistemas teóricos, e não querer corrigir a experiência do homem singular a partir da teoria, o que não implica necessariamente em fazer ecletismo.

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