Arquivos da categoria: Sexualidade

Textos e artigos sobre sexualidade humana. Gênero, sexo e aspectos sociais e culturais modelando os comportamentos sexuais.

Sex shop – casa de repressão moderna

Talvez os sex shops revelem muito mais o quanto somos problemáticos em se tratando dos prazeres do que algum nível de liberdade sexual. É bem verdade: hoje temos muito mais liberdade para consumir modos de como lidar com o sexo – digamos, lidar com as posições e meios para o sexo, pois o modo dominante ainda é o fálico -, e ainda são referendados pelos chamados sexólogos, uma nova raça de padres que surgiu. 

Guerra de gêneros

Brilhantes reflexões no texto “O fantasma do amor romântico nas relações livres” do blog Amores Livres.

Acho catastrófica a “guerra” entre homens e mulheres que acredito permear de maneiras muito sutis as relações, além da sexualidade, inclusive, no contemporâneo onde se diz – apenas se diz – que somos livres sexualmente. Ainda não consegui expressar em palavras ou atingir, da forma como gostaria, algumas problematizações das relações entre homens e mulheres. Sou contra os modos difundidos pelo patriarcalismo (machismo, amor romântico, Édipo… agrupo tudo aí), mas também temerário quanto algumas outras maneiras de viver que vão se engessando como oposições, identifico aqui o que tem se chamado de movimento feminista.

É complexo falar em um movimento feminista, parece desprezar movimentos singulares de mulheres que lutam contra a dominância do gênero masculino, no entanto, um movimento feminista mais encorpado parece existir e se manifestar em uma estrutura lógica inversa. A questão não é nem machismo nem feminismo, e um pelo outro seria incorrer no perigo de engessar regimes de afetos ou modos de vidas, ainda que diferentes. Só se pode falar de um modo de vida para si mesmo, quando falamos de modos de vida em tom de querê-lo como dominante, incorremos em fascismos contra os afetos e as sensibilidades que são múltiplas.

O movimento homossexual que surgiu como uma contestação de vários modos dominantes da família burguesa hoje se manifesta mais como um movimento que clama pelo direito (“meu direito humano!”) de constituir uma família, a meu ver, também sedimentada em ideais burgueses.

De alguma maneira o texto abaixo citado toca em alguns pontos do que ainda em mim é me ainda muito complexo para puxar algumas linhas de pensamento. É preciso refletir sobre por que o sexo tem que ser assim tão determinante a ponto de clivar as relações, do meu ponto de vista, em todos os âmbitos, ou simplesmente ignorá-lo, talvez seja justamente nossas reflexões sobre o sexo que fazem de nós, ocidentais, uma civilização que faz girar discursos e práticas de si em torno da sexualidade. Por que o sexo tem que ser assim tão determinante assim? Foucault também não parava de se perguntar para problematizar muito dessa genealogia… infernal.

O sexo tem que ser assim tão determinante no grau de profundidade e no caráter geral de uma relação? Precisamos chegar ao ponto de clivar as relações entre “com sexo” e “sem sexo”, usando nomes diferentes pra cada? Por que, em vez disso, não dividimos nossas relações entre “com afinidade política” e “sem afinidade política”, ou então entre “com conversas profundas” e “sem conversas profundas”, ou ainda entre “com gosto artístico parecido” e “sem gosto artístico parecido”? Por que, acima de todas as outras características, especificamente a presença do sexo define a forma de se relacionar? – O fantasma do amor romântico nas relações livres, blog Amores Livres

A ditadura do sexo em frases e outras diatribes

A regulamentação da sexualidade consiste em retirá-lo do subsolo da desmoralização e da doença que predominou na idade moderna, sobretudo com a religiosidade e o racionalismo da ciência, e torná-la reconhecidamente uma dimensão fundamental para a saúde física e psíquica do ser humano. Contudo, com isso um império de regulamentos, significados e conceitos, acabam por desencadear configurações da moral e da ética na sexualidade que passou a ser objeto vastamente abordado e estudado. A atividade sexual de homens e mulheres passam agora a ser diferenciada de acordo com os métodos corretos que para ela se prescreve, sendo que uma característica desses métodos é disfarçadamente incluir uma prescrição de que a sexualidade não deve ser compreendida pela imposição universal, mas sim em sua singularidade. Mas, se por um lado a imposição universal sobre o sexo perdeu seu espaço para a individualidade das manifestações sexuais, cresceu consideravelmente o número de instâncias que delimitam as variadas opções de mercado à disposição para a constituição da sexualidade humana. Se é possível falar em configurações de valores até então tidos como intocáveis nas instituições da família, da divisão sexual do trabalho, das diferenças de sexo e gênero, da religião, entre outras, parece não ser possível vislumbrar mudanças radiais que tenham realmente conseguido tornar a vida sexual de homens e mulheres na sua manifestação livremente espontânea e natural que independe de qualquer justificativa senão a satisfação do prazer – certamente que a liberdade aqui também é a liberdade do outro em se opor ao meu desejo -,  pelo contrário, requer-se e demanda uma vigilância ainda maior sobre a sexualidade.

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Talvez Santo Agostinho fosse mais livre sexualmente do que os jovens de hoje que se perdem entre tantos dispositivos de regulação sexual… swing, BDSM, frotteurismo, bondage, BBW, ménage… qual distintivo vou vestir? posso misturar vários? qual deles combina mais comigo? estarei bem representado nesse grupo? – O prazer sexual independe de justificativa, porém, cria-se regulamentações para os prazeres.

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Tentar colocar a camisinha em xeque é o mesmo que tentar colocar a existência de Deus em xeque na época de Moisés e Abraão.

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À civilização, talvez o progresso da camisinha se dê quando os “pênis” passarem a ser naturalmente plastificados.

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O barulho da embalagem da camisinha sendo rasgada costuma excitar mais do que a última peça de roupa íntima que cai.

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Com licença, devo lhe tratar por homem ou mulher?

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Ninguém nasce mulher nem homem

Velazquez-Meninas As - sec 17 Simone de Beauvoir ficou famosa não só por ser uma companheira de existência de Sartre, mas também por sua obra O segundo sexo (publicada em 2 volumes), talvez uma das insuperáveis obras até o momento que trata e analisa o papel da mulher na sociedade. Certamente muito influenciada por Sartre, Simone assim inicia o segundo volume que escandalizou à sua época: Ninguém nasce mulher, torna-se mulher.

Por considerar apenas a mulher nesta frase Simone de Beauviour deu um tom ainda mais intenso ao que queria com sua obra que mais do que páginas intelectualizadas, foi um grito de mulher para mulheres contra uma sociedade machista – não superada ainda nos dias de hoje.

É perfeitamente possível ampliar a frase. Ninguém nasce homem nem mulher, torna-se homem ou mulher, ninguém nasce homossexual, heterossexual ou bissexual, torna-se homossexual, heterossexual ou bissexual. Fisicamente a mulher não nasce mais fraca que o homem e o homem mais forte que a mulher, o homem costuma ser mais forte que a mulher fisicamente não porque nasce assim, mas porque se constitui assim em sociedade: meninos e meninas são separados desde crianças, atividades físicas e intelectuais, cobranças e formas de relacionamento são devidamente constituídos e separados cada qual ao seu papel mais ou menos demarcado em sociedade. Assim, na mesma lógica, de maneira geral espera-se da mulher mais sensibilidade e apelando a uma distorção aberrante conceitual, mais “feminilidade”; o oposto, isto é, o homem dito “sensível”, é antes pejorativamente etiquetado como “afeminado”, ou aquele que não se enquadra no que se espera dos valores que giram em torno do “homem viril” ou o “macho patriarcal”. Outro valor recorrente no patriarcalismo é a ideia de que a mulher herda evolutivamente um instinto de maternidade, de modo que a mãe que “falha” ao criar o bebê é responsabilizada e martirizada pelos mais diversos rótulos da loucura, ora, nenhuma mulher nasce mãe, torna-se mãe! Para se defender a ideia de que toda mulher tem um instinto materno é necessário apelar para entidades dogmáticas ou pelo menos manter uma relação dogmática com determinadas explicações, o cristianismo e o evolucionismo são os argumentos mais comuns. A genética é o argumento mais moderno que na cabeça de alguns explica o que não se sabe ou não se quer pensar.

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