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Temática que gira em torno de assuntos com prioridade social e/ou política, no Brasil ou no mundo.

Nós que aqui estamos, de corpos costurados, por vós esperamos

O homem é enfermo porque é mal construído. Temos que nos decidir a desnudá-lo para raspar esse animalúculo que o corrói mortalmente,

deus
e juntamente com deus
os seus órgãos

Se quiserem, podem meter-me numa camisa de força
mas não existe coisa mais inútil que um órgão.

A. Artaud

*

 

Um evento assumiu ares de demoníaco, de satânico, de crime. Uma vagina, uma buceta, uma xereca costurada, enfim, um corpo usado de outra maneira do que fora ensinado. São as repercussões da mídia carta branca.

O corpo é o que somos, é campo inesgotável de descoberta. “O que pode um corpo?” é pergunta que não pode ser respondida, aliás, já é uma resposta-pergunta. O corpo explicado é um corpo costurado. O corpo prescrito e revisto pela medicina, pelo sexólogo, pelo cristianismo, pelos costumes, pela família, pela psicologia e suas fases do desenvolvimento, pelo ordenamento jurídico… são muitos os costureiros do corpo – e modelos de costura. O corpo deve ter postura, modo, forma. Somos entupidos de corpos ideais e seus usos. Um corpo a ser usado conforme o grande manual social costurado com várias normativas que não identificamos como tal, a maioria sequer se dá conta do corpo que é. Pensá-lo, experimentá-lo, vê-lo como campo de acontecimento, de desconstrução, criação e re-criação de si, de máquina de guerra.

Nossos corpos são costurados diariamente pelas linhas múltiplas dos saberes e dos poderes. Sagrada família, sagrada democracia, sagrada educação, sagrada saúde, sagrada religião, sagrado mundo ditado por todo tipo de gente fraca, podre e corrupta que se esconde em seus gabinetes para aperfeiçoar os controles das costuras. Cada espaço desse mundo está costurado, sexualidade é apenas uma das áreas, área fértil, dos costureiros agirem.

Modelitos inocentes de gênero, parentesco e intimidade. Homem, mulher, primos, namorados, colegas, amigos, amigo íntimo, amigo colorido, amante, minha mulher, meu marido ( (meu homem não se fala e não é por acaso)… por que precisamos de tantos modelos? A partir dos modelos costuram-se os limites. Nessa malha social é possível mover-se desde que respeitando as sinalizações das linhas. Costurados em modelos diferentes, homens e mulheres só se misturam à vontade se houver o intercâmbio necessário: se namorados, se amantes, se houver uma justificativa – do contrário o estranhamento é o sentimento mais comum. O desconforto e o incômodo surgem do próprio terreno cotidiano. De modo geral, um homem e uma mulher que não tenham um grau de intimidade já desenvolvido se sentem desconfortáveis, precisam percorrer as costuras do íntimo e dos papéis, ainda que se queiram, pois são costurados. Isso é uma típica costura, fina costura, de como corpos-costurados se relacionam no cotidiano. O jogo do enamoramento é um tatear das linhas costuradas um do outro, percebe-se que os corpos, ainda que desejosos, estão costurados em modelos e precisam caminhar em direção aos espaços permitidos, rasgar a costura pode assustar e por isso é necessário ir pedindo licença aos vários botões e zíperes. Homens e mulheres não somos nós, são personagens postos em uma guerra criada por uma moral escrava artesã de modelos sociais.

Debaixo da pele o corpo é uma fábrica a ferver, e por fora, o doente brilha, reluz, com todos os poros, estilhaçados. – A. Artaud. O fato de um pequeno grupo se reunir e uma garota costurar, literalmente, sua vagina escandaliza não pelo ato em si. O corpo é dela, teria que pedir licença a um dos vários padres modernos? Definitivamente não! Chamar o acontecimento de demoníaco, satânico, crime e até mesmo orgia, como se orgia fosse crime, por quê? A sagrada fachada foi quebrada. Goffman, em um estudo sobre as relações humanas, aponta o quanto nos mobilizamos para preservar o que ele chama de fachada, nas situações de constrangimentos incrivelmente lutamos para preservar a nossa (e a do outro) fachada. Transponho para a situação sem querer me ater ao significado para o autor. A fachada de cada um de nós… quanto nos permitimos a constrangimentos? Uma das maneiras mais comuns – e antigas! – de reconstruir uma fachada que é quebrada bruscamente já não é mais se solidarizar, mas desmerecer aquele que a quebrou, e não devemos nos espantar pelos nomes atribuídos à situação: ritual satânico, orgia, coisas de bruxa e demônio.

Costurar uma vagina em público denuncia. Denúncia em público. E não é qualquer denúncia, é uma denúncia sobre uma fachada que é preservada, e isso constrange e incomoda muito. A nossa grande fachada sexual. Materialização da nossa costura diária, com agulhas de ferro que espeta a carne e sangra. Diferentemente do que sofremos diariamente com as agulhas e linhas de um fascismo que quer costurar todos os espaços e não deixa suas marcas em vermelho-sangue, costureiro hábil e sutil que nada quer deixar escapar, as cidades, os corpos, os afetos, o pensamento. Hemorragias causadas em vidas inteiras, através de doses diárias de violência e modos perversos de legitimação do poder.

Com Foucault, chegamos a tal ponto que a questão não é descobrir o que somos, mas recusar aquilo que querem que somos. Ritual satânico? E por que não? Um demônio que enfiou uma agulha em nossos cus e costurou, sem anestesia, aquilo que temos permitido sem reclamar. A tal ponto chegamos que a razão, iluminada e cirurgicamente preparada nos dominantes “hospícios do saber”, oculta cada vez mais as costuras, e talvez seja urgente que os demônios denunciem aquilo que os santos querem nos roubar, e deveríamos ainda hoje nos espantar com algo tão semelhante àquela familiar e secular história de um demônio-serpente que denunciou o prazer que nos roubaram?

Somos costurados pelas doses diárias de imbecilidade da TV, pelas doses diárias da boa e gorda saúde dos homens de bem, pelas doses diárias de correções mentais prescritas pelas polícias psi, pelas doses diárias de “Hitlers” com mais ou menos lábia a nos dizer como nos comportar e como pensar, pelas doses diárias de uma classe média e alta que clama por mais vigilância e punição, pelas doses diárias de todo tipo de imbecil que ao invés de se revoltar contra seus cus costurados vai aplaudir a contagiante felicidade de obediência ditada pelos artistas-fanfarrões de TV e palcos diversos, pelas doses diárias de uma insensatez apressada, pelas doses diárias de uma ignorância sedenta por julgar sem conhecer.

Nós que aqui estamos, de cu, pinto e buceta costurados, por vós esperamos! A esperar, longas filas de espera para tudo, a sociedade inteira está se transformando em uma longa fila de espera conforme “descosturou” Bukowski. E é necessário ter bem claro – em meio a tantos costureiros prometendo libertação – que ninguém poderá desfazer as nossas próprias costuras senão cada um de nós mesmo.

É necessário descosturar muita coisa, mas antes de tudo uma força inocente para não costurar novos modelos. Prudência é necessário para nós que somos ex-crentes, ex-sagrados, ex-perfeitos. Órfãos! E assim continuemos, órfãos, filhos do caos e das forças que compõem corpos e corpos que se encontram e se alegram e se entristecem e nada mais, órfãos sem Pai sim! órfãos sem recorrer a novos padres, a novos pais, a novos gurus, ao psicanalista e suas odes à falta. Sem recorrer a tantos costureiros da realidade.

* O título é uma alusão, também, ao excelente filme de Marcelo Masagão chamado “Nós que aqui estamos por vós esperamos” (1991).

A violência legitimada pela Copa do Mundo 2014

Um excelente texto. A Copa enquanto um estado de legitimação da violência e da exceção de Estado! Nós sabemos de muita coisa que vem à tona, no entanto, pouco sabemos das relações, micro-relações, que se passam em nome da Copa, segregando, excluindo, violentando. Sem dúvida, para aqueles que minimamente não são tomados pela rasa visão dos negócios de ver a Copa como um grande espetáculo do bem, a violência, em todos os níveis, é o que de mais se sobressai juntamente com os vultuosos desperdícios do dinheiro público.

A Copa já era

(…) Bem se vê que o legado maléfico para os trabalhadores brasileiros com a Copa não está apenas nas más condições de trabalho e nos conseqüentes oito acidentes fatais (não se contando aqui os vários outros acidentes do trabalho que não resultaram em óbito), o que, por si, já constitui um grande prejuízo, ainda mais se lembrarmos que as obras para a Copa da África em 2010 deixaram 02 mortes por acidente do trabalho, está também na tentativa explícita de culpar as vítimas, buscando atingir a uma impunidade que reforça a lógica de uma exploração do trabalho alheio pautada pela desconsideração da dignidade humana.

A Copa já trouxe grandes prejuízos à classe trabalhadora e é preciso impedir que se consagrem e se prolonguem, mansa e silenciosamente, para o período pós-Copa. Não tendo sido possível obstar que o Estado de exceção se instaurasse na Copa é essencial, ao menos, não permitir que ele continue produzindo efeitos.
O passo fundamental é o de recuperar a consciência, pois a porta aberta às concessões morais e éticas para atender aos interesses econômicos na realização da Copa tem deixado passar a própria dignidade, o que resta demonstrado nas manifestações que tentam justificar o injustificável apenas para não permitir qualquer abalo na “organização” do evento. Foi assim, por exemplo, que o maior atleta do século XX e melhor jogador de futebol de todos os tempos, o eterno Pelé, chegou a sugerir, mesmo que não tenha tido uma intenção malévola, que mortes em obras são fatos que acontecem, “são coisas da vida” e que se preocupava mesmo era com o atraso nas obras dos aeroportos; que o competente e carismático técnico da seleção brasileira, Luiz Felipe Scolari, ainda que sem querer ofender, afirmou que a solução para o problema do racismo no futebol é ignorar os “babacas” que cometem tais ofensas, pois puni-los não resolve nada; e que o Ministro de Minas e Energia, Edson Lobão, cogitou pedir para que os cidadãos brasileiros economizassem energia a fim de que não faltasse luz na Copa. (…)

Por Jorge Luiz Souto Maior, professor livre docente de direito do trabalho brasileiro na USP. É juiz titular na 3ª Vara do Trabalho de Jundiaí desde 1998, palestrante e conferencista. Via: Blog do Juca

O homem do bem

Desconfio e tenho receio,
de quem fala em nome de/do(a)
bem
justiça
amor
verdade.

Desconfio de quem quem fala em nome de deus, da paz, da ciência, da fé, do trabalho, do especialista, da mídia, do amor de mãe e do amor de pai.

Qualquer grande ditador que o mundo já conheceu agiu em nome dos valores ou instituintes acima. Nunca se matou tanto em nome de deus e do amor. Atualmente, nunca se mata tanto em nome da justiça. O poder adora se legitimar em nome de supostos valores que ele mesmo instaura. A métrica do homem do bem é a blasfêmia da vida, seus valores são formas de dominação para fazer de sua fraqueza a própria força. Perpetuação do poder em vários níveis, da população que se junta para espancar uma mulher que se ouviu dizer que praticava o “mal” até mesmo quando um homem desempregado chega em casa e agride a mulher, os filhos e o cachorro; a hierarquia do poder desce: essa mãe tem o filho e o cachorro para impor seu poder.

E parece que todos sabem dizer quem é do bem, quem é justo e quem é verdadeiro, ainda que diante de perguntas – “O que é o bem? – é bem provável que titubeiem. Se perguntarmos “quem é do bem?” então só a modéstia evitará a resposta “sou eu mesmo”, porque o outro parece sempre estar em falta com alguma coisa para que seja do bem. Quando criança e me deparei, pela primeira vez, com livros introdutórios e gerais de filosofia, me deparava com excertos gerais sobre o bem, o mal, o belo, o justo, etc., eu me espantava com o impacto, lia e relia mas não conseguia chegar a nenhuma apreensão. Hoje continuo sem nenhuma conclusão, mas não preciso ler e reler. A questão não é definir quando se sabe que a vida não comporta definições e toda definição é algo que veio de algum lugar para servir a algo e a alguém, portanto, mutável, na verdade, posso dizer mais sobre origens e funcionamento de tudo isso, mas não teria uma resposta para o que é bem. Mas para o homem do bem isso não acontece, ele é incrível, ainda que gagueje diante da pergunta “o que é o bem” ele é capaz de definir e julgar.

É muito difícil encontrar pessoas que não sejam do bem. Muito difícil encontrar pessoas mentirosas, maldosas, descrentes, injustas. Gente infeliz também é difícil de encontrar, ainda que os grandes centros de compras nos desmintam: gente infeliz adora fazer compras. Com tanta gente do bem, que ama, que trabalha, que é justa, que é verdadeira… fica difícil entender por que tanta sede de justiça e amor ao poder.